Esquerda venceu em Berlim por falar de preocupações diárias dos trabalhadores, aponta analista alemão

به قلم BdF Entrevista23/09/2026 às 15:5366 بازدید
The Left Party's main candidate for the Berlin state election Elif Eralp celebrates on stage at the electoral evening event of Germany's The Left (Die Linke) party following Berlin's state elections in Festsaal Kreuzberg in Berlin on September 20, 2026. (Photo by Jens SCHLUETER / AFP) Crédito: JENS SCHLUETER / AFP
The Left Party's main candidate for the Berlin state election Elif Eralp celebrates on stage at the electoral evening event of Germany's The Left (Die Linke) party following Berlin's state elections in Festsaal Kreuzberg in Berlin on September 20, 2026. (Photo by Jens SCHLUETER / AFP) Crédito: JENS SCHLUETER / AFP
Brasil de Fato

Em meio a um cenário político alemão marcado pelo desgaste dos partidos tradicionais e pelo avanço da extrema direita em estados do Leste, a capital Berlim registrou um resultado histórico com a vitória do partido de esquerda socialista Die Linke. Alcançando quase 26% dos votos e abrindo uma vantagem de sete pontos percentuais em relação à segunda força política, o partido superou as projeções das pesquisas ao colocar a crise imobiliária, o preço abusivo dos aluguéis e o direito à cidade no centro da campanha.

Ao Bdf Entrevista, Andreas Behn, diretor da Fundação Rosa Luxemburgo para o Brasil e o Paraguai, explica que uma das razões para o triunfo eleitoral foi a legenda ter capturado a importante demanda da classe trabalhadora berlinense: o mercado de aluguéis.

“Os aluguéis em Berlim são muito altos e, em certo sentido, fora de controle, e há falta de moradia para muita gente. O Die Linke apostou em um tema que está muito perto da população, que realmente toca nas preocupações diárias de muita gente, e ainda tinha essa qualificação por estar trabalhando esse tema há muito tempo”, avalia.

Jornalista e sociólogo, Behn acredita ser importante comemorar a vitória do Die Linke, principalmente em meio a um ciclo de vitórias da extrema direita nos estados de Saxônia-Anhalt e Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, representada pelo partido AfD, legenda que segundo ele tem “evidentes aspirações nazistas”.

“[A vitória da esquerda] é realmente muito merecida e a gente tem que tomar isso como um ponto de partida, de otimismo, e ver como foi possível conseguir essa vitória”, afirma.

Outro ponto apontado é o desgaste que o governo conservador da Alemanha, comandado pelo partido democrata-cristão CDU em coalizão com os sociais-democratas do SPD, está vivendo atualmente, gerando bastante desconfiança junto ao eleitorado. “Eles estão fazendo um péssimo trabalho e essa é uma situação boa para partidos de oposição”, destaca Behn.

Leia a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: Eu queria começar falando da vitória que a esquerda teve em Berlim no último domingo. A esquerda vence com uma agenda de propostas que inclui regulação no preço dos aluguéis, fala até em expropriação de imóveis de grandes incorporadoras e inclusive a filha de imigrantes turcos foi quem encabeçou essa força da esquerda, que chegou a quase 26% de votos. É um partido que é tido como herdeiro do SED, o partido que era governista da antiga Alemanha Oriental, o país comunista. Vários elementos que colocariam o eleitorado médio assustado com essas propostas, mas essa força política sai vencedora nas eleições em Berlim. O que explica essa vitória?

Andreas Behn: Bom, isso realmente foi uma boa notícia no panorama de eleições também na Alemanha que vive um cenário bastante complicado com esse avanço extremo da extrema direita. Quase 26% para o partido Die Linke, isso foi uma surpresa, já que a previsão era talvez uns 21%, 22%. Foi claramente, com 7% de distância, o partido mais votado. E o partido Die Linke também é o partido ao qual a Fundação Rosa Luxemburgo está ligada. Então, nesse sentido, todos estamos realmente festejando essa vitória. O que explica? Tem muitas razões. Por um lado, o governo conservador da Alemanha, com a ligação da direita tradicional com a social-democracia, está fazendo um péssimo trabalho. É muita pouca confiança por parte dos eleitores a nível nacional que esse governo está captando. Então, é uma situação boa para partidos de oposição.

