Riacheiro de primeira viagem! Crônica de Viagem XVII

Por Cidade das Letras: literatura e educação15/09/2026 às 19:5314 visualizações
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Brasil de Fato

Por Luciano Mendes de Faria Filho

Há algum tempo publiquei aqui, nesta coluna, uma crônica sobre a minha primeira experiência de acompanhante do Galo da Madrugada, no Recife. Naquela ocasião eu chamava a atenção que, quando a gente não conhece do bordado, a gente sofre pelos detalhes. E, o pior, é que são detalhes que, de tão natural pros nativos, eles nem se lembram de avisar pra gente.

Outro dia, viajando a Macapá para o Congresso Brasileiro de História da Educação, coincidentemente o  XIII Congresso (olha o 13 aí geeente!!!), eu me vi passando por apuros evitáveis, mas nem tanto. Eu, que nunca havia ido pr’aquelas bandas, queria mesmo era ir de Belém para Macapá de navio pelo Amazonas. Seriam 24 horas de viagem!! Mas eu estava disposto. 

Aconteceu, entretanto, que eu não me preparei bem e quando fui verificar, o meu voo, já comprado, chegaria a Belém depois da partida diária do navio. Eu teria que esperar o outro dia e acabaria gastando, na verdade, do Recife a Macapá, 3 dias. Desisti. Mas fiquei com a vontade suspensa de navegar pelo Amazonas. Ainda mais que, recentemente, eu li o livro ‘O turista aprendiz’ do Mário de Andrade em que ele narra suas aventuras por aquelas plagas.

Chegando em Macapá, já no final da tarde de sexta-feira,  falei com um colega de lá, o Vitor Nery,  o que eu não poderia deixar de fazer por lá. Ele logo respondeu: “não pode deixar de conhecer Afuá, a cidade das bicicletas”. Eu confesso que não entendi muito, mas a vontade falou mais alto e eu me pus a procura dos contatos para comprar a passagem. 

Fiquei, então, sabendo que seriam 4 horas de barco e que, quanto aos horários de partida, quem os define são as marés. Ou seja, o barco partiria na hora em que  a maré deixasse. Naquele dia ela “liberou” a viagem para as duas horas da manhã de sábado! Fazer o quê? pensei eu. E lá fui comprar a passagem.

Aí, começaram as minhas dificuldades. Foi com custo que eu consegui me comunicar bem com a pessoa que estava me atendendo via WhatsApp para a compra da passagem. Tudo era tão natural para a pessoa que ela não me explicava nada, por mais que eu pedisse. Ela me mandava imagens de dois barcos enormes e me dizia que um era navio e ou lancha. Para mim, que olhava para eles de soslaio, não me pareciam muito diferentes (claro que eram muito diferentes, depois notei!). 

Os  desentendimentos continuaram até que falei com a pessoa – tudo em mensagem do Zapp – que eu era turista e que tinha dificuldade em entender o que estava claro e natural para ela, inclusive no flyer que ela me enviara (sim, ela utilizava o nome antigo para o, agora, conhecido card). Só então ela começou a me explicar as coisas tim-tim por tim-tim.

Enfim, sem dormir muito, parti para o porto a uma hora da manhã para a viagem que seria as duas horas. Como a cidade é bem pequena, e era de madrugada, cheguei lá por volta das uma hora e quinze minutos. Eu pensava em chegar lá entrar e me acomodar numa poltrona que fosse para esperar. Ledo engano. Mostrei minha passagem para o senhor que atendia à entrada do barco, ele me passou um canhoto impresso, sem nada dizer. Então, perguntei: “e aí, que faço?” Ele, sem se mover, apontou para cima e disse: “rede”. Eu, sem entender, insisti para onde deveria ir. Sem dizer nada, me apontou a escada. E pra lá caminhei.

Eu imaginava que iria subir a escada e achar uma rede para me encostar e pronto. Subi e vi que todas as redes, muitas redes, estavam ocupadas. Fui até o final do navio, olhei e nada. Voltei, desci a escada e fui-me ter com o porteiro. Cheguei e ele me olhou assim meio de soslaio, devendo pensar o que aquele mala queria de novo. Intuí e perguntei: “Cada pessoa tem que trazer a sua rede, é isto?” Ele concordou com um balançar da cabeça. “E vocês têm alguma rede para alugar para os incautos como eu, que não trouxe a sua?”. 

Quando ele disse que não, me lembrei da pessoa que me atendeu pelo Whatapp e quase a amaldiçoei: esta preciosa informação ela também não havia me dado. Mas também eu a imaginei pensando: “quem iria para uma viagem de barco, de madrugada, sem levar a sua própria rede?”. 

Mas pelo menos fui agradecido aos espíritos das águas e das florestas por não ter encontrado, antes, nenhuma rede vazia. Já pensou se eu me deito tranquilamente numa delas e chega o dono, ou a dona, e me dá um safanão para sair de sua morada? 

O pior foi perceber, também, que o barco não tinha nenhum banco ou cadeira com encosto para eu me sentar durante a viagem. Pois, riacheiro de primeira viagem, tive que me sentar/deitar num daqueles bancos enormes, de maneira, e me virar de um lado para o outro, quando o corpo doía, durante toda a viagem. Mas, antes disso, a partida.

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Luciano Mendes
Crédito: Luciano Mendes

Como disse, a partida estava marcada para às duas horas. Ali, faltando dez minutos, começou um movimento dos marinheiros. As duas horas ligaram um mínimo motor que, de vez em quando, fazia um pequeno barulho. Às duas horas e vinte minutos ligaram um motor mais possante, e o barulho aumentou um pouco. Às duas horas e trinta minutos eu perguntei ao capitão que hora iríamos sair. Ele disse: às duas e trinta ou três horas. E eu ali, sentado no banco esperando. 

Enfim, às duas horas e cinquenta eles ligaram o verdadeiro motor – que faz um barulho infernal para quem está perto – e partimos. Eu não me fiz de rogado e subi para o 2 andar e me deitei no mesmo banco duro, e fui sentindo a brisa que vinha do Amazonas, me refrescando. E assim, me virando de um lado para o outro, pude ver a lua linda e o sol nascente sobre o Amazonas, aquele colosso de águas. Aí, a experiência supera as palavras e toca o corpo e a alma; só indo lá para saber.

(Continua…)

Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Fonte
Brasil de Fato
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