‘Bets nunca deveriam ter sido liberadas’: pesquisador da Unifesp defende proibição total e aponta rombo bilionário

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Przez José Bernardes25/09/2026 às 23:3725 wyświetlenia
Apostas online ou bets
Apostas online ou bets
Brasil de Fato

A proibição total das apostas online anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) atende a uma demanda antiga de pesquisadores da área de saúde mental. As bets têm gerado o endividamento da população e agravado quadros depressivos que, em muitos casos, têm como consequência o suicídio.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o psicólogo Altay de Souza, pesquisador de Psicologia Econômica e Estatística aplicada da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é taxativo ao dizer que bets nunca deveriam ter sido liberadas. Ele conta que, desde 2021, pesquisa o fenômeno e cita dados como o de que 34% dos jovens que planejavam fazer uma faculdade privada adiaram o sonho por causa de problemas advindos das apostas. “As bets precisam ser proibidas, não reguladas. É um ataque ao tecido social, não apenas do ponto de vista da saúde pública, mas também econômica. Não existe nenhum benefício para a economia, para o Estado ou para a sociedade da presença de bets”, sentencia.

Souza também afirma que, apesar do destaque dado atualmente, a questão não é propriamente nova. Segundo ele, há cinco anos já havia evidências de que esse fenômeno era problemático e aponta as perdas financeiras para o país. “Quase R$ 140 bilhões foram evadidos do Brasil por conta de bets nesse tempo todo”, afirma.

O psicólogo destaca que a maioria dos apostadores é do sexo masculino e que, no sexo feminino, a prevalência é de mulheres com mais de 50 anos. Altay também ressalta que, mesmo com muitas informações públicas sobre o tema, 20% da população brasileira considera bets um investimento. “Isso é uma desinformação, porque a casa de aposta sempre vai dar um jeito de ganhar mais sobre você. É um jogo de soma zero. Para alguém ganhar, alguém vai ter que perder. Não existe uma situação em que os dois ganhem”, argumenta. Por essa razão, continua o pesquisador, a informação é fundamental para reduzir a persuasão que as casas de aposta usam em seus sistemas algorítmicos e na publicidade.

Sobre isso, Souza lembra que “todas as pessoas são suscetíveis a bets, porque é um jogo programado para que, quando você está numa situação de perda, você pense: ‘Será que hoje é meu dia de sorte?’. E vai”.

Além disso, o psicólogo explica um mecanismo psicológico que é a “aversão à perda”. “Para cada R$ 1 que você perde, você só sente que foi recompensado quando você recupera R$ 2,25. A perda para a gente é 2,25 maior que o ganho. Por isso que no ‘tigrinho’, por exemplo, você entra numa espiral bizarra”, exemplifica.

O pesquisador destaca que a primeira regulação a respeito de jogos de aposta aconteceu ainda na década de 1930. De lá para cá, muitos movimentos aconteceram e, nos anos 2000, houve a volta dos bingos, à época analógicos, em alguns locais do Brasil. “Em São Paulo, foi liberado por dois anos, e várias pessoas passaram a se viciar rapidamente”, frisa. No governo Michel Temer é que as bets chegaram com força total.

Altay de Souza também aponta o impacto no sistema de saúde por conta das apostas e afirma que, mesmo com a proibição das apostas online, a expectativa é que os custos do sistema sejam restabelecidos apenas dentro de oito a dez anos. “Não existe situação nenhuma em qualquer lugar do mundo em que bets seriam saudáveis. Não existe jogo saudável”, resume.

Por fim, o psicólogo refuta a afirmação de alguns clubes esportivos de que o fim das bets decretaria o fim do futebol e defende que a lógica é inversa: são as bets que vão acabar com o futebol. “As pessoas vão cada vez mais colocar dinheiro na bet, e vão perder, e isso, com o tempo, vai gerar uma aversão. A pergunta que deve ser feita aos cartolas é: você quer ter dinheiro agora ou quer ter torcedores no futuro?”, questiona.

Para ouvir e assistir

Durante o horário eleitoral, até 1º de outubro, o jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira das 12h25 às 14h, e a segunda, sem alteração, a partir das 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

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