Mineradora ré por garimpo ilegal na Amazônia abasteceu indústria bélica dos EUA

Por Poliana Dallabrida Wisentainer18/09/2026 às 08:00120 visualizações
A cassiterita é matéria-prima do estanho, considerado estratégico por funcionar como uma “solda” em produtos de tecnologia (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
A cassiterita é matéria-prima do estanho, considerado estratégico por funcionar como uma “solda” em produtos de tecnologia (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Reporter Brasil

UMA MINERADORA ré por suspeita de integrar um esquema de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, já exportou estanho a empresas norte-americanas com contratos com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. 

O Pentágono classifica o metal como indispensável para a produção de componentes eletrônicos usados em seus equipamentos militares. 

Apresentando-se como uma das maiores produtoras de estanho do mundo, a White Solder forneceu ao menos 525 toneladas para a americana Indium Corporation entre maio de 2023 e agosto de 2025, segundo registros alfandegários analisados pela reportagem. 

A Indium fornece soldas para a Raytheon, fabricante de sistemas militares, como radares e mísseis de alta precisão, que mantém diversos diversos contratos com o governo norte-americano. Com mais de 100 anos de atuação, a Raytheon faturou USD 88 bilhões em 2025.

Um desses contratos, assinado em 2020 por US$ 2,2 bilhões, prevê a produção de sete radares de defesa antimíssil destinados a Arábia Saudita até 2027. Em outro contrato, assinado em 2024 e com validade até 2031, a Raytheon garantiu outros US$ 2,9 bilhões para fornecer aos Estados Unidos unidades do mais moderno radar de defesa aérea e antimíssil desenvolvido pela companhia.

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A White Solder também forneceu o metal para a norte-americana Nathan Trotter, que se define como a maior fabricante de estanho e ligas de solda da América do Norte. Entre agosto de 2021 e agosto de 2025, a companhia recebeu ao menos 2,4 mil toneladas da produtora de estanho brasileira, apontam registros alfandegários.

Em setembro de 2024, o Departamento de Defesa americano destinou US$ 19 milhões à Nathan Trotter para a empresa instalar uma unidade de fundição, refino e reciclagem de estanho no estado da Pensilvânia.

O objetivo do aporte é fortalecer a produção interna de minerais críticos e “conter os esforços da China para monopolizar a oferta global e a reduzir as vulnerabilidades da cadeia de suprimentos”, diz o release divulgado pelo órgão.

A cassiterita é matéria-prima do estanho, considerado estratégico por funcionar como uma “solda” em produtos de tecnologia (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
A cassiterita é matéria-prima do estanho, considerado estratégico por funcionar como uma “solda” em produtos de tecnologia (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
A cassiterita é matéria-prima do estanho, considerado estratégico por funcionar como uma “solda” em produtos de tecnologia (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

“A crescente necessidade dos EUA por matérias-primas para sustentar suas forças armadas levará a mais danos associados à mineração, tanto ilegal quanto legal, a menos que medidas de segurança e devida diligência sejam implementadas e seguidas”, alerta Emily Iona Stewart, Chefe de Políticas e Defesa de Direitos da organização Global Witness. 

“A mineração vem se legitimando ao criar essa narrativa de que os minerais são estratégicos para a transição energética, mas uma parte deles também vai para a indústria da guerra. Não existe nenhum controle sobre o destino final desses minerais”, afirma Bruno Milanez, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS). 

Procuradas pela Repórter Brasil, White Solder, Nathan Trotter, Raytheon e o Departamento de Defesa dos EUA não responderam aos questionamentos enviados pela reportagem. 

A Indium Corporation afirmou adquirir estanho de empresas que cumprem os critérios da RMI (sigla para Responsible Minerals Initiative), iniciativa global para a promoção de práticas responsáveis no setor de mineração. A White Solder era listada como uma refinaria em conformidade com a RMI durante o período de fornecimento do metal, disse a companhia americana à reportagem. A empresa não esclareceu se a produtora brasileira ainda é sua fornecedora.

Já a RMI disse que irá analisar as evidências disponíveis, realizar novas apurações e consultar as partes interessadas para avaliar se retira ou mantém a empresa na sua lista (as respostas completas podem ser lidas aqui).

Esquema criminoso na TI Yanomami

A White Solder tem uma posição central no mercado global de estanho: o grupo se apresenta como um dos maiores fabricantes mundiais do produto e ocupa o segundo lugar em arrecadação de royalties da exploração de cassiterita na Amazônia Legal, segundo dados da ANM (Agência Nacional de Mineração).

