A caminho dos 50 anos de história, luta e vanguardismo, a revista Tição, da comunidade negra gaúcha, está lançando a edição de setembro com temas fundamentais. Logo no editorial, o destaque é sobre “Vidas Negras Importam”, onde o editor Emílio Chagas e a jornalista responsável Jeanice Dias Ramos mostram os índices alarmantes, o extermínio da juventude negra e as repercussões que daí surgem sobre o futuro da própria população negra.
Lançada em março de 1978, no auge da ditadura militar, como um veículo de combate ao racismo e à violência policial, a revista voltou com força para denunciar e exigir respeito, destaca Emílio. Para ele, as causas para o genocídio são muitas, como racismo estrutural, letalidade policial, exclusão social e ausência de políticas públicas de Estado para as regiões mais vulneráveis e excluídas. Ele cita o Atlas da Violência, relatório publicado pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e o Monitoramento do Fórum Brasileira de Segurança Pública para embasar as suas opiniões na matéria “Necropolítica como método”.
Necropolítica, afirma a matéria, é o uso do poder político e social para decidir quem pode viver e quem deve morrer. O conceito foi criado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe em seu ensaio homônimo de 2011. Ele amplia a ideia de biopoder (cunhada por Michel Foucault, que descreve como o Estado controla e administra a vida) para demonstrar que o poder moderno também se exerce por meio da gestão e da produção da morte.
O renascimento em novembro de 2025
A Tição publicou edições impressas em 1978, 1979 e início da década de 1980, tornando-se referência acadêmica e histórica essencial para o movimento negro no país. Em novembro do ano passado, a Tição renasceu e ganhou uma reedição especial comemorativa. A nova fase revelou o protagonismo e o empreendedorismo da mulher negra.
Em oito das 54 páginas da publicação de setembro, as vozes de representantes da comunidade relatam as suas preocupações com o genocídio e como enfrentar esta realidade espantosa que afeta a comunidade negra. Como afirma Karen Luise Vilanova Batista de Souza, juíza de direito e conselheira Nacional do Ministério Público: “O enfrentamento da violência contra a juventude negra exige evidências, planejamento, orçamento, participação social e compromisso com a igualdade material. Vidas negras não podem continuar sendo tratadas como perdas previsíveis ou toleráveis. O papel das instituições é transformar essa realidade.”
O poder e a indignação da comunidade
Os fundadores e nomes históricos do projeto da Tição, desde os anos 70, são os jornalistas Emílio Chagas, Jorge Freitas, Jeanice Ramos, Vera Daisy Barcelos, Jones Lopes da Silva. Outros três grandes nomes ligados à articulação política e cultural somaram-se à iniciativa. São Oliveira Silveira: Renomado poeta, professor e pesquisador gaúcho. Ele foi um dos idealizadores do próprio Dia da Consciência Negra (20 de novembro) dentro do Grupo Palmares e teve papel central na fundamentação teórica da revista. Foi dele a sugestão do nome Tição. Edilson Nabarro: Sociólogo e militante ativo que trouxe profundidade às análises estruturais e sociais publicadas. E Valter Carneiro: Ativista e militante histórico do movimento negro gaúcho.
Sempre seguindo estes conceitos e estas lideranças, os temas sempre envolveram o poder e a indignação da comunidade negra. A reportagem “A História escrita por mãos negras” destaca o trabalho de educadoras e escritoras comprometidas com a educação antirracista, como Petronilha Gonçalves e Silva e Heloísa Pires Lima, ambas gaúchas.
“Poesia viva, batalha e protesto nas ruas” revela como o Slam chegou ao Brasil em 2008. Originário de Chicago, nos anos 1980, o Slam tornou-se uma batalha de poesia falada, em função da sua estrutura de competição. “O fato é que hoje, mais do que uma competição, ele é uma poderosa ferramenta de expressão e transformação social verdadeira, verdadeira poesia nas ruas que reflete temas sociais”, diz a reportagem de Anita Ávila.
O pioneirismo do Museu do Hip Hop
“Bora Mover a Periferia”, com seis páginas, de Jones Lopes da Silva, reforça o pioneirismo do Museu do Hip Hop na América Latina. Tem acervo de 3,5 mil peças em exposição e outras tantas reservadas em arquivo à espera do rodízio. O local foi aberto em 2023 e recebe 30 mil visitas por ano. Tem uma área de 4 mil metros quadrados e fica na Vila Ipiranga, na zona Norte da Capital.
Ali estão trabalhos da negritude gaúcha, biblioteca, estúdio de gravação, salas multiuso, café e loja, lugares para a realização de oficinas, quadra poliesportiva e uma estufa agroecológica que se tornou “chamarisco para a vizinhança”. Matéria realmente daquele tipo que se lê sem parar ver as experiências ali narradas, como o Hub Atividade, o lado social, o empreendedorismo da turma que não vê problemas, só desafios a superar.
Outra bela reportagem é o “Hip Hop como ferramenta de transformação social” de Cíntia Colares. Uma boa análise do sociólogo Edílson Nabarro, da Reitoria de Ação Afirmativa e Equidade da Ufrgs, analisa o reflexo concreto da Lei de Cotas, as pressões sociais e os avanços conquistados. “A cada semestre vejo mais estudantes negros. Isso mostra que as políticas afirmativas estão cumprindo um papel de democratizar o ensino superior”, disse ele na sua análise.
Novas visões do mundo da comunidade também recebem reportagens e análises como o “Letramento na Educação” de Shirley Sena, professora e historiadora; “O Kilombinho de Verão, uma Imersão nas Infâncias Negras”
Há também Informes Especiais com análises sobre a comunidade negra: “O Judiciário; Reflexo da Elite Branca”, do Sintrajufe ((Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal e do Ministério Público da União no Rio Grande do Sul); “O Desafio da Perspectiva Racial nas Decisões Judiciais” do Sindicato dos Servidores da Justiça do Estado do Rio Grande do Sul (Sindjus); e “Coletivo do Sindibancários fortalece a luta antirracista” (Sindicato dos Bancários).
O editor Emílio Chagas conclui que a Revista Tição está conectada, em toda a sua amplitude, com a luta, o futuro e as novas gerações. “Estamos nos fortalecendo e esperamos nestas eleições eleger grande número de parlamentares da comunidade”, reforça Jeanice Ramos.
