‘Tinha que ter vindo antes, mas é uma vitória’: Grêmio Esportivo Cruz da Esperança celebra suspensão de obras da prefeitura na Casa Verde

Di Kaique Dalapola27/08/2026 às 18:030 visualizzazioni
Samba do Cruz, na comunidade Cruz da Esperança, Zona Norte de São Paulo.
Samba do Cruz, na comunidade Cruz da Esperança, Zona Norte de São Paulo.
Brasil de Fato

O presidente do Grêmio Esportivo Cruz da Esperança, Antônio de Jesus Marcos, conhecido como Tio Toninho, classificou como “um passo importante” a decisão liminar da 17ª Vara Cível Federal de São Paulo que determinou a suspensão imediata de qualquer intervenção física no solo e subsolo da antiga área da sede do clube, na Casa Verde, zona norte de São Paulo.

A ordem judicial suspende escavações e terraplanagens para as obras do Parque Municipal Campo de Marte, com o objetivo de proteger o patrimônio arqueológico e sagrado de matriz africana identificado no local. Para Tio Toninho, a determinação judicial “tinha que ter vindo antes, mas pode ser considerada uma vitória para a comunidade”.

Após a demolição completa das instalações físicas realizada pela gestão municipal no final de julho, a comunidade busca reestruturar suas atividades. De acordo com o presidente da entidade, os próximos passos envolvem consultar o corpo jurídico para avaliar as possibilidades de atuação no terreno. “Inicialmente, a ideia é fazer o time voltar a jogar em casa”, diz Tio Toninho.

O líder comunitário explicou a relevância de retomar a utilização esportiva do local, mesmo com os danos causados pela desocupação. “Se a gente pudesse arrumar os buracos que fizeram lá e colocar as traves de novo para pelo menos voltar os jogos, já seria muito importante”, disse Toninho. Segundo ele, as rodas de samba continuam ativas e estão sendo realizadas em outros locais, como no Galpão ZN e no Barracão do Quilombo.

A liminar concedida pela juíza federal Mayara de Lima Reis baseia-se em relatórios de vistorias técnicas conduzidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em junho de 2026, que apontaram alto potencial arqueológico na área da antiga Fazenda Casa Verde e localizaram assentamentos sagrados enterrados em homenagem a divindades como Exu, Exu Siguidi, Ogum e Exu Ologo.

O defensor regional de Direitos Humanos em São Paulo da Defensoria Pública da União (DPU), Murillo Martins, avaliou que a determinação é uma medida necessária para tentar garantir a preservação do acervo.

“A decisão da Justiça Federal reconheceu que há sinais de que existe um patrimônio arqueológico, cultural e religioso de matriz africana”, destacou o defensor público. Martins observou que, embora o processo de demolição prévia das edificações possa ter gerado danos irreparáveis ao patrimônio material do local, que remonta a 1958, a proibição cautelar impõe barreiras sobre o que permanece abaixo da superfície.

“Certamente é uma importante decisão, que reconhece a necessidade de proteção do patrimônio arqueológico, cultural e religioso de matriz africana pelo município de São Paulo e demais órgãos envolvidos”, afirmou Murillo Martins.

O defensor público da União explicou ainda que o avanço das vistorias técnicas do Iphan servirá de base para a formulação de novos pleitos em favor do grupo tradicional. “Havendo a confirmação da existência de patrimônio arqueológico, cultural e religioso de matriz africana, certamente haverá espaço para que façamos pedidos adicionais de proteção, tentando reconstruir o que for possível e converter em indenização eventuais danos irreparáveis causados.”

Em contrapartida, a Prefeitura de São Paulo manifestou que recorrerá da decisão judicial. A gestão Ricardo Nunes (MDB) disse que a ação movida pelo Grêmio Esportivo e Recreativo Cruz da Esperança foi proposta na Justiça Federal quatro meses após a Procuradoria-Geral do Município (PGM) ter ajuizado a ação de reintegração de posse contra o clube.

Sobre a destinação de objetos de valor religioso e cultural retirados durante o despejo, cuja localização precisa ser informada em relatório detalhado em até 30 dias por ordem judicial, a prefeitura afirmou que a Secretaria Municipal das Subprefeituras auxiliou na retirada no dia 29 de julho de 2026, mas que os pertences foram levados para o destino indicado pela direção da própria entidade.

A gestão também declarou que adotará as providências para cumprimento das decisões da Justiça enquanto a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) faz a transição de fiscalização da área para a SP Regula.

Fonte
Brasil de Fato
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