Aprendiz de canalha: o que move Donald Trump

Por James Green15/09/2026 às 11:001 visualizações
Agencia Publica

Apesar das muitas artimanhas, Donald Trump não está conseguindo aumentar sua popularidade, que permanece baixa e estagnada. A alta nos preços do petróleo — causada pela guerra dos Estados Unidos contra o Irã, um conflito interminável e sem qualquer estratégia de saída — e as políticas tarifárias de Trump aumentaram significativamente os custos do dia a dia do cidadão comum, independentemente de suas inclinações políticas. Além disso, ele enfrenta a possibilidade real de perder o controle da Câmara dos Representantes nas eleições de 3 de novembro deste ano e, talvez, até mesmo do Senado.

Ainda assim, Trump segue em frente. Ele compreende que, sem seu nome na cédula nas próximas eleições, muitos de seus apoiadores menos fervorosos podem não se dar ao trabalho de votar. Por isso, o presidente dos EUA faz todo o possível para restringir o direito de voto daqueles setores da população com maior probabilidade de votar nos Democratas.

Sua iniciativa mais recente é tentar limitar o uso do voto pelo correio — modalidade utilizada por um terço de todos os eleitores aptos — sob o argumento de que imigrantes não cidadãos podem votar nas eleições dos EUA e de que o processo é vulnerável a fraudes. Nesta semana, a Suprema Corte dos EUA decidirá se Trump pode prosseguir com a tentativa de usar o Serviço Postal dos EUA para definir quem tem direito a receber a cédula de votação pelo correio. Ironicamente, os esforços de Trump podem acabar sendo contraproducentes, uma vez que, até pouco tempo atrás, os republicanos eram mais propensos a votar por correio do que os democratas e os eleitores independentes.

Para mobilizar sua base, Trump convocou uma convenção eleitoral na semana passada, no Texas, estado que tem sido um reduto republicano sólido há décadas. O presidente escolheu Dallas como palco de seu mais recente comício de mobilização em grande parte para fortalecer seu candidato ao Senado, escolhido a dedo: Ken Paxton, o Procurador-Geral do Texas. Em 2023, a Câmara dos Representantes do Texas, de maioria republicana, votou (por 121 votos a 23) a favor do impeachment de Paxton sob acusações de suborno, obstrução à justiça e abuso de confiança pública, embora o Senado do Texas o tenha absolvido das acusações.

Após derrotar de forma avassaladora seu rival John Cornyn — um poderoso senador que cumpre seu quarto mandato — nas primárias republicanas, ele agora enfrenta James Talarico, um jovem e carismático cristão progressista que lidera as pesquisas eleitorais com uma vantagem de vários pontos. Se esses números se confirmarem, uma vitória de Talarico poderá significar o controle democrata do Senado.

Os cheques “sem fundos” de Trump

Aparentemente em pânico com uma possível derrota eleitoral em nível nacional, Trump prometeu emitir um cheque de 5 mil dólares para cada cidadão adulto dos EUA após as eleições de novembro, caso os republicanos mantenham o controle da Câmara e do Senado. Economistas argumentam que isso custaria 1,2 trilhão de dólares e inevitavelmente alimentaria a inflação, além de aumentar o déficit federal.

Além disso, apesar de Trump afirmar que tem o direito legal de emitir os cheques, o Congresso precisaria aprová-los, e alguns políticos republicanos já sinalizam que a proposta poderia não obter votos suficientes no Senado para ser aprovada. Os democratas classificam a proposta como um suborno ilegal, embora decisões recentes da Suprema Corte possam invalidar essa alegação.

Apesar da promessa poder soar bem para apoiadores ingênuos de Trump, jornalistas o questionaram por que não envia o cheque antes das eleições, já que atualmente controla ambas as casas do Congresso, conta com uma Suprema Corte favorável e detém a caneta presidencial para transformar essa medida em lei.

A resposta de Trump tem sido um amontoado de justificativas e inverdades, variando desde a alegação de que os democratas iriam se opor à medida — apesar de os republicanos controlarem o Congresso — até a mentira de que o governo dos EUA recebeu “trilhões de dólares” de sua política tarifária, recursos que poderiam custear os cheques.

Ademais, Trump fez promessas grandiosas semelhantes no passado e jamais as cumpriu. No início de seu segundo mandato, enquanto Elon Musk desmantelava programas governamentais e eliminava empregos de 300 mil funcionários federais, o presidente prometeu distribuir 20% da economia do orçamento federal aos cidadãos americanos. Ele nunca o fez.

No final de 2025, Trump prometeu enviar 2 mil a cada pessoa — exceto àquelas de alta renda — com base nos supostos “trilhões de dólares” que o governo teria arrecadado com tarifas. Isso também nunca aconteceu.

Ao mesmo tempo, Trump continua a utilizar a tática de fazer declarações escandalosas, concebidas, em parte, para desviar a atenção pública de suas vulnerabilidades atuais. Isso envolve oferecer gestos simbólicos vazios, destinados a agradar à sua base de apoio MAGA (do inglês Make America Great Again, Tornar a América Grande Novamente), como renomear o Lago Ontário para Lago América e o estado do Novo México para Nova América. Trump calcula que esses gestos mobilizarão seus apoiadores leais, o que será essencial para evitar uma grande derrota eleitoral em novembro. A estratégia também desvia o foco da mídia de outras ações condenáveis de Trump.