Mas o mais importante, acho que a Die Linke apostou nos temas mais importantes. Por exemplo, tinha uma pesquisa alguns meses antes das eleições, onde se estava dizendo que tem um tema que mais importa à população em Berlim: os aluguéis que são muito altos e, em certo sentido, fora de controle e a falta de moradia para muita gente. Ao mesmo tempo, uma outra pesquisa estava dizendo qual o partido que nessa temática teria mais expertise, que melhor saberia lidar com esse assunto, e esse partido foi a Die Linke. Então, juntando esses dois fatores, a Die Linke apostou num tema que está muito perto da população, que realmente vai nas preocupações diárias de muita gente, e ainda tinha essa qualificação por estar trabalhando esse tema há muito tempo. Eu acho que essa orientação temática foi a maior razão para essa vitória do partido Die Linke.

Também o partido está se renovando, muitas pessoas estão entrando no partido, pessoas jovens, não só do leste, mas também do oeste. Porque você comentou que, em certo sentido, no passado, o partido Die Linke, passando por várias siglas, é uma continuação do antigo partido de governo da República Democrática Alemã (RDA). Só que mudou muito. Realmente é um partido de esquerda bastante progressista, não fica nesse “mais ou menos” que muitas vezes os Verdes ficam, e realmente tem propostas que mudam. Essa proposta de inclusive uma nacionalização, estatização das grandes empresas de moradia, é uma ideia do partido Die Linke, mas isso também já teve, alguns anos atrás, um referendo em Berlim no qual quase 60% dos eleitores falaram: “Sim, temos que estatizar porque não funciona moradia junto com capitalismo”. Então, é um tema que é bem importante e que também justifica essa vitória nessas eleições estaduais.

Porque Berlim passa por uma espécie de doença, enfermidade em relação ao preço dos aluguéis, correto? Basicamente, a capital passa por uma explosão no preço dos aluguéis, muito influenciado por aluguéis de curta temporada, para turismo, e isso torna a vida dos trabalhadores berlinenses praticamente impossível de alugar um apartamento sem deixar ali dois terços do salário, por exemplo.

É, isso é certo. Na verdade, não é só Berlim. Em todas as cidades grandes a gente tem um problema parecido. Em Berlim subiu mais do que em outras cidades. E também a grande maioria das pessoas nas cidades moram de aluguel. Isso é diferente do Brasil, onde muitas pessoas têm casa própria, em todos os bairros. Isso na Alemanha não é assim. A tendência é cada vez ter mais propriedade de moradia, mas ainda a grande maioria, não tenho aqui números concretos, mas eu diria cerca de 80% das pessoas moram de aluguel.

A pauta da estatização de imóveis de grandes incorporadoras pode inviabilizar a formação de um governo em Berlim? Pois logo seguido do Die Linke, a CDU aparece como segunda força política. A AfD desponta como terceira força na capital, seguida dos Verdes e do SPD, a Social-Democracia. O Die Linke já disse que claramente não vai negociar com a extrema direita nem com a direita para formar governo. Então restam ali os Verdes e a Social-Democracia. Mas ambos os partidos já disseram que são contra essa medida de estatização de imóveis. Como ficam agora as negociações para a formação de um governo?

É, a consideração é a seguinte: todos os partidos deixam bem claro que não vão fazer coligação com a extrema direita, com a AfD. Com isso, só tem duas opções de governo. A primeira seria a Die Linke como força mais forte, junto com os Verdes e a SPD, que está com 12%. Os Verdes, diretamente depois das eleições, e também antes, falaram e deixaram bem claro que querem fazer uma coligação com a Die Linke. Mas falta a SPD para ter a maioria.

A outra opção seria os Verdes e a SPD fazerem uma coligação com a CDU, com os conservadores. Aí seria uma coligação dos três partidos perdedores nessas eleições, porque quem ganhou muito foi a Die Linke e também a extrema direita. O problema é com a SPD, a clássica social-democracia, que está no governo nacional junto com os conservadores da CDU. Eles já falaram que têm muito problema com essa pauta de estatizar empresas grandes de moradia.

Mas eu acho que vai ser uma questão de negociação. Essa estatização não é fácil, porque por lei, se você fizer isso, você tem que indenizar as empresas. Seria um custo na faixa de 20 bilhões de euros. Berlim não tem todo esse dinheiro. Então não é tão claro que isso, em curto prazo, vai acontecer. Também a Die Linke está falando que isso é mais uma questão de médio prazo. Tem muitas outras medidas para melhorar a situação das pessoas que moram de aluguel: fazer os tetos de aluguel, aumentar certos impostos para imóveis muito caros e orientar para moradia familiar em vez de moradia de Airbnb e esses apartamentos pequenos de uma pessoa.

