Contra a Violência de Gênero e o Feminicídio: rompendo o silêncio e salvando vidas

Por Colaboratório Com Elas15/09/2026 às 19:433 visualizações
Entre avanços e falhas na proteção, especialistas alertam para a necessidade de ações permanentes de enfrentamento à violência de gênero.
Entre avanços e falhas na proteção, especialistas alertam para a necessidade de ações permanentes de enfrentamento à violência de gênero.
Brasil de Fato

Romper o silêncio sobre a violência de gênero é uma necessidade urgente. O feminicídio representa a expressão mais extrema de desigualdades históricas que continuam atravessando a vida das mulheres brasileiras. Essas mortes não acontecem de forma repentina: são precedidas por diferentes formas de violência, frequentemente ignoradas ou naturalizadas. São exemplos as violências física, psicológica, sexual, patrimonial/econômica, moral e simbólica (Lei 11.340/2006).

Falar sobre feminicídio é, portanto, reconhecer a urgência da prevenção, fortalecer redes de cuidado e assumir o compromisso coletivo de salvar vidas.

Os dados nacionais mais recentes reforçam a gravidade desse cenário. Em 2025, o Brasil registrou 1.548 feminicídios, o equivalente a mais de quatro mulheres assassinadas por dia em razão do gênero. Além disso, foram registradas 3.821 tentativas de feminicídio, evidenciando que a violência letal contra mulheres constitui um fenômeno persistente e de elevada magnitude no país.

Os dados epidemiológicos demonstram que o feminicídio possui marcadores sociais importantes. Entre as vítimas registradas entre 2021 e 2024, 62,6% eram mulheres negras, enquanto 36,8% eram mulheres brancas. Mulheres indígenas e amarelas corresponderam a 0,3% dos registros em cada grupo. Esses dados evidenciam que gênero, raça e desigualdades socioeconômicas atuam de forma articulada na produção das vulnerabilidades e devem orientar a formulação de políticas públicas mais equitativas.

O perfil dos feminicídios também revela que a violência letal contra mulheres ocorre, predominantemente, no âmbito das relações íntimas. Em grande parte dos casos, os autores são companheiros ou ex-companheiros das vítimas, demonstrando que os espaços tradicionalmente associados ao cuidado e à proteção podem se transformar em cenários de intenso risco. Esses achados reforçam a necessidade de ampliar o olhar para além do ato final da violência, reconhecendo os processos que antecedem essas mortes.

O feminicídio raramente ocorre de forma abrupta. Em muitos casos, ele é precedido por ameaças, violência psicológica, agressões físicas, isolamento social e tentativas frustradas de busca por ajuda. Isso significa que existem oportunidades concretas para intervenção e que o fortalecimento das redes de proteção pode representar a diferença entre a vida e a morte.

No Distrito Federal, os indicadores disponíveis também exigem atenção imediata. Pesquisa divulgada em 2026 revelou que 77% das mulheres do DF já sofreram algum tipo de violência praticada pelo parceiro íntimo. Entre elas, 44% relataram violência psicológica, 24% violência física e 18% violência sexual, revelando a elevada magnitude da violência de gênero no contexto distrital.

Os registros de feminicídio no Distrito Federal reforçam essa preocupação. Em 2025, 28 mulheres foram vítimas desse crime, resultando em uma taxa de 1,8 feminicídio por 100 mil mulheres, superior à média nacional. Esses números evidenciam a necessidade de fortalecer estratégias de prevenção, acolhimento e proteção voltadas às mulheres em situação de violência.

Além disso, o Distrito Federal registra mais de 23 mil ocorrências anuais de violência contra mulheres, o equivalente a aproximadamente 60 casos por dia. Apenas cerca de 30% dos casos envolvem agressões físicas, e menos de um terço das mulheres formaliza denúncia, revelando importantes barreiras no acesso à proteção institucional. 

É diante dessa realidade que emerge o Colaboratório Com Elas – Pelo fim do feminicídio no Distrito Federal, iniciativa vinculada à Fiocruz Brasília, construída a partir do reconhecimento de que respostas efetivas à violência de gênero exigem participação social, fortalecimento das instituições públicas e compromisso permanente com os territórios.

