Dona do GBarbosa, gigante dos supermercados é processada por expor trabalhadores a risco de desabamento em depósito

به قلم Rodrigo Chagas24/09/2026 às 09:003 بازدید
Fachada da unidade do GBarbosa em Itabaiana (SE), alvo de ação civil pública do MPT por problemas estruturais no depósito da loja.
Fachada da unidade do GBarbosa em Itabaiana (SE), alvo de ação civil pública do MPT por problemas estruturais no depósito da loja.
Brasil de Fato

A Cencosud, multinacional chilena que projeta faturar US$ 18,4 bilhões em 2026 e mantém 268 supermercados e atacarejos no Brasil, foi processada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) pelas condições estruturais do depósito de uma unidade do GBarbosa em Itabaiana, no interior de Sergipe. Segundo a ação civil pública ajuizada pelo MPT em 17 de setembro de 2026, trabalhadores permaneceram por cerca de um ano em uma área cuja segurança dependia de escoramento provisório e de restrições sobre o peso armazenado na laje.

A denúncia que deu origem à investigação chegou ao MPT em 21 de junho de 2025. O relato dizia que o depósito funcionava havia aproximadamente um ano sob escoramento e que a situação atingia empregados do supermercado, terceirizados e promotores de vendas de empresas fornecedoras. Alguns desses promotores chegaram a se recusar a entrar no local por orientação de seus empregadores, enquanto o setor continuava sendo utilizado para circulação e armazenamento de mercadorias.

O MPT pede R$ 200 mil por danos morais coletivos e sustenta que a Cencosud adotou um “padrão de conformidade reativa”, porque o contrato para recuperação e reforço estrutural definitivo foi formalizado somente em 26 de junho de 2025, um dia depois da abertura do inquérito civil e da notificação da empresa.

Para dimensionar o porte econômico da companhia e fundamentar o valor da indenização, o MPT destaca que a Cencosud Brasil Comercial, principal empresa do grupo no país, tem capital social superior a R$ 4,32 bilhões e cita um histórico de mais de 2.855 autos de infração lavrados por órgãos de fiscalização do trabalho em todo o país. A reforma custou pouco mais de R$ 340 mil.

Imagens anexadas à ação civil pública mostram o depósito do GBarbosa de Itabaiana (SE) com escoramento provisório instalado sob a laje. (Imagens: Reprodução)
Imagens anexadas à ação civil pública mostram o depósito do GBarbosa de Itabaiana (SE) com escoramento provisório instalado sob a laje. (Imagens: Reprodução)
Imagens anexadas à ação civil pública mostram o depósito do GBarbosa de Itabaiana (SE) com escoramento provisório instalado sob a laje. (Imagens: Reprodução)

No Brasil, a Cencosud distribui suas operações entre diferentes empresas e CNPJs. Entre elas estão a Cencosud Brasil Comercial, que concentra bandeiras como o GBarbosa, e a Cencosud Brasil Atacado, ligada às operações de atacarejo do grupo.

Entre 2024 e junho de 2026, essas duas empresas declararam juntas R$ 323,6 milhões em benefícios fiscais federais, segundo levantamento do Brasil de Fato com dados da Receita Federal. Foram R$ 64,4 milhões em 2024, R$ 102,3 milhões em 2025 e R$ 156,9 milhões apenas nos primeiros seis meses deste ano.

Todos os laudos sobre a segurança estrutural do depósito juntados ao processo convergiram em um ponto: as escoras eram essenciais para que a construção não apresentasse risco iminente de colapso. A engenharia contratada pela própria Cencosud identificou corrosão de armaduras na laje e condicionou a segurança à manutenção do escoramento e à restrição de carga; o perito do MPT chegou à mesma conclusão, e a Auditoria-Fiscal do Trabalho classificou a operação como de “monitoramento e uso controlado” enquanto as obras definitivas não fossem concluídas.

Reparo definitivo foi contratado após abertura de inquérito

A cronologia é um dos principais argumentos apresentados pelo MPT para ajuizar a ACP. A denúncia foi recebida em 21 de junho e o inquérito civil foi instaurado no dia 25. Apenas no dia seguinte, a Cencosud formalizou a contratação da Conceito Engenharia e Serviços para a recuperação e o reforço estrutural, por R$ 341,9 mil. Em 27 de junho, apresentou sua primeira resposta ao Ministério Público.

Os autos, no entanto, mostram que a empresa já vinha adotando medidas antes da abertura do inquérito. Um plano encaminhado à Defesa Civil em 26 de maio informava a implantação de escoramento metálico provisório, a realocação de uma empilhadeira e de cargas mais pesadas e dizia que a contratação de uma empresa especializada na recuperação estrutural estava em andamento.

