‘Não há crise estética, há projeto estético de caos’, diz criador do canal Normose

Por BdF Entrevista16/09/2026 às 00:5059 visualizações
Ao longo de toda sua História, a humanidade usou imagens como ferramenta de controle. Um processo que ficou muito evidente durante o nazismo, mas que segue até hoje, com a obsessão da extrema direita por imagens toscas feitas com inteligência artificial. Para falar como as imagens moldam o mundo, o BdF Entrevista desta terça-feira (15) recebe Kenji Ciampi, historiador e criador do canal Normose
Ao longo de toda sua História, a humanidade usou imagens como ferramenta de controle. Um processo que ficou muito evidente durante o nazismo, mas que segue até hoje, com a obsessão da extrema direita por imagens toscas feitas com inteligência artificial. Para falar como as imagens moldam o mundo, o BdF Entrevista desta terça-feira (15) recebe Kenji Ciampi, historiador e criador do canal Normose
Brasil de Fato

Ao longo da história da humanidade, imagens foram usadas como ferramenta de controle. O processo ficou muito evidente durante o nazismo, mas segue até hoje na obsessão da extrema direita por imagens toscas que, agora, usam e abusam do uso da inteligência artificial.

O novo fenômeno tem nome: “AI Slop”, que empacota rapidamente símbolos, bordões e visões maniqueístas do “bem contra o mal”. Um do seus grandes apreciadores é o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Ao BdF Entrevista, o historiador Kenji Ciampi, criador do canal Normose, refuta a ideia, que tempos atrás virou até meme, de que “a crise é estética”. Para ele, existe a concretização intencional de um projeto de “estética do caos, da destruição, do deboche”.

“Quando a gente olha para essas produções de imagens da extrema direita atual, veja que a gente sempre tem a ideia do bem contra o mal, quando, na prática, o que a gente viu é que o fascismo é a estetização da política, ou seja, a redução da política a imagens estéticas para gerar sentimentos a partir dessas imagens”, afirma Ciamp. “O fascismo consegue capturar os desejos desse trabalhador que está revoltado com um certo sistema e que tem um desejo dessa mudança. Esse fascismo consegue, a partir dessas imagens, por meio de memes, por meio de cortes, retiradas de contexto, construir essa narrativa”, pontua. 

Kenji Ciampi questiona o termo “inteligência” para falar da tecnologia de IA, já que ela depende dos prompts e, portanto, vai replicar o treinamento feito a partir de ação humana. “É uma mera calculadora de padrões, que no marketing viraram inteligência artificial generativa”, aponta.

O historiador critica o fatalismo sobre a IA, presente no discurso de que não há outro caminho além de aceitar a automatização como uma realidade. “Até onde vai o que é performance e até onde vai o que é verdade”, questiona.

Nesse sentido, Ciampi defendeu a imperfeição e a sensibilidade do gesto humano como a principal forma de resistência cultural. Tomando como exemplo a repercussão do painel restaurado “Ecce Homo”, em Borja (Espanha), em 2012, ele ressaltou que o erro artístico é capaz de gerar afeto, debate e transformações sociais reais, algo inalcançável por algoritmos programados apenas para a repetição de padrões. “No final das contas, o que deve ser valorizado, o que realmente ganha valor de sentido para os sujeitos é essa parte subjetiva do ofício, do artístico, do experimental”, defende.

Segundo o historiador, a preservação do fazer artístico exige a valorização dos criadores locais, das manifestações periféricas e das experiências presenciais. “O robô repete padrões, ele não erra. E a arte está no erro, porque é a partir do erro que vem a mudança”, destacou. “Então, esse é o meu apelo para quem está nos ouvindo: mais do que nunca, valorize o seu artista local, vá a uma peça de teatro.”

Kenjy Ciamp reforçou a necessidade de reconstruir novos imaginários coletivos que retirem o público da passividade imposta pelas telas e pelo mercado de inteligência artificial. Como reflexo dessa busca por trocas reais e subjetivas, o historiador, que é também ator, conta que irá estrear nos palcos no próximo ano com um monólogo autoral.

“A vida acontece na vida, a troca acontece na conversa”, define. “A saída ainda está na arte, a saída ainda está na coletividade, a saída ainda está em produzir aquilo que a gente sempre produziu e que essas empresas tentam tirar da gente”, conclui.

Confira a entrevista completa:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Fonte
Brasil de Fato
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