A cassiterita é a principal matéria-prima usada na fabricação do estanho, um metal empregado como solda em celulares, computadores, painéis solares, veículos elétricos, satélites e equipamentos militares.

Em agosto de 2026, a Justiça Federal aceitou denúncia do MPF (Ministério Público Federal) e tornou a White Solder e seu sócio-diretor réus por organização criminosa, lavagem de dinheiro e garimpo ilegal de cassiterita na Terra Indígena Yanomami. 

Segundo o MPF, a White Solder teria pago R$ 166 milhões à Coopertin (Cooperativa de Produtores de Estanho do Brasil), acusada de funcionar como uma cooperativa de fachada e dar origem legal a mais de 525 toneladas de cassiterita garimpadas do território indígena entre 2021 e 2022. 

Sede da White Solder em Ariquemes (RO); empresa também possui unidades em Manaus (AM) e Ribeirão Preto (SP) (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Sede da White Solder em Ariquemes (RO); empresa também possui unidades em Manaus (AM) e Ribeirão Preto (SP) (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Sede da White Solder em Ariquemes (RO); empresa também possui unidades em Manaus (AM) e Ribeirão Preto (SP) (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Procurada, a cooperativa não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem.

Da TI Yanomami, a cassiterita era, segundo o MPF, enviada para a filial da mineradora em Ariquemes (RO), fundida e transformada em lingotes de estanho. “Assim, a cassiterita extraída em locais não autorizados pode ser inserida com facilidade no mercado regular”, explica o procurador André Luiz Porreca, responsável pelo inquérito.

Aquisição de cassiterita de áreas sem indício de mineração

Essa não é a única suspeita que paira sobre as aquisições de cassiterita da White Solder. 

Uma reportagem publicada na última quinta-feira (17) pela Repórter Brasil mostrou que a empresa comprou, entre 2020 e 2025, mais de 2,3 mil toneladas de cassiterita de duas áreas sem indícios de atividade mineral em Campo Novo de Rondônia, no norte do estado. 

A verificação, realizada em conjunto com a organização Greenpeace, foi feita analisando imagens de satélite de alta resolução, por meio de sobrevoo e investigações em campo.

“As evidências disponíveis não apresentam sinais espaciais e temporais compatíveis com a produção mineral”, afirma o Greenpeace. Para a organização, os indícios sugerem que as áreas declaradas como origem da cassiterita seriam “garimpos fantasmas”.

Mais de 2 mil toneladas de cassiterita foram declaradas pela White Solder como oriundas de áreas de pastagem em Rondônia, mostrou investigação da Repórter Brasil em conjunto com a organização Greenpeace (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Mais de 2 mil toneladas de cassiterita foram declaradas pela White Solder como oriundas de áreas de pastagem em Rondônia, mostrou investigação da Repórter Brasil em conjunto com a organização Greenpeace (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Mais de 2 mil toneladas de cassiterita foram declaradas pela White Solder como oriundas de áreas de pastagem em Rondônia, mostrou investigação da Repórter Brasil em conjunto com a organização Greenpeace (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

“Garimpos fantasmas” é como são conhecidas áreas de garimpo autorizadas a funcionar e comercializar o minério, mas que, na prática, não registram produção efetiva. As áreas podem ser usadas para ocultar a real origem do minério.

MPF investiga compradores internacionais 

Além de apresentar a denúncia contra a White Solder à Justiça, o MPF também abriu um inquérito civil para apurar a eventual responsabilidade de empresas que, segundo o órgão, teriam adquirido estanho da companhia. Subsidiárias brasileiras de dez multinacionais, como Amazon, Microsoft, Disney e Intel, são mencionadas no documento. 

A relação de parte dessas empresas com a White Solder foi identificada na Operação Forja de Hefesto, deflagrada pela Polícia Federal em dezembro de 2023, segundo documentos obtidos pela Repórter Brasil. A corporação analisou documentos corporativos divulgados pelas próprias multinacionais à Comissão de Valores Mobiliários americana (SEC, na sigla em inglês). 

Empresas de capital aberto nos Estados Unidos são obrigadas a informar à SEC quem são os seus potenciais fornecedores de ouro, tungstênio, tântalo e estanho – chamados de “minerais de conflito” por serem comumente extraídos em zonas de guerra e áreas de instabilidade política. Esses minerais podem ter sido adquiridos direta ou indiretamente, via fornecedores externos.

