Supercombo defende democracia e critica extrema direita após corte de transmissão no Rock in Rio: ‘É importante se posicionar’

Por Wallace Leray18/09/2026 às 00:0051 visualizações
Supercombo defende posicionamento político dos artistas e apresenta o álbum ‘Caranguejo’ em entrevista à Rádio Brasil de Fato
Supercombo defende posicionamento político dos artistas e apresenta o álbum ‘Caranguejo’ em entrevista à Rádio Brasil de Fato
Brasil de Fato

A defesa da democracia, da redução da desigualdade e do fim da escala 6×1 faz parte dos valores que a Supercombo quer apresentar com clareza ao público. Após a repercussão de um discurso contra a extrema direita no Rock in Rio, o vocalista Léo Ramos afirma que o momento político exige posicionamento dos artistas, independentemente do gênero musical.

“Independente da música que você toca ou faz, eu acho que tem certos momentos da história que a gente vive em que é importante se posicionar”, afirma, em entrevista à Rádio Brasil de Fato.

Durante a manifestação de Ramos ao final de “Amianto”, o canal Bis interrompeu a transmissão da apresentação e voltou ao palco depois que a fala havia terminado. A banda só soube do episódio após o show, quando os integrantes começaram a acompanhar as notícias.

Ao lado de Carol Navarro, André Dea e Paulo Vaz, o vocalista conversou sobre o ocorrido, as eleições e o momento criativo de “Caranguejo”, álbum mais recente da Supercombo. Próximo de completar 20 anos, o grupo reúne nesse trabalho guitarras pesadas, ritmos brasileiros, humor e reflexões sobre a vida nas redes sociais.

Ramos reconhece que a política nem sempre apareceu de forma tão explícita na trajetória da banda. “Por muito tempo a Supercombo meio que não se metia muito nisso, mas o mundo passou por uma quadra da história muito esquisita”, diz.

Hoje, ele considera necessário explicar as causas que o grupo apoia. “Eu acho que é cada vez mais importante a gente conseguir estabelecer que a banda acredita na igualdade para todo mundo, no fim da escala 6×1, na diminuição da desigualdade.”

Segundo o vocalista, essas ideias também estão nas composições, embora recebam um tratamento diferente do discurso feito no palco. “A gente é uma banda que defende valores que estão, de uma forma carinhosa, poética e lúdica, nas nossas letras.”

Transmissão interrompida

Ramos conta que a fala no festival surgiu com a mesma naturalidade de manifestações feitas em outros shows. Entre a atenção aos arranjos, às letras e aos equipamentos, os integrantes não estavam pensando na transmissão quando ele começou a falar sobre as eleições.

“Depois do show, quando a gente desceu, viu um monte de matéria saindo e não entendeu o que estava acontecendo”, relata. “Você acabou de tocar no Rock in Rio, desceu do palco, está todo mundo eufórico, feliz da vida, e está saindo notícia da transmissão que cortou.”

O grupo acompanhou o ocorrido já no ônibus, depois da apresentação. Segundo o vocalista, a intenção dessas manifestações é estimular as pessoas a sair de casa, votar e refletir sobre suas escolhas.

O episódio também criou uma associação com “A Transmissão”, faixa que abre “Caranguejo”. Ramos explica que, antes do festival, a composição tratava principalmente da ligação entre razão e emoção, entre o cérebro e o coração. A ideia era falar sobre a importância de preservar essa conexão e não abandonar os próprios pensamentos e sentimentos.

Após o show, as imagens da canção ganharam outro sentido para a banda. “Depois do Rock in Rio é uma coisa um pouco mais material, do lance do corte mesmo da transmissão do festival”, afirma. “É a ficção se tornando realidade.”

Lançado em duas partes, ‘Caranguejo’ reúne guitarras pesadas, ritmos brasileiros e reflexões sobre a vida nas redes sociais |
Lançado em duas partes, ‘Caranguejo’ reúne guitarras pesadas, ritmos brasileiros e reflexões sobre a vida nas redes sociais | — Renato Peres
Lançado em duas partes, ‘Caranguejo’ reúne guitarras pesadas, ritmos brasileiros e reflexões sobre a vida nas redes sociais | Crédito: Renato Peres

Escolhas democráticas

No palco, Ramos também mencionou a necessidade de uma “manutenção” no Congresso e no Supremo Tribunal Federal (STF). Já na entrevista, explicou que a declaração expressava uma insatisfação com notícias que vinha acompanhando e uma preocupação com as regras de funcionamento das instituições.

“A minha fala tinha muito mais a ver com uma certa revolta com as matérias e coisas que estavam saindo a respeito de certas pessoas”, diz.

O vocalista defende que eventuais mudanças ocorram de forma democrática. Entre as questões que levanta estão os critérios de escolha de ministros, o tempo de permanência nos cargos e os procedimentos diante de evidências de irregularidades.

“Imagino que já devam ter certos mecanismos, mas não sei se são suficientes. Talvez devesse ter mais”, afirma.

