Organizações ambientais do DF cobram compromissos de candidaturas com águas e Cerrado

Por Kennedy Cruz19/09/2026 às 19:2335 visualizações
Encontro na Igreja Anglicana de Brasília colocou em debate preservação de nascentes, segurança hídrica e enfrentamento à crise climática
Encontro na Igreja Anglicana de Brasília colocou em debate preservação de nascentes, segurança hídrica e enfrentamento à crise climática
Brasil de Fato

Organizações ambientais cobraram neste sábado (19) compromissos públicos das candidaturas que disputam as eleições de 2026 com a preservação das águas, do Cerrado e das áreas produtoras de água do Distrito Federal. O 2º Ato Político em Defesa das Águas, do Clima e do Meio Ambiente reuniu movimentos, moradores, representantes do governo e candidaturas na Igreja Anglicana de Brasília, na Asa Sul.

A atividade foi organizada pelo Fórum de Defesa das Águas, do Clima e Meio Ambiente do DF e integrou a campanha “Voto pela Vida, pelo Cerrado e pelas Águas”. Todas as candidaturas do Distrito Federal foram convidadas para o encontro. Entre os presentes estavam os deputados distritais Gabriel Magno (PT) e Fábio Félix (Psol), além da deputada distrital e candidata ao governo do DF Paula Belmonte (PSDB), única candidata ao Executivo presente na atividade.

Também participaram o deputado federal Rodrigo Rollemberg (PSB) e representantes de outras chapas, como Sofia Carvalho, candidata a vice na chapa de Ricardo Cappelli (PSB), e Dora Gomes, candidata a vice na chapa de Leandro Grass (PT). O encontro contou ainda com suplentes de candidaturas ao Senado, entre eles representantes das campanhas de Erika Kokay (PT) e Leila do Vôlei (PDT).

Durante o encontro, as organizações apresentaram cartas e reivindicações relacionadas à preservação de nascentes, áreas de recarga de aquíferos, bacias hidrográficas, combate à especulação imobiliária e preparação da capital para eventos climáticos extremos.

Para Lúcia Mendes, diretora da Associação Preserva Serrinha e coordenadora do Fórum de Defesa das Águas, do Clima e Meio Ambiente do DF, a crise climática já produz impactos que precisam ser considerados no planejamento da cidade.

“Infelizmente, ainda temos mais discursos sobre emergência climática do que planejamento para enfrentá-la. Existe uma contradição ainda mais grave: ao mesmo tempo que sabemos que precisamos nos adaptar à crise climática, continuamos permitindo a destruição dos territórios que poderiam nos proteger dela”, afirmou.

A ambientalista citou regiões consideradas estratégicas para a segurança hídrica do Distrito Federal, como Águas Emendadas, a bacia do Descoberto, a região do Rio Melchior, a Chapada da Contagem e a Serrinha do Paranoá.

A Serrinha foi um dos principais temas apresentados durante o ato. A região reúne nascentes, áreas de recarga de aquíferos e vegetação nativa e está no centro de debates sobre ocupação territorial e regularização fundiária. O território também ganhou destaque recentemente nas discussões envolvendo a tentativa de socorro financeiro ao Banco de Brasília (BRB), quando movimentos ambientais atuaram para retirar uma área da Serrinha de uma proposta relacionada à instituição financeira.

Lúcia Mendes destacou que a preservação dessas áreas está diretamente relacionada à capacidade do Distrito Federal de enfrentar eventos climáticos extremos. “Quando destruímos a Serrinha, não estamos apenas destruindo árvores. Estamos destruindo água, reduzindo nossa capacidade de enfrentar a seca, o calor e os extremos climáticos. Essa lógica precisa mudar. Não podemos continuar tratando áreas ambientalmente estratégicas como se fossem áreas disponíveis para parcelamentos e ocupações”, afirmou a coordenadora.

Lúcia Mendes, diretora da Associação Preserva Serrinha e coordenadora do Fórum de Defesa das Águas, do Clima e Meio Ambiente do DF |
Lúcia Mendes, diretora da Associação Preserva Serrinha e coordenadora do Fórum de Defesa das Águas, do Clima e Meio Ambiente do DF | — Kennedy Cruz/BdF DF
Lúcia Mendes, diretora da Associação Preserva Serrinha e coordenadora do Fórum de Defesa das Águas, do Clima e Meio Ambiente do DF | Crédito: Kennedy Cruz/BdF DF

‘Regularizar para preservar’

A relação entre regularização fundiária e proteção ambiental também foi destacada pelas organizações. Poema Mühlenberg, multiartista, acrobata e ativista ambiental, é fundadora e coordenadora do Galpão Bambu, espaço de criação e pesquisa localizado na Serrinha do Paranoá. No ato, ela representou a Associação Serrinha do Paranoá, que reúne comunidades dos nove córregos da região. 

