A Cencosud, multinacional chilena que projeta faturar US$ 18,4 bilhões em 2026 e mantém 268 supermercados e atacarejos no Brasil, foi processada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) pelas condições estruturais do depósito de uma unidade do GBarbosa em Itabaiana, no interior de Sergipe. Segundo a ação civil pública ajuizada pelo MPT em 17 de setembro de 2026, trabalhadores permaneceram por cerca de um ano em uma área cuja segurança dependia de escoramento provisório e de restrições sobre o peso armazenado na laje.
A denúncia que deu origem à investigação chegou ao MPT em 21 de junho de 2025. O relato dizia que o depósito funcionava havia aproximadamente um ano sob escoramento e que a situação atingia empregados do supermercado, terceirizados e promotores de vendas de empresas fornecedoras. Alguns desses promotores chegaram a se recusar a entrar no local por orientação de seus empregadores, enquanto o setor continuava sendo utilizado para circulação e armazenamento de mercadorias.
O MPT pede R$ 200 mil por danos morais coletivos e sustenta que a Cencosud adotou um “padrão de conformidade reativa”, porque o contrato para recuperação e reforço estrutural definitivo foi formalizado somente em 26 de junho de 2025, um dia depois da abertura do inquérito civil e da notificação da empresa.
Para dimensionar o porte econômico da companhia e fundamentar o valor da indenização, o MPT destaca que a Cencosud Brasil Comercial, principal empresa do grupo no país, tem capital social superior a R$ 4,32 bilhões e cita um histórico de mais de 2.855 autos de infração lavrados por órgãos de fiscalização do trabalho em todo o país. A reforma custou pouco mais de R$ 340 mil.

No Brasil, a Cencosud distribui suas operações entre diferentes empresas e CNPJs. Entre elas estão a Cencosud Brasil Comercial, que concentra bandeiras como o GBarbosa, e a Cencosud Brasil Atacado, ligada às operações de atacarejo do grupo.
Entre 2024 e junho de 2026, essas duas empresas declararam juntas R$ 323,6 milhões em benefícios fiscais federais, segundo levantamento do Brasil de Fato com dados da Receita Federal. Foram R$ 64,4 milhões em 2024, R$ 102,3 milhões em 2025 e R$ 156,9 milhões apenas nos primeiros seis meses deste ano.
Todos os laudos sobre a segurança estrutural do depósito juntados ao processo convergiram em um ponto: as escoras eram essenciais para que a construção não apresentasse risco iminente de colapso. A engenharia contratada pela própria Cencosud identificou corrosão de armaduras na laje e condicionou a segurança à manutenção do escoramento e à restrição de carga; o perito do MPT chegou à mesma conclusão, e a Auditoria-Fiscal do Trabalho classificou a operação como de “monitoramento e uso controlado” enquanto as obras definitivas não fossem concluídas.
Reparo definitivo foi contratado após abertura de inquérito
A cronologia é um dos principais argumentos apresentados pelo MPT para ajuizar a ACP. A denúncia foi recebida em 21 de junho e o inquérito civil foi instaurado no dia 25. Apenas no dia seguinte, a Cencosud formalizou a contratação da Conceito Engenharia e Serviços para a recuperação e o reforço estrutural, por R$ 341,9 mil. Em 27 de junho, apresentou sua primeira resposta ao Ministério Público.
Os autos, no entanto, mostram que a empresa já vinha adotando medidas antes da abertura do inquérito. Um plano encaminhado à Defesa Civil em 26 de maio informava a implantação de escoramento metálico provisório, a realocação de uma empilhadeira e de cargas mais pesadas e dizia que a contratação de uma empresa especializada na recuperação estrutural estava em andamento.
A Cencosud informou que concluiu as obras em 17 de outubro de 2025 e, em março de 2026, pediu o arquivamento do caso sem assinar o Termo de Ajuste de Conduta (TAC) proposto pelo MPT. O acordo previa que a empresa mantivesse controle rigoroso de cargas, rotas de fuga desobstruídas, treinamentos periódicos, comunicação dos riscos e a proibição de trabalho em áreas consideradas inseguras.