A Cencosud informou que concluiu as obras em 17 de outubro de 2025 e, em março de 2026, pediu o arquivamento do caso sem assinar o Termo de Ajuste de Conduta (TAC) proposto pelo MPT. O acordo previa que a empresa mantivesse controle rigoroso de cargas, rotas de fuga desobstruídas, treinamentos periódicos, comunicação dos riscos e a proibição de trabalho em áreas consideradas inseguras.

Na audiência de 17 de março deste, a empresa afirmou que todas as medidas já haviam sido adotadas com rapidez e boa-fé e considerou o TAC desnecessário. O MPT discordou e levou o caso à Justiça.

Treinamento sobre desabamento virou outro ponto de conflito

A investigação também encontrou divergências sobre a preparação dos funcionários para lidar com o risco estrutural. O próprio Plano de Saúde e Segurança do Trabalho em Obras da Cencosud previa que trabalhadores diretos e indiretos fossem treinados sobre riscos de desabamento, medidas preventivas e procedimentos de evacuação.

Em setembro de 2025, a empresa realizou um treinamento para 50 participantes e, posteriormente, entregou ao MPT listas de presença, fotografias e o conteúdo utilizado. O material tinha como tópicos apresentação do Plano de Atendimento a Emergências, suporte externo e procedimentos básicos de emergência.

Segundo análise técnica do MPT, porém, o conteúdo era concentrado em prevenção e combate a incêndio e não trazia um módulo específico sobre colapso estrutural.

A Cencosud contestou essa avaliação. Nos autos, afirmou que o treinamento abordou evacuação, comunicação de riscos, responsabilidades dos trabalhadores e cadeia de comando e que, por isso, atendia integralmente ao plano de segurança e às determinações do Ministério Público.

Na ação, além dos R$ 200 mil por danos morais coletivos, o MPT pede que a empresa faça anualmente, durante três anos, treinamento específico sobre riscos de colapso, sinais de fadiga estrutural e evacuação. Também quer que a Cencosud apresente, no mesmo período, laudo anual de inspeção do prédio, além de manter controle permanente das cargas, rotas de fuga desobstruídas e comunicação dos riscos aos trabalhadores.

O Ministério Público também pede multa de R$ 5 mil por obrigação descumprida, acrescida de R$ 500 por trabalhador atingido.

Grupo cresceu durante ditadura chilena e hoje opera em seis países

O GBarbosa faz parte da Cencosud desde 2007, quando a compra da rede marcou a entrada do grupo chileno no mercado brasileiro. Atualmente, a companhia mantém no país marcas como Prezunic, Perini, Giga Atacado, Mercantil Atacado e Spid, além do próprio GBarbosa. A Cencosud informa ter 268 lojas de varejo em oito estados do Brasil.

Embora o negócio da família Paulmann tenha começado antes do golpe, foi durante a ditadura de Augusto Pinochet que foram lançadas as bases da expansão que transformaria a Cencosud em um gigante do varejo. O primeiro Jumbo foi inaugurado em Santiago em 1976 e, em 1982, o grupo iniciou sua expansão internacional com uma unidade na Argentina.

Fundador da Cencosud, Horst Paulmann elogiaria anos depois a abertura econômica iniciada pelos Chicago Boys nos anos 1970, grupo de economistas responsável por reformas de mercado durante a ditadura. Em 2006, o empresário também compareceu à cerimônia fúnebre de Pinochet na Escola Militar, em Santiago.

Hoje, a Cencosud atua no Chile, Argentina, Brasil, Peru, Colômbia e Estados Unidos, com marcas como Jumbo, Disco, Vea, Wong, Metro e The Fresh Market, além da rede de materiais de construção Easy e das lojas de departamento Paris. O conglomerado reúne 982 supermercados, 68 lojas de atacarejo, 43 unidades de conveniência, 114 lojas de materiais e melhoramento do lar e 48 lojas de departamento, além de 69 shopping centers. Para 2026, projeta receita consolidada de US$ 18,4 bilhões e investimentos de cerca de US$ 600 milhões.

Nos autos do processo de Itabaiana, a Cencosud sustenta que não havia risco iminente de desabamento, que adotou as providências técnicas necessárias e que a recuperação estrutural foi concluída. A empresa também argumentou que, após as obras, não subsistia irregularidade que justificasse a assinatura do TAC e pediu o arquivamento da investigação.

A Cenconsud não respondeu aos pedidos de posicionamento do Brasil de Fato até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

منبع
Brasil de Fato
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