A vós, camarada Fidel, os meus parabéns

Por Ana Saldanha16/09/2026 às 15:5957 visualizações
Fidel Castro, líder da Revolução Cubana, completaria 100 anos em 13 de agosto de 2026
Fidel Castro, líder da Revolução Cubana, completaria 100 anos em 13 de agosto de 2026
Brasil de Fato

Fidel Castro nasceu em 13 de agosto de 1926, em Birán, Cuba. Há dez anos, quando do seu nonagésimo aniversário, 90 intelectuais escreveram uma carta a Fidel, felicitando-o. Esta foi uma das cartas que, então, lhe foram dirigidas e entregues. Devido à sua extensão, o texto inicial foi adaptado e encurtado para a presente publicação.

Dez anos depois dos 90 anos de Fidel e dez anos depois da sua morte (que ocorreria alguns meses depois do seu aniversário, em novembro de 2016), Cuba encontra-se sob uma pressão crescente por parte do império estadunidense, o qual, uma vez mais, pretende derrotar, pela força e pela violência econômica, a resistente ilha soberana e a sua Revolução. Hoje, como ontem, é fundamental ouvir a voz solidária de quem, de punho erguido, nunca abandonou Cuba nem a sua histórica Revolução que, em 1961, se afirmou como socialista: “Pátria o muerte! Cuba vencerá!”

A vós, camarada Fidel, os meus parabéns

A Cidade das Colunas, de Alejo Carpentier, “la ciudad de lo inacabado, de lo cojo, de lo asimétrico, de lo abandonado“, assistiu, no primeiro dia de 1959, à chegada do comandante-em-chefe Fidel Castro e dos guerrilheiros da Sierra Maestra naquela grande marcha da liberdade que partira, sete dias antes, de Santiago de Cuba.

A classe dominante cubana ao serviço do império dos EUA

Em 1901, a Assembleia Constituinte de Cuba (convocada em 1900 e encarregada de elaborar a primeira Constituição da futura República), sob a ameaça de continuação da ocupação militar dos Estados Unidos da América (iniciada em 1º de janeiro de 1899), foi intimidada a integrar a emenda Platt como parte do texto fundamental. Formalmente inaugurada em 20 de maio de 1902, a jovem República de Cuba começou, assim, sob pressão, influência e controle militar e comercial dos EUA, os quais viriam a impor um modelo de produção neocolonial baseado no grande latifúndio e na monocultura de cana-de-açúcar.

O fim da Primeira Guerra Mundial e as relações comerciais de dependência com os Estados Unidos criaram uma burguesia nacional que vivia perto do mar, a oeste da capital, nas magníficas casas de linhas barrocas, no moderno e arborizado bairro habanero de Vedado, enquanto a maioria da população vivia no limiar da sobrevivência, em condições habitacionais extremamente precárias e sem infraestruturas básicas.

Num contexto de agravamento da luta entre, por um lado, uma classe dominante, próspera e dependente do capital dos EUA, e, por outro, uma maioria explorada, sujeita às condições miseráveis de trabalho e de vida impostas pelo regime latifundista de monocultura, acede à presidência, em 1925, Gerardo Machado. Inicia-se, então, um período ditatorial marcado, por um lado, por uma forte violência estatal e, por outro, por intensas lutas de resistência, as quais se intensificariam após a crise capitalista de 1929, quando as exportações de açúcar e de tabaco cubanos caíram. Neste contexto, criaram-se as condições para que, em 1933, Cuba se encontrasse numa situação pré-revolucionária, que nem mesmo o recém-nomeado presidente dos EUA, Franklin Roosevelt, conseguiu controlar.

Na sequência de uma longa greve geral, Machado viu-se obrigado a fugir do país e foi instalado um governo provisório, o qual, por sua vez, seria derrubado, um mês depois, por um levantamento popular que implantaria, pela primeira vez na história da ilha, um governo popular e progressista. Este governo duraria pouco mais de 100 dias, tendo sido derrotado pelo Império estadunidense com a ajuda ativa de um antigo sargento, Fulgêncio Batista — membro da ala conservadora que (também) havia feito parte daquela primeira experiência de governo progressista. Seria este mesmo Fulgêncio Batista que, entre 1940 e 1944, seria presidente da República e, alguns anos depois, em 1952, sob a liderança dos EUA, levaria a cabo um golpe militar.

