‘As guria tão braba’ – e com toda razão: setembro para além dos gauchismos

Por ana c16/09/2026 às 19:0724 visualizações
Movimento Peleia Braba fortalece uma nova referência da figura da mulher gaúcha
Movimento Peleia Braba fortalece uma nova referência da figura da mulher gaúcha
Brasil de Fato

Chegou a segunda semana de setembro. O mês que marca o retorno da primavera no hemisfério sul, a volta do sol e do calor, um período de alegria para quem, assim como eu, não tem a menor vontade de viver nos dias cinzas de Porto Alegre. Perdão, Vitor Ramil, mas a Estética do Frio é uma mulher linda, porém cruel. Setembro marca também o início de comemorações bastante emblemáticas no estado e de uma reafirmação quase cega do que chamamos de “‘cultura gaúcha’”. Sim, com muitas aspas.

Quem me vê hoje jamais desconfia que esse período, irremediavelmente, me recorda momentos da minha infância e adolescência, quando eu, pasmem, fui prenda.

Sim, aquelas de Centro de Tradições Gaúchas (CTG). De dentro do movimento tradicionalista, nos meus dezesseis anos, eu ocupava o lugar que ali me cabia: de vestido longo e armado, cabelo comprido, bombachinha e saias — era assim que eu ocupava quase todos os dias da minha semana e também os finais de semana.

O CTG era um ponto de encontro de uma juventude de cidade pequena que, com poucas ou nenhuma opção de divertimento e cultura, se reunia em invernadas e promovia fandangos, cursos de dança e uma infinidade de outras atividades. Essa vivência não deixa dúvidas de que esse movimento é amplo, abrangente e significativo na formação de uma pessoa que nasce no RS.

Porém, isso foi muito antes de eu conhecer Chimamanda e me atentar aos perigos da história única. Aquela que diz que, quando a gente só sabe uma versão da história, acaba tomando-a como verdade universal.

Além de todas as atividades promovidas pelo CTG, uma delas era a mais emblemática e presente, embora ‘invisível’: a manutenção da estrutura patriarcal sob a qual ele operava.

No CTG, tudo tem hora e lugar: mulheres para um lado, homens para outro. A saia vai até aqui, a bombachinha cobre ali, a manga do vestido até lá. Na sexta-feira tem a janta aberta, mas as mulheres estão na cozinha, e os homens no bar. As regras são rígidas e se estruturam sob uma ótica que espelha um jogo de poder em que o homem dita a regra – e a mulher cumpre, sem questionamentos.

Os ditos ‘concursos de prendas’ nos traziam uma série de testes e ansiedades: uma prova teórica, práticas de dança, canto, cultura… tudo isso para que pendurassem uma faixa de couro em você e, durante um ano, pendurassem você mesma num palanque onde seu trabalho era ser bonita, diplomática e quieta.

Exerci esse papel por um ano. Eu e mais umas sete ou oito meninas que – juntas – criávamos e executávamos atividades, eventos e oficinas para a comunidade, muitas vezes em parceria com as escolas do bairro. Virei primeira prenda. Venci o concurso, mas durei apenas uma gestão.

No início, o patrão do CTG era um homem gentil e trabalhava em uma dinâmica mais horizontal. Sua esposa também era muito presente e eles eram uma referência de diplomacia e trato social. Porém, no decorrer do ano, o casal foi substituído por um outro patrão, que, diferente do primeiro, englobava as principais características do ‘tiozão do pavê’ – era grosseiro, ou ‘rústico’, como se diz no meio. E, na ânsia de se sentir respeitado e impor uma virilidade forçada, ele era extremamente desrespeitoso.

Não sabia como nomear seu comportamento na época, mas me incomodava profundamente a forma como ele se dirigia a mim e às demais meninas: sua comunicação oscilava entre gritos e ordens ríspidas e palavras infantilizadas, numa agressividade tatibitate.

Lembro que, no auge dos desrespeitos, ele disse algo como: vocês não precisam dar opinião, se limitem a ser bonitas. Foi aí meu limite. Pedi licença e desisti do cargo – e dos concursos subsequentes de prenda da região e do estado. Meu nome não carregaria desrespeito. Meu trabalho não seria associado a um misógino.

Sim, o nome dado a esse tipo de comportamento se chama misoginia e existem ambientes onde ela é abertamente praticada, aceita e até estimulada. E não precisamos ir aos espaços profundos da ‘machosfera’ para identificá-la: ela está presente cotidianamente nas nossas vidas. E profundamente incrustada na nossa dita ‘cultura gaúcha’.