Poema entregou às candidaturas uma carta de compromisso com a região e defendeu que a regularização fundiária seja acompanhada da proteção ambiental. “A Serrinha não é uma área verde, é um território estratégico para Brasília. Suas nascentes, seus córregos, suas áreas de recarga do Cerrado e suas áreas produtivas estão diretamente ligados à segurança hídrica, climática e alimentar do Distrito Federal e à proteção do Lago Paranoá”, destacou. 

Ao defender a regularização das comunidades, Poema ressaltou que o processo precisa considerar a preservação das áreas naturais. “Regularizar, sim, mas regularizar para preservar. Queremos uma política pública que reconheça a realidade das comunidades, garanta seus direitos e infraestrutura, mas que também proteja as nascentes, o Cerrado, a permeabilidade do solo e as áreas de recarga”, completou.

Meio ambiente e compromissos pela água

Para Pedro Ivo, da Associação Alternativa Terrazul, a pauta ambiental precisa deixar de ser tratada apenas como compromisso de campanha e se transformar em política pública permanente. Durante o encontro, ele apresentou um documento construído por organizações da sociedade civil e relacionado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

“A primeira questão é como a gente defende o meio ambiente como estratégico e como transforma isso em uma política pública de Estado, não só de governo. Existem mecanismos para implementar isso, e nós queremos que os candidatos assumam o compromisso com essa política pública”, destacou.

A Rede Ecumênica da Água apresentou uma carta com sete compromissos que as candidaturas foram chamadas a assumir. Entre eles estão o fortalecimento da legislação de proteção das águas, preservação de nascentes e bacias hidrográficas, universalização do acesso à água e ao saneamento, combate à poluição, enfrentamento das mudanças climáticas, participação social na gestão e garantia de recursos orçamentários.

Salete Aquino, representante da Rede Ecumênica da Água, afirmou que a proteção dos recursos hídricos deve ocupar lugar central nas políticas públicas.

“A água é um direito, não uma mercadoria, e isso precisa ser um compromisso dos candidatos. Queremos fortalecer a legislação de proteção das águas, proteger nascentes e bacias hidrográficas, universalizar o acesso à água e ao saneamento, combater a poluição, enfrentar as mudanças climáticas, valorizar a gestão participativa e garantir recursos orçamentários”, afirmou.

Candidaturas apresentam ações

Entre as candidaturas ao governo do Distrito Federal, Paula Belmonte foi a única presente no ato. A deputada destacou a atuação na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Rio Melchior, realizada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), e defendeu mudanças na classificação dos cursos d’água.

“Nós levamos a Câmara Legislativa para discutir a classificação dos nossos rios e o Rio Melchior. A união da sociedade civil com a Câmara Legislativa conseguiu mudar a perspectiva sobre o rio, e hoje o Ministério Público tem investigações a partir do relatório da CPI”, afirmou.

A candidata também relacionou a regularização fundiária à preservação ambiental e defendeu ações contra a especulação imobiliária. “Regularizar é preservar. Precisamos combater a especulação imobiliária, mas também garantir habitação de qualidade para as pessoas. É preciso preservar o meio ambiente e olhar para quem vive em territórios onde ainda faltam serviços básicos”, destacou.

O deputado distrital Fábio Félix (Psol), candidato a deputado federal, também citou mobilizações ambientais ocorridas no Distrito Federal. Para ele, resultados obtidos em disputas territoriais são consequência da organização dos movimentos. “A derrota da construção da termelétrica não aconteceu pela mão de uma pessoa. Foi uma ação coletiva do movimento, que foi fundamental para que isso acontecesse. A mobilização da comunidade e o movimento ambientalista do Distrito Federal foram decisivos nesse processo”, afirmou.

O parlamentar também mencionou a mobilização em defesa da Serrinha do Paranoá e ressaltou o papel da organização popular nas decisões tomadas pelo Legislativo.

Paula Belmonte, Pedro Ivo, Dora Gomes, vice na chapa de Leandro Grass, e Sofia Carvalho, vice na chapa de Ricardo Cappelli, durante ato em defesa das águas e do Cerrado no Distrito Federal |
Paula Belmonte, Pedro Ivo, Dora Gomes, vice na chapa de Leandro Grass, e Sofia Carvalho, vice na chapa de Ricardo Cappelli, durante ato em defesa das águas e do Cerrado no Distrito Federal | — Kennedy Cruz/BdF DF
Paula Belmonte, Pedro Ivo, Dora Gomes, vice na chapa de Leandro Grass, e Sofia Carvalho, vice na chapa de Ricardo Cappelli, durante ato em defesa das águas e do Cerrado no Distrito Federal | Crédito: Kennedy Cruz/BdF DF

Campanha divide espaço com debate

Apesar de o encontro ter sido convocado para que as organizações apresentassem suas reivindicações às candidaturas, durante parte das apresentações candidatos e parlamentares presentes permaneceram do lado de fora do espaço principal, onde distribuíam panfletos e realizavam atividades de campanha.

