Periferias entram nos planos de candidatos ao governo do DF, mas moradores cobram políticas que cheguem ao cotidiano

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作者 Kennedy Cruz18/09/2026 às 19:5369 浏览
Moradores da Estrutural convivem com desafios relacionados à infraestrutura e ao acesso a serviços públicos no território
Moradores da Estrutural convivem com desafios relacionados à infraestrutura e ao acesso a serviços públicos no território
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As periferias do Distrito Federal aparecem nos planos de governo de Leandro Grass (PT), Celina Leão (PP), José Roberto Arruda (PSD) e Ricardo Cappelli (PSB) com propostas para transporte, moradia, saúde, infraestrutura, emprego e desenvolvimento econômico. Os programas analisados pelo Brasil de Fato DF apresentam diferentes estratégias para reduzir a concentração de serviços e oportunidades no Plano Piloto, enquanto representantes de movimentos e coletivos apontam problemas que ainda fazem parte do cotidiano de quem vive nas Regiões Administrativas.

Em Santa Maria, a ativista cultural Paula Juliana, da Família Hip Hop, afirma que a precariedade dos serviços públicos afeta a rotina de trabalhadores e estudantes. Ela cita principalmente as dificuldades de transporte, educação, lazer e acesso a equipamentos culturais.

“O transporte público segue precário e deficitário. Nossa população trabalhadora majoritariamente precisa migrar todos os dias para o plano piloto e/ou outras localidades, ficando horas no transporte público, lotado e sucateado, diminuindo a qualidade de vida e o tempo disponível para estar com a família ou em descanso”, afirmou.

Grass propõe descentralizar empregos e serviços

O plano de Leandro Grass coloca a desigualdade territorial no centro da discussão sobre desenvolvimento urbano. O documento aponta a concentração de empregos e serviços no Plano Piloto e propõe o Sistema de Centralidades para fortalecer polos econômicos e de atendimento nas Regiões Administrativas. A ideia é estimular atividades econômicas de acordo com as características de cada região e levar serviços públicos para mais perto da população.

Entre as áreas citadas estão Ceilândia, Taguatinga, Gama, Samambaia, Águas Claras, Paranoá e Sobradinho. O plano também prevê articular essas centralidades ao transporte coletivo, com Transporte Rápido por Ônibus (BRT), Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), metrô e corredores de ônibus, além de criar distritos de emprego nas RAs para incentivar empresas a se instalarem próximas aos locais de moradia.

Para o Sol Nascente/Pôr do Sol, a proposta é mais específica. Grass prevê urbanização integral, com pavimentação, drenagem, esgotamento sanitário, iluminação e equipamentos públicos, além de assistência técnica para habitação. A região também aparece entre as prioridades para ampliar a Atenção Primária à Saúde, dentro da meta de elevar de cerca de 600 para aproximadamente 1,1 mil equipes de Saúde da Família no DF.

A distância entre moradia, trabalho e serviços também é apontada pela moradora de Santa Maria. Ela defende que a política urbana considere a criação de oportunidades de trabalho próximas aos locais de moradia. “A gente precisa dos recursos públicos para as pessoas poderem trabalhar perto de casa e quem trabalha longe ter a possibilidade de um trabalho com mais qualidade”, disse.

Arruda inclui Sol Nascente em propostas

O plano de José Roberto Arruda apresenta medidas específicas para diferentes áreas. Na saúde, a proposta prevê 150 novas equipes de Saúde da Família e Saúde Bucal, com prioridade para Sol Nascente/Pôr do Sol, Ceilândia, Estrutural, Itapoã e Recanto das Emas. Na mobilidade, o documento prevê a expansão do metrô e cita a extensão do sistema até o Condomínio Privê e o Sol Nascente/Pôr do Sol.

O programa também propõe a criação de novas centralidades fora do Plano Piloto, reunindo empregos, comércio, serviços públicos, universidades, hospitais, cultura e lazer. A medida é apresentada no plano como forma de aproximar atividades do local de moradia e reduzir os deslocamentos diários para a região central.

A questão habitacional envolve outro aspecto apontado por André Tavares, do Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD): a permanência das famílias nos territórios. Ele afirma que o problema habitacional não termina com o acesso à moradia e relaciona o custo dos aluguéis à dificuldade de permanência da população de baixa renda no DF.

“Hoje, o problema vai além de conseguir uma moradia, mas também ter condições de permanecer no Distrito Federal. Mesmo nas regiões periféricas e nas áreas mais distantes de expansão urbana, uma casa na expansão da periferia pode custar cerca de R$ 1.200 por mês de aluguel”, afirmou.

Cappelli aposta em emprego e desenvolvimento

Ricardo Cappelli apresenta a redução das desigualdades territoriais principalmente pela descentralização da atividade econômica. O plano propõe os chamados Territórios de Prosperidade, com polos de inovação, infraestrutura compartilhada, qualificação profissional, incubação e apoio às atividades produtivas nas Regiões Administrativas. Entre os setores previstos estão economia criativa, tecnologia, saúde, logística, agricultura, turismo e economia verde.