Depois disso, me contentei em desfrutar da nossa cultura no ambiente mais privado: no chimarrão cevado diariamente, no timbre dos cantadores do interior que tocavam em todos os churrascos de domingo, nos poemas da vida no campo que eu decorava incansavelmente e declamava para uma plateia inexistente.

Ser gaúcha estava, no fim das contas, dentro de mim, e não fora.

Mudar para uma capital nos proporciona, inevitavelmente, uma ampliação das perspectivas e das nossas experiências. Uma cidade grande tem mais gente e, consequentemente, mais diversidade. E Porto Alegre, palco histórico do ‘surgimento do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG)’, era o lugar que me atraía. Um tanto pela faculdade, outro pelas oportunidades, vivências que, na maioria das vezes, me afastavam cada vez mais da estética sulista e me jogavam no mundo de outras referências. Afinal, pouco me importava um movimento ‘criado’ por um bando de ‘filhotes de fazendeiro’ e seus princípios elitistas.

Até a primeira vez que eu ouvi a Clarissa Ferreira.

Não, eu não lembro quando nem onde foi. Mas eu lembro do impacto e da incredulidade de perceber que havia uma mulher contestando a (intocável) figura da prenda. Clarissa e seu violino foram em mim, ao mesmo tempo, um soco e um abraço.

E com ela, uma grande, uma enorme, uma gigante onda de outras mulheres, muito gaúchas, sim, que estavam cravando seu nome na história do gauchismo. Ana Matielo, Emily Borghetti, Marília Floôr Kosby, Maryanne Francescon. Gosto de reafirmar seus nomes, especialmente em setembro: o óbvio precisa sempre ser dito e a Semana Farroupilha não se resume a celebrar uma revolução racista e perdida na infindável defumação compulsória do Parque Harmonia.

Setembro transcorre além dos gauchismos

Desde o golpe que afastou Dilma Rousseff da presidência, a palavra misoginia ganhou espaço na mídia. De lá pra cá, é notório como esse olhar crítico se desenvolve e é apontado em diversos espaços e estruturas sociais. O mais recente exemplo de que tive conhecimento (e que tive oportunidade de compor) é o Movimento Peleia Braba. Um manifesto que reúne mulheres gaúchas espalhadas pelo Brasil, com o intuito de denunciar e combater a misoginia dentro da cultura gaúcha.

Desde que começou, em junho de 2026, o movimento promoveu encontros, debates e uma grande rede de trocas. De maneira colaborativa, vem tomando espaço nas articulações: já agiu em apoio a artistas que estavam sofrendo represálias, já questionou os rumos que a cena cultural está tomando no RS e já viabilizou encontros presenciais em Porto Alegre e SP. Tudo isso é gauchismo, no cerne.

O Movimento Peleia Braba fortalece uma nova referência da figura da mulher gaúcha, de prenda e da tradição. Enquanto mulheres, somos fortes, articuladas e nosso poder move o mundo e a história. Seremos mais que bibelôs no teu CTG.

O chimarrão em solitude acompanha. Em roda, ele estimula a criação de uma nova realidade. Em roda, reconhecemos e exaltamos a história não contada do nosso estado. Uma longa narrativa invisível, construída por mãos negras, indígenas, quilombolas e populares.

Na contramão da ilusão de que a identidade gaúcha é homogênea, branca e masculina, nós não reconhecemos essa representação como a ‘única’ ou ‘verdadeira’. Em roda, nos vemos e somos muitas.

O movimento denuncia, ainda, o machismo que se infiltra, de bota e bombacha, nas estruturas de distribuição de renda e sustento da classe artística, questionando a continuidade de privilégios financeiros históricos para os CTGs – que recebem verbas diretas exclusivas do governo do estado, através de prêmios, enquanto acumulam acesso a todos os demais editais de cultura, em detrimento das outras áreas, que ficam restritas ao seu ‘campo específico’. Recursos públicos precisam de distribuição igualitária, priorizando quem vive do fazer cultural em comunidades tradicionais e periféricas.

A verdadeira essência gaúcha se constrói na diversidade e se perpetua para manter a nossa cultura viva, diversa e livre de amarras. Sem misoginia, sem condescendência.

Mulheres reais, aguerridas e insubordinadas. Onde nos quiserem caladas, seremos um grito de resistência.

* ana c, de carolina, é comunicadora por vocação, produtora cultural por capricho e multiartista por essência. mulher lésbica, feminista e latinoamericana, escreve para dar sentido ao que sente.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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