Para Lúcia Mendes, a cobrança das organizações precisa ir além da inclusão de propostas ambientais nos programas de governo. “Não basta colocar meio ambiente em programa de governo. É preciso assumir compromissos públicos com metas, orçamento, fiscalização e cronograma. É preciso proteger as áreas produtoras de água, preservar nascentes e áreas de recarga, impedir a destruição do Cerrado e preparar Brasília para os eventos climáticos”, cobrou.

A necessidade de preparar a capital para eventos extremos ganhou um exemplo recente. O ato ocorreu três dias depois de um temporal atingir o Distrito Federal e deixar 117 pessoas afetadas, 56 residências destelhadas e 15 imóveis interditados, segundo levantamento da Defesa Civil.

Para o Fórum, episódios como esse reforçam a necessidade de discutir adaptação climática, planejamento urbano e preservação ambiental durante as eleições.

“Água não pode ser uma promessa de campanha, água é direito. Clima não pode ser tema secundário. Clima é segurança hídrica, é saúde, é economia, é território e é vida. Queremos saber que compromissos as candidaturas estão dispostas a assumir para proteger a água e a população do Distrito Federal”, enfatizou Lúcia Mendes.

Organizações que apoiam a mensagem

A carta apresentada no ato reúne o apoio de organizações, movimentos, associações, fóruns, sindicatos e instituições que atuam em diferentes áreas da pauta socioambiental do Distrito Federal.

  • Academia Planaltinense de Letras, Artes e Ciências
  • Andar a Pé – O Movimento da Gente
  • Associação Alternativa Terrazul
  • Associação Amigos das Veredas (Amiver)
  • Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental – Seção Distrito Federal (ABES-DF)
  • Associação Córrego Crispim Gama
  • Associação de Produtores do Núcleo Rural Lago Oeste (Asproeste)
  • Associação dos Chacareiros do Núcleo Rural do Córrego Urubu (ANRU)
  • Associação Indígena Areme Eda (Ajaeda)
  • Associação Mulheres das Águas de Sobradinho (AMAS)
  • Associação Preserva Serrinha
  • Associação Produtores Rurais CAUB 1
  • Brigada Voluntária Canela de Ema
  • Centro Internacional de Água e Transdisciplinaridade (CIRAT)
  • Comitê de Bacias do Paranaíba-DF
  • Conselho Comunitário da Asa Sul
  • Conselho Comunitário do Lago Sul (CCLS)
  • Conselho Indígena do Distrito Federal (CIDF)
  • Cooperativa dos Produtores do Mercado Orgânico de Brasília (Cooperorg)
  • Escola de Árvore
  • Escola Nós no Bambu
  • Fundação Pró-Natureza (Funatura)
  • Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais pelo Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS)
  • Fórum de Defesa das Águas, do Clima e do Meio Ambiente do Distrito Federal
  • Fórum de ONGs Ambientalistas do DF
  • Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental (FMCS)
  • Fórum Permanente em Defesa do Parque do Guará
  • Galpão Bambu – Espaço de Criação
  • Guardiães de Águas Emendadas (GAE)
  • Instituto Canela de Ema (ICEMA)
  • Instituto Cerrados
  • Instituto Flumina
  • Instituto Internacional Arayra
  • Instituto Oca do Sol
  • Instituto Sálvia
  • Ipanema Agroecologia
  • Jovens pelo Clima
  • Movimento Altiplano Rural (MAR)
  • Movimento Caminhos do Planalto Central (CPC)
  • Movimento Diálogos da ARIE Granja do Ipê
  • Movimento Regenerativo Tempo de Plantar
  • Movimento Salve a ARIE JK
  • Movimento Salve o Rio Melchior
  • Movimento Vida e Água para ARIS (MVA)
  • Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida (OLMA)
  • Prefeitura Comunitária da Península Norte (PCPN)
  • Rede Ecumênica da Água (REDA)
  • Sindicato dos Fisioterapeutas e Terapeutas Ocupacionais (Sinfito-DF)
  • Sindicato dos Trabalhadores em Sistemas de Abastecimento de Água e de Esgotamento Sanitário do Distrito Federal (Sindágua)
  • Teia Carta da Terra Brasil (TEIA)
  • União Planetária (Unipaz-DF)

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Fonte
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