Desde as eleições em Saxônia-Anhalt, onde a AfD saiu vencedora, mas depois do último domingo também com a vitória da esquerda em Berlim, aparece de maneira recorrente na imprensa ocidental, em vários institutos de pensamento, universidades e analistas, uma falsa comparação que coloca a “extrema esquerda” e a extrema direita como sintomas de uma mesma doença, que seria o “extremismo” na sociedade, e que precisaria ser combatido com o equilíbrio tradicional da política alemã, muito influenciada pelos longevos anos de Angela Merkel e aquela coalizão entre CDU e SPD que ficou anos no poder. Essa visão está muito presente, principalmente depois da vitória da esquerda em Berlim, tentando comparar ambos os movimentos, e dizer que são ambas vitórias do extremismo. Qual é a sua opinião sobre essas análises e por que elas ganham tanto eco?

Esse argumento é uma grande pena estar tão presente. É simplesmente bobagem. Quem tem interesse nessa argumentação são os antigos conservadores, sobretudo a CDU. Também a social-democracia, durante uns 20 anos, sempre falava: “Não vamos fazer coligação com a Die Linke”, porque achava que era muito de esquerda. Por isso, muitas vezes, nas últimas décadas quando a esquerda tinha maioria deixava a direita governar, por causa dessa posição. Isso tem a ver com a configuração da Alemanha e com a história da Alemanha. Digamos que não há nenhuma dúvida em falar que a extrema direita é a extrema direita. Sabemos muito bem o que foi o nazismo na Alemanha e aonde leva esse nazismo. E também teve a divisão da Alemanha em duas partes: a parte capitalista e a parte dita socialista. Eu diria que não tinha muito de socialista, era muito mais um regime bastante autoritário, mesmo que em questões sociais tenha conseguido alguns avanços. Mas essa história ainda pesa nesse quadro ideológico e é muito fácil dizer que temos dois extremos e os dois extremos são perigosos.

Isso são argumentos superficiais, eu diria táticos. Na prática, a Die Linke está há muito tempo governando ou co-governando na Turíngia, onde tudo funciona perfeitamente, em todas as experiências que se tem compartilhado do Die Linke, inclusive com a Fundação Rosa Luxemburgo, que faz parte das fundações de vários partidos da Alemanha, tudo sempre está funcionando com certas opiniões e diferenças de opiniões, mas nada fora do contexto e do consenso democrático. O único partido que está fora desse consenso democrático, que apela à violência, à discriminação, e também está dizendo que quer acabar com uma democracia, isso é a AfD, é a extrema direita. Nunca se pode ouvir esse discurso por parte do partido Die Linke. Então é coisa do passado que ainda é usado como uma tática por certos setores da direita que acham que com isso vão se dar melhor. Só que não estão se dando melhor com isso, não.

Na perspectiva de destruir mitos e teses liberais, você citou a Alemanha Oriental. Há também uma tese muito forte de que a AfD se sai melhor em regiões do leste, seja do ponto de vista eleitoral, seja do ponto de vista de ampliar sua militância, por uma espécie de nostalgia de um regime de força, de uma nostalgia totalitária, utilizando essa categoria tão problemática. Qual é a tua visão sobre isso? É também um desses mitos liberais para tentar explicar de maneira fácil um processo que é complexo?

Bom, primeiro tem que dizer que é um fato. Você pode tomar os resultados das eleições regionais e a AfD está muito mais forte no leste, na antiga RDA, do que no Ocidente. Também se sabe que a organização desse partido e também o que tinha antes dos movimentos neonazistas e tudo isso. Você não vê essa diferença. Muitas dessas pessoas vêm do Ocidente e aí o Oriente não tem tanto destaque como nos resultados das eleições. Em certo sentido, a unificação não foi uma unificação de dois iguais. Foi o forte, a Alemanha capitalista, que mais ou menos engoliu com seu sistema e com tudo a Alemanha Oriental. A única coisa que ficou realmente na cultura da Alemanha unificada são aqueles famosos desenhos no semáforo de pedestres em Berlim, que eram da RDA e foram mantidos após a reunificação, todo o resto é ocidental. Então, o que tem é um sentimento de que fomos maltratados, não somos alemães de primeira classe como os outros, isso existe. Mas é muito difícil saber realmente quais são as razões para isso.