Para Ramos, a discussão também deve orientar a escolha dos representantes políticos. “Na minha opinião, os grupos mais ligados à esquerda estão mais preocupados em preservar a democracia do que em tentar um novo golpe de Estado.”

Palcos abertos

Para o baterista André Dea, os grandes festivais contribuem para ampliar o público de artistas que ainda têm pouco espaço. Ele destaca a importância de eventos como o Rock in Rio distribuírem atrações por diferentes palcos e oferecerem a possibilidade de transmissão dos shows.

Na avaliação do músico, essa abertura deve alcançar também gêneros e artistas ligados às periferias. “É importante estarem ali artistas de rap, trap e outros estilos, muitas vezes periféricos, porque esses artistas precisam estar em palcos grandes e ter a possibilidade de se expressar”, afirma.

Dea diz que as duas participações da Supercombo no festival ajudaram a banda a alcançar novos públicos. Ramos, por sua vez, vê o retorno como um reconhecimento da trajetória e do trabalho atual.

“A gente está com um gás absurdo, talvez até como a gente nunca teve”, afirma o vocalista.

Identidade musical

A disposição para combinar referências ajuda a explicar o nome de “Caranguejo”. Ramos vê no animal, de casca dura e interior mole, uma imagem da própria banda, que mantém o rock como referência sem se prender a uma única maneira de fazer música.

“A gente nunca conseguiu definir muito bem o nosso som. A gente sempre misturou muita coisa”, conta. Os elementos de música brasileira, o pop e a irreverência surgem, segundo ele, dos gostos dos integrantes. “A gente gosta de variar, de fazer coisa doida mesmo, cada disco é uma coisa.”

Essa liberdade aparece em “Piseiro Black Sabbath”, que aproxima o peso do rock de um ritmo popular nordestino. Para a baixista e vocalista Carol Navarro, a faixa também questiona as expectativas de quem acredita que o gênero precisa seguir regras rígidas.

“Parece que o roqueiro tem que ser muito fiel a guitarras pesadas, a fazer isso e aquilo”, observa.

A proposta, explica Carol, era fazer uma música leve, que convidasse o público a dançar, sem abandonar a homenagem ao Black Sabbath. Ela avalia que parte dos ouvintes mais puristas não compreendeu essa intenção.

“O rock não precisa ser o tempo inteiro uma revolta ou coisas muito pesadas. Você pode dançar o rock, pode brincar com outros estilos, ainda mais estilos brasileiros, dos quais me orgulho muito de ter no nosso país.”

Vidas fabricadas

Em outra direção, a faixa “Redes Antissociais” parte do incômodo com a distância entre a imagem construída na internet e a vida de quem a apresenta. Ramos associa a composição à circulação de promessas, à atuação de falsos especialistas e à formação de bolhas nas plataformas.

“A gente vê tanta mentira na internet, pessoas que se dizem especialistas indicando uma coisa e fazendo outra”, afirma. “Vem um pouco desse sentimento ao ver esse monte de coach fazendo promessas e vendendo coisas nada a ver.”

O músico conta que percebe essa dinâmica especialmente quando volta às redes depois de passar um período afastado. A quantidade de conteúdos sugeridos e as tentativas de capturar sua atenção contribuíram para a criação da faixa.

Carol também vê nas redes um ambiente hostil para quem está começando a produzir música. A baixista chama a atenção para os ataques dirigidos a novos artistas. “Vejo um hate absurdo hoje em dia com novos artistas, principalmente mulheres, ainda mais no rock, que é um cenário em que as pessoas entendem que o estilo tem que ser muito quadradão”, diz.

Ela critica as comparações que tratam a produção do passado como necessariamente superior à atual. “É um ódio tremendo com novos artistas que estão começando do nada, sem investimento, com a força e a coragem que têm. Isso não precisa ser uma batalha para um ser melhor que o outro.”

Perto de completar 20 anos, Supercombo combina experimentação musical e posicionamento político dentro e fora dos palcos |
Perto de completar 20 anos, Supercombo combina experimentação musical e posicionamento político dentro e fora dos palcos | — Jorge Daux
Perto de completar 20 anos, Supercombo combina experimentação musical e posicionamento político dentro e fora dos palcos | Crédito: Jorge Daux

Próximos passos

O ciclo de “Caranguejo” também trouxe aprendizados sobre a maneira de apresentar as composições. Para o tecladista Paulo Vaz, lançar o disco em duas partes permitiu ampliar o olhar sobre a obra e acompanhar sua repercussão.

“A banda está efetivamente sendo ouvida e escutada agora, e estamos muito felizes”, diz.

Os próximos projetos devem se voltar às comemorações da trajetória. Segundo Vaz, a Supercombo prepara uma turnê em homenagem aos dez anos do álbum “Rogério” e estuda uma possível turnê pelos 20 anos da banda. Os formatos e a maneira de anunciar os shows ainda estão em discussão.

“A gente ama muito o que faz, está muito feliz no momento que está vivendo, tocando. Principalmente as músicas que estamos fazendo, as produções”, afirma.

Fonte
Brasil de Fato
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