Nascimento de um líder revolucionário

No contexto da ditadura de Batista, um jovem estudante de Direito, Fidel Castro, destacaria-se no movimento estudantil. Fortemente marcado pela experiência do Bogotazo (movimento que se seguiu ao assassinato do candidato presidencial colombiano, Jorge Eliécer Gaitán, a 9 de abril de 1948), Fidel diria sobre aquele evento, 28 anos mais tarde: “De insurrecciones populares de aquellas características, yo no conocía más que las impresiones que en mi imaginación habían dejado los relatos de la toma de La Bastilla y los toques a rebato de los comités revolucionarios de París llamando al pueblo en los días más gloriosos de la revolución“.

Em 26 de julho de 1953, Fidel liderou uma tentativa de insurreição, com os assaltos ao quartel Moncada, em Santiago, e ao quartel Céspedes, em Bayamo, na sequência dos quais seria preso e condenado a 15 anos de prisão. Durante o julgamento, o jovem advogado imprimiu uma nova dinâmica na luta pela soberania de Cuba, contra a ditadura de Batista e contra o neocolonialismo dos EUA, graças à sua, hoje, histórica e brilhante defesa (que se tornaria na base programática da futura revolução), encerrando-a com a célebre frase: “La historia me absolverá“.

Na sequência de uma anistia política, em 1955, Fidel e outros insurretos serão libertados e fundam, pouco depois, o Movimento 26 de Julho. Semanas mais tarde, Fidel e parte dos insurretos exilam-se na Cidade do México, onde iniciam a organização da sua tática de guerra revolucionária e à cuja luta se juntam outros cubanos e, também, o argentino Ernesto Che Guevara. Em 1956, Fidel e 82 guerrilheiros (entre eles, Raúl Castro, Camilo Cienfuegos e El Che) desembarcam do iate Granma, em Cuba, instalando-se na Sierra Maestra e formando o Exército Rebelde — guiado pelas ideias de José Martí, contra a ditadura da burguesia crioula e estadunidense, em defesa da plena soberania de Cuba.

Em 1º de janeiro de 1959, Santiago de Cuba, Santa Clara e Yaguajay encontravam-se sob o controle do Exército Rebelde, iniciando-se, então, uma das mais belas histórias de tentativa de construção do Homem Novo.

Cuba Socialista: Resistência e Luta

Os EUA iniciaram, desde logo, uma série de ações desestabilizadoras e contrarrevolucionárias, incluindo dentro do próprio poder estatal. As tentativas de sabotagem econômica aceleraram-se em julho de 1960, quando os EUA eliminaram a quota de açúcar que importavam de Cuba; depois, em janeiro de 1961, com a ruptura formal das relações com Cuba; e, finalmente, com a tentativa de invasão da ilha, em abril desse mesmo ano, na área conhecida como Playa Girón.

A primeira fase da Revolução, marcada pela existência de um movimento popular que procurava a libertação nacional, foi seguida por uma segunda fase, iniciada em 16 de abril de 1961, quando Fidel Castro anuncia, perante milhares de cubanos, o caráter socialista da Revolução (que Washington invocaria, em 1962, para formalizar o bloqueio econômico total, já gestado desde 1960): “Eso es lo que no pueden perdonarnos, que estemos ahí en sus narices, ¡y que hayamos hecho una Revolución Socialista en las propias narices de los Estados Unidos!“.

Socialismo: a construção de um modo de produção levado avante por e para o trabalhador

A Revolução permitiu aos cubanos alcançar a sua emancipação e realização como sujeitos: acesso à educação, à saúde, à cultura, à alimentação e à habitação, elevados níveis de educação, fim do analfabetismo, erradicação da discriminação racial, participação das mulheres em todas as áreas da vida do país, assistência aos idosos e aumento da esperança média de vida.

O período especial que se seguiu à queda da URSS, em dezembro de 1991, e que marcou a terceira fase da Revolução, lembrou ao mundo, mais uma vez, a capacidade de resistência do povo cubano, assim como o esforço e a solidariedade que subjazem à construção de um processo revolucionário.

Quando, naquela quinta-feira, 8 de janeiro de 1959, Fidel entrou vitorioso na cidade “hecha para la explotación de las sombras” (Alejo Carpentier); o jornal El Crisol publicava o seguinte: “Todos los sonidos de la ciudad se unieron al vocerío de las muchedumbres: las sirenas de los barcos, las campanas de las iglesias, las bocinas de los autos, los silbatos de las fábricas. Se escucharon las salvas de 21 cañonazos disparados por dos fragatas de la Marina de Guerra (…) La garganta del pueblo enronquecía en un solo grito: ¡Viva Fidel! ¡Viva Cuba Libre! ¡Viva la Revolución!“.

*Ana Saldanha é professora catedrática de Português na Faculdade de Línguas Estrangeiras da Universidade Normal de Hunan, na China.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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