Construção coletiva

A trajetória do Colaboratório teve início em 2024, a partir da mobilização dos próprios movimentos sociais comprometidos com a defesa da vida das mulheres no Distrito Federal. Foram realizadas quatro oficinas participativas, reunindo 75 movimentos sociais parceiros, além de representantes da gestão pública, profissionais dos serviços, lideranças comunitárias e instituições comprometidas com a promoção dos direitos das mulheres. Esse processo coletivo permitiu identificar prioridades, pactuar estratégias e estabelecer alianças fundamentais para a construção do Colaboratório.

Desde sua origem, o Colaboratório reconhece os movimentos sociais como protagonistas na formulação das respostas ao feminicídio. Trata-se de uma iniciativa que emerge dos territórios e das experiências acumuladas pelas mulheres organizadas, valorizando saberes construídos na prática cotidiana da defesa dos direitos humanos e do enfrentamento às desigualdades de gênero.

As ações do Colaboratório estão organizadas em três grandes eixos de atuação: o Grupo de Trabalho da Pesquisa, o Grupo de Processos Formativos e o Grupo do Núcleo de Ações Territoriais.

Cada um desses grupos possui uma coordenação compartilhada, composta por pesquisadoras e pesquisadores da Fiocruz Brasília e duas representantes dos movimentos sociais nos dois primeiros grupos e seis representantes dos movimentos sociais no Grupo de Ações Territoriais, que neste momento está desenvolvendo atividades no território da Santa Luzia na Estrutural, reafirmando o compromisso com a construção coletiva e a gestão participativa.

O Grupo de Trabalho da Pesquisa desenvolve ações orientadas pela perspectiva da pesquisa-ação, atuando prioritariamente em territórios marcados por vulnerabilidades socioeconômicas. Seu objetivo central é fortalecer redes comunitárias de prevenção ao feminicídio, ampliar o acesso de mulheres e meninas aos serviços públicos e produzir diagnósticos territorializados capazes de subsidiar políticas públicas mais efetivas.

O Grupo de Processos Formativos promove a troca de saberes entre movimentos sociais, lideranças populares, profissionais da rede de saúde e de assistência social e representantes da sociedade civil. Suas ações incluem a formação de agentes populares promotores dos direitos das mulheres, a qualificação de profissionais dos serviços e atividades voltadas aos homens, buscando mitigar as violências por meio da reflexão crítica sobre masculinidades e responsabilização.

O Grupo do Núcleo de Ações Territoriais desenvolve suas atividades prioritariamente na Cidade Estrutural, território marcado por importantes vulnerabilidades sociais e elevados índices de violência contra mulheres. Além da coordenação compartilhada entre Fiocruz Brasília e movimentos sociais, esse eixo conta com a atuação de seis bolsistas territoriais, responsáveis por promover, junto ao GT, as ações desenvolvidas diretamente no território, fortalecendo vínculos comunitários e ampliando a capacidade local de mobilização e cuidado.

A experiência do Colaboratório Com Elas demonstra que mitigar o feminicídio exige compromisso político, fortalecimento das políticas públicas e construção coletiva permanente. 

Romper o silêncio e salvar vidas exige mais do que indignação: exige compromisso compartilhado, presença nos territórios e ação coletiva. É na força dos movimentos sociais, na parceria com as instituições públicas e na potência das redes comunitárias que se constroem caminhos para mitigar o feminicídio, fortalecer a proteção às mulheres e reafirmar, todos os dias, que a vida das mulheres deve ser defendida como prioridade inegociável por todas e todos!

*Julliane Messias Cordeiro Sampaio é enfermeira, doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP) e professora do Centro Universitário de Brasília (Ceub). Assessora Técnica do Colaboratório Com Elas da Fiocruz/Brasília.

*Odete Messa Torres é enfermeira, docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB), Conselheira Nacional de Saúde e coordenadora do Colaboratório Com Elas da Fiocruz/Brasília.

**Este é um artigo de opinião. A visão das autoras não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.


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Fonte
Brasil de Fato
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