A eleição mais importante desde o processo de redemocratização

Por Alexandre Varela18/09/2026 às 19:4357 visualizações
Lula SP
Lula SP
Brasil de Fato

Apesar de ser difícil diferenciar o militante do cidadão, chegamos a esta eleição, a mais importante desde o processo de redemocratização, convencidos de que o voto não pode ser tratado como manifestação de simpatia, mas como ato de responsabilidade coletiva. Há momentos em que escolher bem importa mais do que escolher com entusiasmo.

Vivemos, nos últimos anos, um retrocesso que não deveria ser normalizado: o descaso com vidas humanas diante de uma crise sanitária, o enfraquecimento de políticas de proteção social, o desmonte de mecanismos de controle ambiental e sanitário, e ataques reiterados às instituições que sustentam o Estado de Direito, o Judiciário, a imprensa, as urnas eletrônicas, os órgãos de fiscalização. Cada um desses episódios, isoladamente, já seria motivo de alerta. Somados, configuram um padrão.

Esse retrocesso pode ser verificado, de forma concreta, em áreas essenciais da atuação do Estado. Na proteção ambiental e dos povos indígenas, o Ibama teve orçamento e quadro de pessoal reduzidos, chegando ao menor número de fiscais de sua história, ao passo que o próprio Ibama, o ICMBio e a Funai tiveram suas regras de proteção enfraquecidas, fatores que contribuíram para o crescimento do desmatamento na Amazônia, impulsionado pela falta de controle e por um incentivo implícito a atividades ilegais.

Na fiscalização trabalhista e sanitária, um decreto de 2020 alterou as regras de inspeção em frigoríficos, passando a permitir a contratação de profissionais temporários ou autônomos em substituição aos auditores fiscais concursados, enquanto o Ministério do Trabalho sofreu sucessivas reduções estruturais, o que diminuiu o alcance das inspeções trabalhistas.

No combate à corrupção, houve enfraquecimento dos mecanismos de controle e dos órgãos de investigação, com retrocessos na transparência pública. Na política fundiária, o esvaziamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) paralisou os processos de demarcação de territórios quilombolas e terras indígenas e congelou novas vistorias para assentamentos de reforma agrária.

Ameaça à democracia deve orientar o voto

A lucidez precisa prevalecer sobre o impulso. Não se trata de convencer amigos e familiares a aderirem irrestritamente a um projeto que tem o presidente Lula como principal liderança, tampouco de pedir que abandonem as críticas legítimas. Trata-se de reconhecer que existe uma diferença de natureza, não apenas de intensidade, entre divergências dentro do jogo democrático e ameaças ao próprio jogo. Quando essa diferença está em disputa numa eleição, ela deve orientar o voto antes de qualquer outro critério.

A desinformação em massa, o incentivo ao ódio como método de mobilização política e o desprezo pela vida pública não são inevitáveis: são escolhas, e podem ser interrompidas por uma escolha oposta, feita nas urnas.

Nesse sentido, entende-se que o critério mais importante para decidir o voto, neste momento, não é a afinidade ideológica plena com o nome de Lula, mas o compromisso mínimo de que quem governa o Brasil, pela terceira vez, o faça com civilidade, com respeito às instituições, à verdade dos fatos e à vida do próximo.

Superar esse quadro depende da união das forças comprometidas com a democracia, ainda que mantenham entre si divergências programáticas legítimas.

A pluralidade de projetos políticos é própria do regime democrático e deve ser preservada; o que não comporta divergência, neste momento, é o compromisso contra os riscos de interferência no processo eleitoral.

Por isso, é preciso convencer brasileiros e brasileiras, das gerações mais jovens às pessoas com mais de 70 anos, de todas as classes sociais, a convergir em torno desse compromisso mínimo, condição necessária para reverter o retrocesso em curso.

Resultados concretos merecem registros

Não se pretende negar as críticas ao governo: correções precisam ser feitas, e as críticas são válidas. É justo reconhecer, porém, que, ao lado dos desafios, o terceiro mandato também produziu resultados concretos que merecem registro.

O Produto Interno Bruto (PIB), que no governo Bolsonaro fechou o último ano em 2,9%, manteve, no governo Lula 3, ritmo acelerado desde o início: 2,9% em 2023, 3,4% em 2024, com expansão sustentada em 2025 e 2026, beneficiando-se de um mercado de trabalho já aquecido e apoiado na retomada do consumo das famílias e nos reajustes reais do salário-mínimo.

O desemprego, que no governo Bolsonaro apresentava média geral de 12,2%, atingiu, no governo Lula 3, patamares historicamente mais baixos, oscilando na faixa de 6,4%. A inflação, medida pelo IPCA, também recuou: de uma média anual de 6,17% no governo Bolsonaro para cerca de 4,73% no governo Lula 3.

Essa trajetória reflete diretrizes econômicas distintas: enquanto o governo Bolsonaro priorizou reformas de desregulamentação trabalhista, o governo Lula 3 ancorou o crescimento em políticas industriais e habitacionais coordenadas pelo Estado, a exemplo dos recursos do FGTS destinados ao Minha Casa Minha Vida e dos incentivos fiscais à inovação automotiva.

A indústria automobilística ilustra bem esse contraste: no governo Bolsonaro, houve o encerramento de atividades fabris históricas, como a saída da Ford, o fechamento de plantas da Mercedes-Benz e as paralisações da Audi, com o emprego do setor em patamares baixos e retração na produção acumulada.

No governo Lula 3, o cenário se reverteu com o lançamento de políticas de incentivo à transição energética e à descarbonização, como o programa Mover: as montadoras anunciaram um ciclo recorde de investimentos privados, da ordem de R$ 130 bilhões até 2030, com foco na produção nacional de veículos híbridos e elétricos, o que recolocou o Brasil em trajetória de crescimento na produção mundial de veículos.

Os números mais recentes do setor confirmam essa trajetória: segundo dados revisados pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a projeção de vendas internas para o ano chega a 3,014 milhões de unidades emplacadas, com crescimento acumulado entre 12,1% e 18,4%; até agosto, a produção nacional somou 1,898 milhão de unidades, avanço de 8,5%, e o próprio mês registrou 271,1 mil veículos fabricados, o melhor resultado mensal da indústria automotiva brasileira desde outubro de 2019.

Nesse mesmo contexto, o programa Move Brasil foi consolidado pela Lei nº 15.503/2026, voltada a motoristas e entregadores de aplicativo, taxistas e profissionais de transporte escolar, e já superou a marca de 67 mil unidades financiadas, mais de 48 mil carros e 19 mil motocicletas.

Ainda assim, entende-se que a sobrevivência das condições mínimas para que discordâncias futuras possam ser resolvidas pelo voto, e não pela força ou por influências externas, é um valor que está acima de qualquer preferência pessoal ou balanço de indicadores.

Defender a democracia não exige gostar do governo, tampouco concordar com ele. Exige, apenas, reconhecer que, sem ela, nenhuma outra escolha política permanecerá possível.

*Alexandre Varela é membro do Conselho Curador da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato – DF.


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