A trajetória de um canalha e seu mentor

Como podemos compreender as manobras de Trump — que parecem tão irracionais e insensatas — senão insistindo que as capacidades mentais do presidente estão em declínio e que sua conexão com a realidade é cada vez mais precária? Na biografia recém-lançada, Canalha Americana: A trajetória sombria de Roy Cohn, de Joe McCarthy a Donald Trump (no inglês, American Scoundrel: Roy Cohn’s Dark Journey from Joe McCarthy to Donald Trump), o biógrafo vencedor do Prêmio Pulitzer, Kai Bird, oferece insights importantes sobre como e por que Trump age da maneira que age.

Roy Cohn (1927–1986) permanece uma figura controversa na história dos EUA. Homossexual que não assumia publicamente sua orientação sexual, ele se envolveu, ainda na casa dos vinte anos, no famoso caso Rosenberg, no qual Julius e Ethel Rosenberg — membros do Partido Comunista dos EUA — foram julgados, condenados e executados por repassar informações à União Soviética sobre o programa de bombas nucleares dos EUA. Posteriormente, ele apoiou as investigações televisadas de 1954 do senador de Minnesota, Joseph McCarthy, sobre a suposta influência comunista nas Forças Armadas dos EUA. Uma característica dessas audiências era o interrogatório agressivo — ou, como alguns diriam, intimidador — por parte de Cohn, o que acabou por desacreditar as ações dele e as de McCarthy.

Cohn tornou-se então advogado de clientes ricos de Nova York, de políticos e de chefes da Máfia. Simultaneamente, manteve laços com os presidentes republicanos Richard Nixon e Ronald Reagan. Ele também se tornou mentor e conselheiro informal de Trump, conversando regularmente com o empresário imobiliário nova-iorquino.

Sob a orientação de Cohn, Trump aprendeu a nunca admitir um erro e a sempre culpar seus adversários por qualquer problema ou irregularidade. Cohn ensinou Trump a evitar o pagamento de dívidas, a ignorar regras tradicionais, a negar a verdade quando fosse inconveniente e a nunca deixar rastros documentais. Ele também mostrou a Trump como manipular a mídia, um talento que Trump aperfeiçoou com os tabloides de Nova York.

Cohn desprezava o movimento LGBT e opunha-se à presença de gays e lésbicas no funcionalismo público e no governo federal. Ele morreu devido a complicações da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, a AIDS. A premiada peça de 1991 de Tony Kushner, Anjos na América (Angels in America), incorpora Cohn à trama com maestria. Assombrado por Ethel Rosenberg, ele busca desesperadamente medicamentos para combater a doença.

As comparações entre Cohn e Trump são inúmeras e alarmantes, sugerindo que o atual presidente dos EUA, embora pareça errático, opera com uma estratégia política sofisticada.

Trump emulou a imoralidade e a falta de ética de Cohn, combinando-as com um talento para enganar as pessoas e tirar-lhes dinheiro. Nesse aspecto, ele personifica o vendedor de “elixires milagrosos” do Velho Oeste — figura do século 19 que viajava de cidade em cidade promovendo tônicos inúteis, supostamente capazes de curar todo tipo de enfermidade, do reumatismo à dor de dente. A comercialização, por parte de Trump, de produtos de marca com preços inflacionados — como carnes, vodca, água, gravatas, perfumes, relógios, Bíblias “God Bless the USA”, cards digitais e “Moedas da Vitória” de ouro maciço de uma onça — revela seu talento contínuo para ludibriar consumidores ingênuos.

Um aprendiz de maus hábitos

A sobrinha de Trump, Mary L. Trump — psicóloga clínica e autora do livro de 2020 Demais e Nunca o Suficiente: Como Minha Família Criou o Homem Mais Perigoso do Mundo (Too Much and Never Enough: How My Family Created the World’s Most Dangerous Man) —, oferece perspectivas adicionais sobre a personalidade de Trump que nos ajudam a compreender sua estrutura psicológica.

Segundo Mary Trump, o pai do presidente, Fred Trump Sr., era emocionalmente abusivo. Ele ensinou o filho a nunca demonstrar fraqueza, a mentir, a trapacear, a intimidar os oponentes e a roubar, desde que pudesse sair impune. Ela argumenta que o narcisismo extremo do presidente dos EUA reflete inseguranças profundas e não resolvidas que regem seu mundo emocional. O amor e a admiração que o presidente busca junto a líderes mundiais, segundo ela, servem para compensar a falta de afeto e o sentimento de indignidade, moldados pelos maus-tratos psicológicos impostos por seu pai.

A autopromoção de Trump, personificada por seu reality show de 15 temporadas, O Aprendiz (The Apprentice), criou uma figura imaginária que era, ao mesmo tempo, brilhante nos negócios e implacável nas decisões executivas. Isso também ocultou o fato de que muitos de seus empreendimentos financeiros fracassaram e de que ele declarou falência empresarial quatro vezes.

Para seus apoiadores leais, ele é um irreverente que quebra as regras para tornar o país grande novamente. Até mesmo seus fervorosos apoiadores cristãos evangélicos revelam infidelidades conjugais, relações com profissionais do sexo, fixação por mulheres menores de idade, longa e estreita amizade com Jeffrey Epstein e condenação por agressão sexual.

Eles aderiram ao seu culto e votam.

Resta saber se isso será suficiente para Trump manter o controle do Congresso. Enquanto isso, para a maioria dos residentes dos Estados Unidos que sofrem com o alto custo de vida, o melhor seria não gastar os 5 mil dólares na expectativa de um cheque que jamais chegará pelo correio.

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