A inclusão nessas listas, no entanto, não significa que o estanho produzido pela White Solder tenha sido efetivamente utilizado nos produtos das empresas declarantes. Para a elaboração do relatório, as multinacionais se baseiam em informações compartilhadas por seus fornecedores, e limitam-se a dizer que os minerais das refinarias listadas “podem ter sido usados” em suas cadeias produtivas.

Fornecimento para Big Techs

Mencionam a White Solder como potencial fornecedora os relatórios de minerais de conflito de 2025 de ao menos oito grandes empresas de tecnologia, entretenimento e indústria aeroespacial, segundo levantamento da Repórter Brasil

Após a operação da PF na White Solder, a empresa já era mencionada em relatórios da Amazon, Microsoft, Disney e Intel, como mostrou reportagem da Folha de S. Paulo de março de 2024. Os relatórios de 2025 das quatro empresas mantêm a produtora de estanho brasileira.

A mineradora também é listada em relatórios das produtoras de chips e processadores NVIDIA e AMD (Advanced Micro Devices), da Rocket Lab, fabricante de foguetes, satélites e sistemas espaciais, e da Sony. Esta última também é citada no próprio site da White Solder, que afirma possuir “certificação verde” da companhia japonesa e da Panasonic. 

A Repórter Brasil procurou todas as empresas citadas. 

Sem entrar em detalhes do caso, a NVIDIA disse estar “comprometida com o fornecimento responsável de minerais” e que revisa rotineiramente seus fornecedores para garantir a conformidade com sua política de aquisição responsável de minerais. 

O grupo Panasonic afirmou realizar ações de “Compras Verdes”, aquisição de produtos de fornecedores com boas práticas ambientais, como gerenciamento adequado de substâncias químicas e redução das emissões de gases de efeito estufa. Essas ações, esclareceu a empresa, não fazem parte de um programa de certificação. A Panasonic disse que não comenta relações com empresas específicas, mas que considera “a sustentabilidade e o respeito aos direitos humanos” como prioridades em sua cadeia de fornecimento de minerais. 

Microsoft e Intel disseram que não comentariam o caso. Amazon, Disney, AMD, Rocket Lab e Sony não responderam. 

Uso de dinheiro público americano 

Aaron Mintzes, Diretor Adjunto de Políticas da organização EarthWorks, com sede em Washington, critica o uso de dinheiro americano em empresas de mineração ligadas a violações socioambientais. “Tanto em casa quanto no exterior, o governo Trump explora nações estrangeiras e povos indígenas em uma corrida desnecessária por minerais”, avalia. 

A Indium Corporation, que recebeu estanho da White Solder, fornece soldas para a americana Raytheon, contratada por US$ 2,9 bilhões para produção de Sensores de Defesa Aérea e Antimíssil de Nível Inferior (LTAMDS, na sigla em inglês) para o governo dos EUA (Foto: Divulgação/Raytheon)
A Indium Corporation, que recebeu estanho da White Solder, fornece soldas para a americana Raytheon, contratada por US$ 2,9 bilhões para produção de Sensores de Defesa Aérea e Antimíssil de Nível Inferior (LTAMDS, na sigla em inglês) para o governo dos EUA (Foto: Divulgação/Raytheon)
A Indium Corporation, que recebeu estanho da White Solder, fornece soldas para a americana Raytheon, contratada por US$ 2,9 bilhões para produção de Sensores de Defesa Aérea e Antimíssil de Nível Inferior (LTAMDS, na sigla em inglês) para o governo dos EUA (Foto: Divulgação/Raytheon)

Para Mintzes, os congressistas americanos podem inserir mecanismos de proteção a essas populações na Lei de Produção de Defesa (Defense Production Act, no termo em inglês), lei federal americana que dá poderes extraordinários ao Executivo para investimentos na indústria da defesa nacional durante períodos de crise.

Em dois momentos este ano, Donald Trump recorreu à lei para expandir a produção de petróleo e impor restrições às exportações de minerais críticos. 

“O Congresso pode exigir que o Departamento de Defesa proíba o gasto de dinheiro público em minerais comprados de empresas que violam os direitos humanos ou os direitos dos povos indígenas”, sugere.

A produção desta reportagem contou com a colaboração de pesquisa do Pulitzer Center


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