Povoada Gastrobar reúne diversidade, cultura, bons drinques e comidas e é o local onde ‘mora o amor’

Por Eugênio Bortolon22/09/2026 às 15:0510 visualizações
Povoada Gastrobar, na Cidade Baixa
Povoada Gastrobar, na Cidade Baixa
Brasil de Fato

“Eu não ando só.” Logo na entrada da Povoada Gastrobar, o cliente/visitante se depara com esta frase e, depois, vai vendo citações sobre diversos temas em quadros e paredes e sente vários espíritos brasileiros pairando por ali. Tem uma coleção de bonés dos comandantes das alas das escolas de samba do carnaval carioca, lembranças de religiões de matriz africana, coisas da Bahia, drinques, coquetéis e petiscos de botecos de várias regiões, música ampla – do samba ao rock, brasilidade em todos os sons.

É um mix completo, variedades incríveis, um astral espetacular, misturando simplicidade, aconchego e bom gosto. A decoração também é atraente, com paredes de tijolos à vista, iluminação cênica e sofás, mesas e cadeiras confortáveis espalhadas pelo ambiente.

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Rafael Rosa
Crédito: Rafael Rosa

“Nossas raízes são profundas. Nos mantêm firmes diante das tempestades”. O local é mais uma das muitas e variadas atrações que a Cidade Baixa oferece aos frequentadores da região. Fica na Rua Lopo Gonçalves, 378, definida por seu quarteto de sócias como a Rua do Príncipe Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe de Ajudá*.

 As sócias são Karina Roque (carioca, formada em Ciências Sociais, há cinco anos no RS), Michelle Viecelli ((nutricionista, sommelier e dona da Cervejaria Daluz, no Bairro Sarandi), Zuleika Branco (Bibliotecária da Ufrgs) e Claudiane Santos (gastróloga, formada em Curso Superior de Gastronomia). “Nos damos muito bem. Somos irmãs que se encontraram por aqui”, afirma Karina.

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“Aqui mora o amor”. É outro dos lemas e objetivos das mulheres LGBTQIA+ que lideram o bar e convivem em perfeita harmonia. Elas trabalharam em outro bar, não deu lá muito certo, resolveram se unir e criar um bar só para elas, comandar tudo, da cozinha ao atendimento, com mais alguns funcionários.

 “Botamos os pés no chão e realizamos os sonhos e os ideais que estavam nas nossas cabeças”, diz Karina. “Aqui celebramos a cultura popular, a gastronomia e a diversidade”, reforça. “Queremos tornar a nossa terra mais bonita de se povoar”.

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“Quem falou que eu ando só”

“A vida é a arte do encontro”. A Povoada funciona de quarta a sábado, eventualmente aos domingos. Aos sábados é uma espécie de brunch, chamado por elas de ‘almlanche”, mistura de almoço com lanche. O nome do local veio de uma música da cantora e compositora baiana Sued Nunes, cujo refrão inclui o verso “quem falou que eu ando só?”.

 O local abriga até 70 pessoas, quase todas com 30+, e tem também um parklet na frente do bar (pequena extensão da calçada instalada no lugar de uma ou duas vagas de estacionamento de carros). “Nosso público está consolidado, gente fiel mesmo”, diz Karina.

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Crédito: Rafael Rosa

O espaço físico da Povoada foi inaugurado oficialmente em janeiro de 2023, mas a empresa foi fundada em 4 de maio de 2022. Desde então, rola muita coisa legal. A atmosfera é aconchegante e a decoração criativa. O local é alugado, mas as finanças vão bem, a movimentação é boa, principalmente aos finais de semana.

 “Aqui não tem nenhum tipo de preconceito, nem racial, nem sexual, funciona no maior respeito com todo o mundo. Ter bar é sempre um desafio, é preciso andar em perfeita sintonia com a civilidade e a segurança”, garante Karina. Como diz uma frase colocada ali: “Reaja à violência racial, beije a sua preta em praça pública”. Ou outra: “Ordem é samba, progresso e gente preta.”

