Irã diz que ameaças de Trump na ONU revelam ‘impasse estratégico’ dos EUA; países retomam conversas

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23/09/2026 às 11:5242 görüntüleme
O secretário de Estado Marco Rubio, o secretário do Tesouro Scott Bessent e o enviado especial ao Oriente Médio Steve Witkoff na 81ª Assembleia Geral da ONU
O secretário de Estado Marco Rubio, o secretário do Tesouro Scott Bessent e o enviado especial ao Oriente Médio Steve Witkoff na 81ª Assembleia Geral da ONU
Brasil de Fato

O Estado-Maior das Forças Armadas do Irã rejeitou as ameaças feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no seu discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) na terça-feira (22), em Nova York. Em comunicado divulgado pela agência iraniana Tasnim, o comando militar afirmou que as declarações do republicano são “um indicativo do impasse estratégico dos Estados Unidos em sua agressão contra a nação iraniana”.

Segundo o texto, as falas “hostis” e repetidas de Trump, acompanhadas de uma tentativa de usar a tribuna da ONU para justificar agressões, gerar insegurança e praticar “banditismo” pelo mundo, teriam como objetivo principal a propaganda doméstica, e não se baseariam na realidade. Para o Estado-Maior, a repetição de “alegações e ameaças infundadas”, diante do “desgaste” das Forças Armadas estadunidenses, não deve ser lida como sinal de força, mas como prova do “desespero estratégico” de Washington.

O comunicado, assinado também pelo Quartel-General Central Khatam al-Anbiya, segundo a Al Jazeera, afirma que o Irã sempre foi uma “âncora de segurança” na região, especialmente para o comércio internacional, e acusa os EUA de serem fonte de ameaça e instabilidade por meio de sua presença “ilegítima, ilegal e agressiva” na Ásia Ocidental. Os militares também acusam Washington de manter a economia mundial “refém” para compensar fracassos militares contra o Irã.

Ainda de acordo com o texto, a retórica de Trump não vai alterar o equilíbrio de forças nem compensar a “posição declinante” dos EUA “na nova ordem mundial” ou as “derrotas humilhantes” na guerra contra o Irã e o chamado eixo da resistência. O Estado-Maior afirmou que as Forças Armadas iranianas, com base na experiência dos oito anos da guerra contra o Iraque, estão prontas para desferir golpes “mais severos, mais esmagadores e imprevisíveis” contra os agressores e os líderes dos EUA e de Israel.

O comunicado se refere a Trump como o “assassino” do líder supremo aiatolá Ali Khamenei, de “crianças inocentes” e das vítimas de ataques a escolas de ensino fundamental em Minab e Lamerd. O texto termina com a expectativa de que o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, leve à Assembleia Geral a mensagem da “corajosa nação iraniana” e do “poder de um Irã forte e invencível”.

Na tribuna, horas antes, Trump havia dedicado boa parte de sua fala à defesa da guerra contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro com bombardeios dos EUA e de Israel. O republicano disse ter uma “grande decisão” pela frente. “Será feito um acordo com o Irã que permita que eles se reconstruam e criem um país muito maior do que jamais foram? Ou eu aniquilo a República Islâmica, e rápido, sem nunca mais dar a eles a chance de matar e destruir pessoas e países? Eu os mando para o inferno?”, questionou.

Ele afirmou ainda acreditar que um acordo sairá logo após as eleições legislativas de meio de mandato nos EUA, marcadas para 3 de novembro, e disse que Washington já havia oferecido a Teerã “plena cooperação econômica” em troca do fim do programa nuclear iraniano e do que os EUA classificam como apoio ao terrorismo.

A fala contrastou com o discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, que alertou para o aprofundamento das divisões globais e ressaltou a “interdependência” entre os povos, e com o do presidente Lula (PT), que expôs uma visão antagônica à de Trump sobre a ordem internacional. O estadunidense também celebrou a ofensiva sobre a Venezuela com a frase “aos vencedores, os espólios”.

‘Conversas’ em Nova York têm versões divergentes

No mesmo dia das ameaças, representantes dos dois países participaram de negociações à margem da Assembleia Geral da ONU, as primeiras desde que o cessar-fogo de junho ruiu. Os relatos, porém, divergem sobre o formato do encontro.

O enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, afirmou em publicação no X que as conversas ocorreram “por meio dos mediadores, que se deslocaram entre os dois lados ao longo do dia”. “Eles concluíram com sucesso uma rodada de discussões que esperamos que se mostre construtiva e promissora. Os mediadores seguirão com seu trabalho”, escreveu.

Trump deu uma versão mais direta. Segundo ele, Witkoff e Jared Kushner, seu genro, tiveram uma reunião de três horas com a delegação iraniana. “Foi uma reunião muito boa, muito produtiva”, disse o republicano a jornalistas, acrescentando haver “muito impulso” rumo a um acordo. De acordo com a Al Jazeera, a Casa Branca precisou esclarecer depois que Trump não participou do encontro.

A TV estatal iraniana confirmou uma reunião entre o chanceler Abbas Araghchi e Witkoff, após semanas sem contato direto. Segundo o correspondente da Al Jazeera em Teerã, Tohid Asadi, o encontro ocorreu “a pedido e por insistência do lado estadunidense” e teve como objetivo transmitir as mensagens e condições do Irã, principalmente sobre a reabertura do Estreito de Ormuz. Já o porta-voz da chancelaria iraniana, Esmail Baghaei, citado pela agência estatal Irna, afirmou que a negociação se deu por meio de um mediador do Catar, que levou as condições de Teerã, entre elas o fim da guerra “em todas as frentes” e dos “atos de agressão” dos EUA.

Segundo a imprensa estatal iraniana, as exigências incluem ainda o fim do bloqueio naval estadunidense, a liberação de ativos iranianos congelados e o fim da guerra nas frentes que Teerã chama de “resistência”, o que abrange a ofensiva de Israel contra o Hezbollah, no Líbano. Uma fonte de segurança iraniana disse à Al Jazeera que pode haver espaço para novas rodadas se Washington atender às condições.

Antes dos contatos, um alto funcionário iraniano afirmou à agência Reuters que a delegação em Nova York tinha plena autoridade para negociar e classificou a Assembleia como uma “oportunidade de ouro” para Washington voltar à mesa. Segundo ele, o Irã enviou sua proposta mais recente aos EUA por meio de mediadores em 16 de setembro, e o país poderia reabrir Ormuz em até sete dias caso os EUA reduzissem a pressão militar e suspendessem o bloqueio dos portos iranianos.

Guerra segue com Ormuz fechado e portos bloqueados

Desde o início da guerra, em fevereiro, o Irã respondeu aos bombardeios com ataques a Israel, a bases dos EUA no Golfo e a aliados árabes de Washington, além de fechar o Estreito de Ormuz, por onde passavam cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos no mundo antes do conflito. O bloqueio provocou forte oscilação nos preços da energia e aumentou a pressão sobre Trump às vésperas das eleições legislativas.

Após o colapso do memorando de entendimento de junho, os dois lados voltaram a trocar ataques de forma intermitente. O Irã tem atacado embarcações que, segundo o país, tentam atravessar Ormuz sem autorização, enquanto os EUA atingiram posições iranianas no estreito e petroleiros iranianos próximos à costa do país. Washington mantém ainda o bloqueio dos portos iranianos, com forte impacto sobre a economia local, e ameaça sancionar qualquer país que continue a comerciar com o Irã.

Autoridades estadunidenses vêm sinalizando avanços desde então. No início de agosto, Trump disse que os dois lados haviam chegado a parâmetros para um possível acordo e, depois, que as conversas sobre Ormuz estavam “andando bem”. No começo de setembro, afirmou esperar que a guerra estivesse “perto do fim”. As divergências, porém, permanecem: Teerã condiciona a reabertura do estreito ao alívio da pressão militar e ao fim do bloqueio, e exige que EUA e Israel encerrem a guerra também no Líbano.

O conflito ganhou nova frente com a intensificação dos ataques dos houthis, do Iêmen, aliados do Irã, contra o transporte de petróleo da Arábia Saudita, o que levou a uma escalada com o reino.

*Com informações de Tasnim, BBC e Al Jazeera.

Kaynak
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