Trump recupera o colonialismo de saque e pilhagem

Por Cristóvão Feil23/09/2026 às 14:2470 visualizações
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em discurso na Assembleia Geral da ONU.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em discurso na Assembleia Geral da ONU.
Brasil de Fato

O discurso de Trump na assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU) foi a expressão de violência mesclado com anúncios de neocolonialismo, não como ameaça, mas como prática corrente que já está em marcha. Trump insistiu que a América merece porque é superior – essa foi a repugnante tônica do seu longo discurso. 

Mas, vejam e observem a história. Nenhuma novidade. 

Vamos lembrar de dois antecedentes trágicos: 1) o chamado Destino Manifesto dos colonos que chegaram ao território do Texas, meados do século 19; 2) O Lebensraum nazi-alemão durante a Segunda Guerra. 

O Destino Manifesto foi a expressão cunhada por John O’Sullivan em 1845, no contexto da anexação do Texas e da disputa com o México. Justificava a expansão dos EUA como uma missão divina, civilizatória e racial (anglo-saxã, protestante). O Texas é central nisso: colonos anglo-americanos foram convidados pelo México, rebelaram-se em 1836 (em parte para preservar a escravidão, que o México havia abolido) e em 1845 o território foi anexado aos EUA.

O Lebensraum (“espaço vital”): conceito formulado pelo geógrafo Friedrich Ratzel, depois apropriado por Karl Haushofer e pelo nazismo. Significava conquistar e colonizar o Leste Europeu, expulsando ou exterminando populações eslavas, judias, ciganas, etcetera, para garantir autarquia e pureza racial alemã. Não é só expansão: é expansão racialmente organizada e genocida. A grande Alemanha – de raça superior – tinha direito garantido para anexar território e explorá-lo como seu. 

Ambos são ideologias de povoamento que naturalizam a expropriação de terras e a desumanização dos habitantes originários. 

Nos dois casos, a terra é apresentada como destino – divino, histórico, racial. O expansionismo é justificado como civilização ou necessidade vital. A superioridade racial garante tais direitos.  

Há uma hierarquia racial que define quem pode ser sujeito e quem pode ser removido ou eliminado.

A ideologia encobre interesses materiais concretos: no Texas, terra, algodão e escravidão. No nazismo, recursos, geopolítica e anti-comunismo.

Nesse sentido, o Destino Manifesto e o Lebensraum pertencem à mesma família: a do colonialismo de povoamento e do imperialismo racializado e sempre considerado superior. 

O caso atual da Venezuela 

Hoje, a política de invasão e guerra do governo Donald Trump carrega também frações de influência do colonialismo de povoamento e saque, tal e qual o modelo texano do século 19 e o caso nazi alemão do século 20.  

A operação militar dos EUA na Venezuela, em janeiro de 2026, e o subsequente controle sobre o petróleo e os recursos do país oferecem um laboratório preciso para testar a hipótese de reedição das tragédias do Destino Manifesto e do Lebensraum.  

Há traços claros de colonialismo de pilhagem, que se apresenta como administração, tutela e transição.

Em 3 de janeiro de 2026, forças militares dos EUA invadiram Caracas, sequestraram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, e os levaram para os Estados Unidos. 

Trump anunciou que os EUA iriam “administrar” o país até uma “transição segura, adequada e judiciosa”. Ele afirmou que a ocupação “não nos custaria nada”, porque os EUA seriam reembolsados pelo “dinheiro que sai do chão” – uma referência direta a petróleo e gás. 

Autorizou empresas petrolíferas estadunidenses a assumirem a infraestrutura energética venezuelana e a “começar a ganhar dinheiro”. A Venezuela foi descrita por analistas como um “protetorado em tudo, menos no nome”, com decisões cruciais sendo tomadas em Washington. Mais de US$ 13 bilhões foram arrecadados pelos EUA com a venda do petróleo venezuelano, enquanto mais da metade da população venezuelana vive em pobreza extrema.

Stephen Miller, um dos arquitetos da política neocolonialista de Trump, argumentou que a indústria petrolífera venezuelana foi “roubada” de empresas americanas e que sua expropriação foi “o maior roubo registrado da riqueza e propriedade americanas”.

Essa baboseira transforma a nacionalização de recursos soberanos em um crime contra os EUA, invertendo a relação colonial: o colonizador se apresenta como vítima de um roubo que, a rigor, foi a afirmação da soberania de um povo sobre seus próprios recursos.

Miller e Trump foram além, e afirmaram que a ajuda ocidental ao desenvolvimento foi uma “colonização reversa” – os países ricos deram dinheiro e abriram fronteiras a ex-colônias, em vez de continuar a explorá-las. Essa é uma formulação ideológica que naturaliza o colonialismocomo o estado normal das coisas e trata a descolonização como um desvio que precisa ser corrigido. 

Nunca o século 21 esteve tão próximo do século 19 ou 18.

Vivemos sob o tacão do neocolonialismo de pilhagem, no qual a soberania formal pode até ser mantida (há um governo interino), mas a substância econômica é expropriada. A Assembleia Nacional venezuelana denunciou a “verdadeira e persistente intenção colonialista” de “roubar e saquear” os recursos naturais do país.

A receita do petróleo venezuelano passou a ser depositada em contas bancárias estadunidenses, controladas pelo governo dos EUA. Marco Rubio, secretário de Estado, controla diretamente a receita de exportação e estabelece as condições de gastos dos fundos públicos venezuelanos.

Trump anunciou que a Venezuela entregaria entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo de “alta qualidade” aos EUA, com os lucros controlados “pessoalmente” por ele.

A ideologia é o véu que encobre a verdade dos fatos  


Neste caso a ideologia se traduz assim: o saque se apresenta como tutela. 

A estrutura de poder é colonialista: um poder externo define o que é “seguro”, “adequado” e “judicioso” para um território que não é seu – e jamais será.

A soberania é tratada como obstáculo, não como direito. A autodeterminação é substituída por tutela.

O saque é a prática central, legalizado por decreto e administrado por instituições estadunidenses. A pilhagem se apresenta como administração, transição e proteção – a surrada linguagem da tutela colonial dos séculos passados.  

Essa é a operação ideológica que Marx chamaria de reificação: as relações de poder (o saque, a ocupação, a imposição) são convertidas em relações técnicas (administração, transição, proteção, zelo patrimonial). O que é violência aparece como gestão. O que é pilhagem aparece como reembolso.

A diferença em relação ao Texas ou ao Lebensraum nazi está na ausência de colonos e na escala do extermínio. A semelhança está na naturalização da expropriação e na desumanização da soberania do outro. 

*Artigo de Cristóvão Feil é sociólogo.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Fonte
Brasil de Fato
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.