Na audiência de 17 de março deste, a empresa afirmou que todas as medidas já haviam sido adotadas com rapidez e boa-fé e considerou o TAC desnecessário. O MPT discordou e levou o caso à Justiça.
Treinamento sobre desabamento virou outro ponto de conflito
A investigação também encontrou divergências sobre a preparação dos funcionários para lidar com o risco estrutural. O próprio Plano de Saúde e Segurança do Trabalho em Obras da Cencosud previa que trabalhadores diretos e indiretos fossem treinados sobre riscos de desabamento, medidas preventivas e procedimentos de evacuação.
Em setembro de 2025, a empresa realizou um treinamento para 50 participantes e, posteriormente, entregou ao MPT listas de presença, fotografias e o conteúdo utilizado. O material tinha como tópicos apresentação do Plano de Atendimento a Emergências, suporte externo e procedimentos básicos de emergência.
Segundo análise técnica do MPT, porém, o conteúdo era concentrado em prevenção e combate a incêndio e não trazia um módulo específico sobre colapso estrutural.
A Cencosud contestou essa avaliação. Nos autos, afirmou que o treinamento abordou evacuação, comunicação de riscos, responsabilidades dos trabalhadores e cadeia de comando e que, por isso, atendia integralmente ao plano de segurança e às determinações do Ministério Público.
Na ação, além dos R$ 200 mil por danos morais coletivos, o MPT pede que a empresa faça anualmente, durante três anos, treinamento específico sobre riscos de colapso, sinais de fadiga estrutural e evacuação. Também quer que a Cencosud apresente, no mesmo período, laudo anual de inspeção do prédio, além de manter controle permanente das cargas, rotas de fuga desobstruídas e comunicação dos riscos aos trabalhadores.
O Ministério Público também pede multa de R$ 5 mil por obrigação descumprida, acrescida de R$ 500 por trabalhador atingido.
Grupo cresceu durante ditadura chilena e hoje opera em seis países
O GBarbosa faz parte da Cencosud desde 2007, quando a compra da rede marcou a entrada do grupo chileno no mercado brasileiro. Atualmente, a companhia mantém no país marcas como Prezunic, Perini, Giga Atacado, Mercantil Atacado e Spid, além do próprio GBarbosa. A Cencosud informa ter 268 lojas de varejo em oito estados do Brasil.
Embora o negócio da família Paulmann tenha começado antes do golpe, foi durante a ditadura de Augusto Pinochet que foram lançadas as bases da expansão que transformaria a Cencosud em um gigante do varejo. O primeiro Jumbo foi inaugurado em Santiago em 1976 e, em 1982, o grupo iniciou sua expansão internacional com uma unidade na Argentina.
Fundador da Cencosud, Horst Paulmann elogiaria anos depois a abertura econômica iniciada pelos Chicago Boys nos anos 1970, grupo de economistas responsável por reformas de mercado durante a ditadura. Em 2006, o empresário também compareceu à cerimônia fúnebre de Pinochet na Escola Militar, em Santiago.
Hoje, a Cencosud atua no Chile, Argentina, Brasil, Peru, Colômbia e Estados Unidos, com marcas como Jumbo, Disco, Vea, Wong, Metro e The Fresh Market, além da rede de materiais de construção Easy e das lojas de departamento Paris. O conglomerado reúne 982 supermercados, 68 lojas de atacarejo, 43 unidades de conveniência, 114 lojas de materiais e melhoramento do lar e 48 lojas de departamento, além de 69 shopping centers. Para 2026, projeta receita consolidada de US$ 18,4 bilhões e investimentos de cerca de US$ 600 milhões.
Nos autos do processo de Itabaiana, a Cencosud sustenta que não havia risco iminente de desabamento, que adotou as providências técnicas necessárias e que a recuperação estrutural foi concluída. A empresa também argumentou que, após as obras, não subsistia irregularidade que justificasse a assinatura do TAC e pediu o arquivamento da investigação.
A Cenconsud não respondeu aos pedidos de posicionamento do Brasil de Fato até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.
