A pista está salgada

Por Observatório das Metrópoles - Núcleo Porto Alegre22/09/2026 às 14:1067 visualizações
Na metrópole, a mobilidade cotidiana cada vez mais se apresenta como um problema para a população, especialmente, aquela parcela que mais depende do transporte coletivo
Na metrópole, a mobilidade cotidiana cada vez mais se apresenta como um problema para a população, especialmente, aquela parcela que mais depende do transporte coletivo
Brasil de Fato

André Baldraia*

Em tempos de eleição é comum que candidatos(as) façam corpo a corpo nas ruas e, por ali, ouçam protestos da população que todos os dias passam por situações problemáticas para se ir para o trabalho e voltar para casa. Há um contraste entre o sorriso do candidato(a) e o sorriso amarelo do cidadão.

Na metrópole, a mobilidade cotidiana cada vez mais se apresenta como um problema para a população, especialmente, aquela parcela que mais depende do transporte coletivo, pois as condições das viagens vêm se deteriorando ao longo dos últimos anos, seja pela insuficiência dos modais disponíveis, pelas condições precárias dos veículos e das vias ou ainda pelas tarifas praticadas.

A região metropolitana é extensa, e muitos precisam se deslocar diariamente para Porto Alegre. A depender das condições climáticas, as viagens de ida e volta podem se transformar em uma epopeia ou em uma odisseia. Na verdade, somente quem realiza esses deslocamentos tem ideia das condições enfrentadas cotidianamente.

Abundam relatos sobre as más condições dos veículos que circulam pela região. Há problemas com a manutenção da parte interna dos veículos e, especialmente, no verão, aumentam os casos de mal funcionamento do sistema de climatização.  Esse último, mais frequente nos ônibus e trens metropolitanos que nos catamarãs.

Os atrasos e a insuficiência de horários também são problemas crônicos, que se tornam mais evidentes à medida que se consolida o uso dos serviços de transporte por aplicativos, os quais vêm ampliando os tipos de serviços disponíveis: primeiro foram os carros, depois vieram as motos. Pelo preço e pela praticidade, quem pode, por vezes, opta por esses serviços. Isso implica menor número de passageiros no transporte coletivo e aumenta a pressão sobre as tarifas cobradas.

Além disso, em relação à tarifa, assunto cuja complexidade não cabe em uma coluna, concorrem ainda diversos outros fatores, como a variação dos preços do petróleo e seus derivados que flutuam ao sabor dos choques externos.

Há ainda outro fator que atinge a todos que se deslocam sobre rodas: a péssima qualidade das vias. Problema comum, disseminado por toda parte, existente em áreas onde sequer existe o asfalto e se estende aos corredores de ônibus, onde camadas de pavimento se enrugam nas bordas enquanto abrem sulcos na parte central da via. Em alguns pontos, o desgaste era tão intenso que, a poucos anos, era possível ver os resquícios dos trilhos encobertos pelo asfalto desde meados dos anos 1970. O visual é desolador e perigoso para os pedestres, quase sempre invisíveis às políticas deste setor. 

Não é demais lembrar que, a maioria das pessoas, ao descerem dos veículos assumem a condição de pedestre, mesmo que não se deem conta. 

Outrossim, para endereçar corretamente o problema da mobilidade cotidiana, visando criar melhores condições algumas ações devem ser debatidas. Uma delas é a criação de novas formas de arrecadação para o fundo voltado à melhoria do sistema de transportes metropolitanos. É possível ampliar a cobrança sobre serviços ou produtos relacionados ao transporte individual, seja por meio de um valor adicional sobre as vagas de estacionamento nas ruas — a chamada Zona Azul —, da implantação de um pedágio urbano ou da criação de uma alíquota ou tributo sobre combustíveis, com isenção para as empresas de transporte coletivo.

Todas essas ações visam contribuir para um uso economicamente mais racional do automóvel e, ao mesmo tempo, estimular o uso do transporte coletivo.

Outra ação nesta direção pode ser a maior integração da cobrança de tarifas por meio de cartão magnético ou aplicativo, a exemplo do TRI, para abrigar o pagamento de outros serviços de transportes, como os ônibus intermunicipais e os catamarãs. Ao ampliar a integração aumenta-se o volume de usuários dos meios de transporte coletivo, o que também pode contribuir para uma melhor negociação dos valores cobrados pelos serviços.

A integração tarifária e intermodal do transporte coletivo é outro ponto que deveria voltar à pauta. Nesse aspecto, existem muitas possibilidades, como a criação de bolsões gratuitos de estacionamento no entorno de estações de trens e de catamarãs. Essa medida incentivaria os motoristas a utilizarem seus veículos apenas em trechos mais curtos, como o deslocamento entre o bairro e a estação, e a recorrerem ao transporte coletivo para os trajetos mais longos.

Os benefícios seriam muitos: desde a redução da emissão de gases poluentes e dos congestionamentos até o estímulo à atividade física.

Também poderiam ser adotadas tarifas um pouco menores para quem utiliza mais de um modal, como ônibus e trem, e/ou a possibilidade de utilizar outro modal com isenção de pagamento durante determinado período, a exemplo do que ocorre em outras metrópoles do país, como São Paulo.

Ampliar o uso do transporte hidroviário é algo que deve ser mais bem estudado. As águas que banham margens da cidade podem servir como vias de transporte para muitas parcelas da população. Para a porção sul da metrópole, parece um truísmo propor a maior utilização desse modal em maior complementariedade ao serviço por ônibus realizado atualmente.

Diversificar os serviços e reduzir um pouco as tarifas são medidas que podem ampliar o uso dos modais de transporte coletivo, incentivando e atraindo um número maior de passageiros. O volume de usuários é também um fator que contribui para que as prestadoras melhorem os serviços, uma vez que reivindicações mais numerosas e organizadas podem exercer maior pressão por melhorias.

Por fim, após os transtornos decorrentes das enchentes de 2024, vale salientar a importância de um órgão de planejamento da metrópole, como a Metroplan, hoje moribunda. 

Reestruturar o órgão e colocá-la no centro desta problemática conferindo-lhe a tarefa conduzir planos e ações como as que listamos acima é um primeiro de muitos passos.

Enquanto nada ou muito pouco é feito, para quem circula e/ou caminha pelas vias, sejam candidatos(as), e, principalmente, para a população a pista está salgada!

*André Baldraia é geógrafo e educador físico. Doutor em Geografia Humana pela USP. Professor do Departamento Interdisciplinar (Campús Litoral Norte) da UFRGS. Pesquisador do Observatório das Metrópoles, Núcleo Porto Alegre.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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