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Samba e rock e livros

A cultura tem o seu espaço e os seus dias. Shows aos finais de semana, principalmente nas noites de sexta-feira. Samba puro de gente local. Eventualmente, lançamento de livros, leituras. Politicamente é uma casa bem posicionada, segundo elas, progressista e apoiadora de candidatos e candidatas de visão popular. A escala de trabalho é 4×3 ou 5×2, quando abre aos domingos.

Para ir ali, ótimos coquetéis, muito variados. O mais pedido, salienta Karina, é o Jorge Amado, um refrescante com cachaça, cravo e canela, suco de maracujá, limão e açúcar.

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Outro drinque muito solicitado é uma releitura do tradicional Macunaíma: cachaça envelhecida no barril de bálsamo, limão siciliano, fernet (licor amargo de origem italiana) e açúcar. 

Maria Bethânia também tem um público cativo (vodca, morango, limão e xarope simples). Há também a cerveja artesanal Daluz e outras tradicionais. Já entre os comes destacam-se pizzas, sanduíches quentes, brusquetas e petiscos como croquete de pernil suíno defumado. Os preços são bem camaradas. “Não somos abusivas”, diz Karina.

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A Povoada assumiu desde o seu início um ponto de referência da turma LGTBQI+ na cidade. Ao seu lado funciona outra casa descolada – a Workroom, lugar conhecido pelos shows de drag queens, outro espaço acolhedor e inclusivo.

Expansão para o Viaduto Otávio Rocha

A Povoada não dá folga. Está expandindo as suas fronteiras. Breve abrirá as suas portas no Viaduto Otávio Rocha, no Centro Histórico. Batizado de Povoada Centro, o novo endereço oferece cervejas e cachaças artesanais, vinhos e espumantes de vinícolas gaúchas e um cardápio inspirado na tradição dos quitutes e acepipes. A programação cultural e o acolhimento da comunidade também fazem parte da proposta do novo espaço. Vai funcionar das 12h às 22h.

“Acreditamos que a representatividade precisa estar no viaduto, um lugar histórico de Porto Alegre. É importante ocuparmos esse espaço com um negócio comandado por mulheres LGBTQIA+ e afrocentrado, que já é referência na Cidade Baixa por ser um ambiente acolhedor para a nossa comunidade”, afirma a gastróloga e sócia do Povoada, Clauciane dos Santos.

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A inauguração marca a chegada da Povoada à nova fase de ocupação do Viaduto Otávio Rocha, um dos patrimônios históricos mais importantes da capital gaúcha.

Construído entre 1928 e 1932, o viaduto passou recentemente por um processo de revitalização que devolveu seus boxes comerciais à cidade, impulsionando a instalação de empreendimentos voltados à gastronomia, à cultura e à economia criativa. Enfim, um espaço onde as pessoas entram e sentem vontade de permanecer.

Como está escrito por ali, “Povoada é a casa de Ajeum” e toda a amplitude da palavra. E o que é isso? A palavra vem do idioma iorubá (um importante grupo étnico-linguístico da África Ocidental e também o idioma falado por esse povo, com forte presença e profunda influência na cultura e religião do Brasi) e significa comer junto ou ato de se alimentar. Representa um momento sagrado de união, partilha e comunhão. Em religiões de matriz africana, como o candomblé, o ajeum é mais do que uma refeição física. Alimenta o corpo e o espírito de forma coletiva.

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*Osuanlele Okizi Erupê nasceu na Áfica, Golfo de Guiné (atual Nigéria), em 1832, e morreu em Porto Alegre em 1935. O nome Custódio Joaquim de Almeida, Príncipe de Ajudá, segundo diversas publicações. foi um dirigente tribal africano exilado em solo brasileiro, onde tornou-se famoso como curandeiro e líder religioso. O economista Marcus Vinícius, seu bisneto, é o atual detentor do título de Príncipe de Ajudá (palavra derivada de ajudar, prestar socorro, oferecer ajuda, auxilia)

Fonte
Brasil de Fato
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