O programa também prevê o Banco do Povo, com crédito produtivo para pequenos negócios e microempreendedores, além de assistência técnica e mecanismos de garantia. A candidatura relaciona essas medidas à criação de empregos e renda nas próprias RAs e à distribuição de investimentos em ciência, tecnologia e inovação pelo território.

Para Paula Juliana, a geração de oportunidades para os jovens também aparece ligada à educação e à cultura. Ela afirma que a falta de perspectivas depois da escola pode levar jovens a trabalhos precários e defende mais oportunidades culturais e de formação.

“Vai ganhar pouco, vai entrar na escala 6×1 e vai enfrentar todos os problemas da cidade, que é transporte público sucateado, lotado e em escalas exaustivas, fica longe de casa. Para a juventude a gente precisava movimentar a cidade, tornar ela uma cidade que fosse realmente nossa”, afirmou a ativista cultural.

Nos trechos analisados do plano de Cappelli, não foi localizada uma proposta exclusiva para o Sol Nascente/Pôr do Sol.

Estrutural é uma das regiões do DF citadas nas discussões sobre desigualdade territorial e oferta de serviços públicos |
Estrutural é uma das regiões do DF citadas nas discussões sobre desigualdade territorial e oferta de serviços públicos | — Flávia Quirino/Brasil de Fato DF
Estrutural é uma das regiões do DF citadas nas discussões sobre desigualdade territorial e oferta de serviços públicos | Crédito: Flávia Quirino/Brasil de Fato DF

Celina apresenta propostas regionalizadas

O plano de Celina Leão distribui propostas entre as Regiões Administrativas nas áreas de mobilidade, saúde, infraestrutura, alimentação e regularização fundiária. Entre as medidas estão a expansão do metrô para Ceilândia e Samambaia, a extensão da Linha 2 em direção ao Gama e a Tarifa Zero para a população de baixa renda.

O programa também prevê aumentar os Restaurantes Comunitários para todas as RAs, fortalecer o Prato Cheio e criar ou modernizar feiras em diferentes regiões. Na infraestrutura urbana, aparecem ações de pavimentação, drenagem, iluminação e calçadas, além de medidas de regularização fundiária.

Nos trechos analisados, as propostas são apresentadas principalmente de forma regionalizada. Não foi localizada uma ação exclusiva para o Sol Nascente/Pôr do Sol no material consultado.

Para Paula Juliana, a existência de equipamentos não significa que eles estejam funcionando com estrutura e recursos suficientes. Em Santa Maria, ela relata que espaços culturais dependem do trabalho voluntário dos próprios agentes para manter as atividades. “Um espaço que poderia estar gerando renda, que poderia estar fazendo curso de formação, com dança, com hip hop, com outras expressões artísticas e culturais. A gente consegue fazer muito pouco, porque é tudo com trabalho voluntário, porque não tem recurso para pagar as pessoas”, afirmou.

Cultura e educação entram na cobrança dos coletivos

A falta de equipamentos culturais e de espaços para a juventude também aparece entre as demandas apresentadas por Rayane Soares, do Jovem de Expressão, programa do Instituto Referência da Juventude com atuação em Ceilândia. Há mais de 17 anos, a iniciativa desenvolve atividades gratuitas voltadas à juventude periférica, com ações que incluem saúde, terapia comunitária, prevenção à violência e ao uso de drogas.

Rayane afirma que as Regiões Administrativas ainda são carentes de equipamentos culturais e de espaços destinados às expressões artísticas dos jovens. Ela também relaciona a falta de oportunidades culturais às dificuldades enfrentadas por estudantes da rede pública para acessar a universidade.

“Faltam políticas públicas para a juventude voltadas para a democratização do acesso à cultura. As periferias, as Regiões Administrativas, são bem carentes de equipamentos culturais. Tem poucos espaços para as expressões artísticas”, afirmou.

Rayane também defende políticas de permanência para estudantes universitários. “Muitos jovens deixam a sua graduação por conta de que precisam trabalhar e ter renda”, completou.

Moradia e obras

As demandas apresentadas pelos movimentos também envolvem o direito à moradia e as condições para que famílias de baixa renda permaneçam no Distrito Federal. André Tavares, militante do MTD, afirma que o problema não se resume ao acesso a uma casa, mas envolve o custo de permanecer no território diante do preço dos imóveis e dos aluguéis.

“Não se trata de dizer que as famílias escolhem a irregularidade. Elas são empurradas para esse mercado informal e criminoso porque não encontram acesso à moradia pelo poder público, pelo mercado formal, seja adquirindo, financiando ou pagando aluguel”, afirmou André Tavares.

Para André, a discussão também precisa considerar os impactos das obras de infraestrutura sobre as áreas periféricas. Ele cita a Fazendinha, comunidade localizada no Trecho 3 do Sol Nascente, onde documentos públicos já registraram demandas relacionadas à infraestrutura e ao transporte. Em sua avaliação, intervenções para solucionar problemas urbanos não podem transferir riscos para as próprias comunidades afetadas.

“Uma infraestrutura criada para proteger determinadas áreas da cidade não pode transferir os riscos ambientais e sociais para outros territórios, como aconteceu no Sol Nascente, especificamente na Fazendinha. Também não pode transformar populações periféricas em obstáculos para a execução das obras”, afirmou Tavares.


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