Pessoas que moravam muito tempo num sistema bastante autoritário talvez tenham a tendência de gostar de teses autoritárias. Tem algumas pessoas que dizem isso, mas a tese contrária é igualmente válida, porque a única revolução que a Alemanha conseguiu fazer, talvez não dê para chamar de revolução, mas realmente foi um fato: a queda do muro, que foi um movimento popular também das pessoas que falaram: “Não, a gente quer mudar essa situação na nossa RDA”. Foi um movimento forte. Então, é muito difícil realmente chegar numa conclusão se a gente concorda que uma grande razão no mundo todo para o avanço da extrema direita é o neoliberalismo, e não ele como tal, mas os efeitos que ele causa. O neoliberalismo é muito simples: ele aumenta a riqueza lá em cima e diminui a pouca riqueza lá embaixo, onde são as maiorias. Todas as pessoas estão se sentindo pior, têm menos perspectivas do que tinham 10, 20 ou 30 anos atrás. Isso sim é uma das grandes razões para isso. E esse argumento se aplica mais fortemente à Alemanha Oriental, onde as pessoas têm menos prosperidade do que na Alemanha Ocidental.

A gente falou das eleições em Berlim, mas também no domingo passado tivemos eleições em Mecklenburgo-Pomerânia Ocidental e há 20 dias tivemos eleições na Saxônia-Anhalt. Nos dois processos a extrema direita saiu vencedora, com um resultado muito expressivo. Inclusive, em Mecklenburgo-Pomerânia Ocidental, a CDU não alcançou a cláusula de barreira e vai ficar fora do parlamento local, um revés muito grande para o governo do chanceler Friedrich Merz. O que significa vencer nesses dois estados para o jogo político alemão em nível nacional? E especificamente sobre a Saxônia-Anhalt, onde se desenha um cenário complexo para a formação de governo, quem é esse pequeno partido chamado BSW, que também se classifica como esquerda radical, e que pode ter um papel de fiel da balança nas negociações para uma coalizão?

No começo eu estava festejando a vitória da Die Linke em Berlim e isso é realmente muito merecido e a gente tem que tomar isso como um ponto de partida, de otimismo e ver como foi possível conseguir essa vitória. Mas a principal notícia dessas eleições que você mencionou é uma notícia muito ruim e esse ruim é muito maior do que essa vitória da Die Linke, em Berlim, que é esse avanço da extrema direita. Nos dois estados que você mencionou, Saxônia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, eles tiveram mais ou menos 40% dos votos, ou seja, mais que dobraram as suas votações em comparação com a ultima eleição. Uma coisa importante: a gente sabe que a extrema direita está em todo mundo, seja Trump, seja Bolsonaro, em todos os países da Europa também, mas a AfD na Alemanha é muito radical. Eles não são comparáveis com muitas dessas outras extremas direitas.

Por exemplo, Le Pen e seu partido, na França, negam estar em contato com a AfD, nem parabenizaram a AfD por essas vitórias eleitorais, porque estão dizendo: não, eles são tão de extrema direita que realmente só dá para dizer: isso é nazismo, o que eles estão propondo, as palavras que estão usando. Quer dizer, o panorama na Alemanha é, novamente com essa história do fascismo, que há 80 anos estava massacrando o mundo todo, ter uma extrema direita que está apostando novamente nas mesmas coisas.

Não nessas palavras, não são tão claros, mas, por outro lado, ouvindo e vendo os discursos realmente eles estão falando de “remigração”, querem expulsar com armamentos todas as pessoas que não são de sangue alemão e essas coisas que a gente conhece da história. É importante ter claro: essa AfD é muito pior, muito mais perigosa do que muitas outras extremas direitas em outros países. Eles têm apoio de 40% e estão quase chegando no governo. Não estão chegando no governo, por enquanto, nesses dois estados. Porque todos os outros partidos dizem que com a AfD eles não cooperam. Por enquanto está assim. Justamente a CDU, que também cada dia vai mais para a direita, defendendo ideias de ser contra migrantes para captar os eleitores deles. Mas não está acontecendo. O que está acontecendo é que a CDU cada vez está perdendo mais. É importante dizer que, na Alemanha, estamos agora no mesmo processo que outros países. Por exemplo, aqui no Brasil não existe mais a direita tradicional. O PSDB de antes foi comido pela extrema direita, pelo bolsonarismo e outras tendências que tem ali. Nos Estados Unidos, os antigos republicanos moderados não existem mais. A Alemanha ainda tinha essa direita tradicional, inclusive a CDU, que está no governo nacional. Mas agora, nessas eleições, está se mostrando que o poder da CDU está desaparecendo. E realmente, esse fato que em Mecklemburgo-Pomerânia ficaram embaixo da cláusula de barreira de 5%, só ganharam 4,9%, é inédito. Em toda a história da Alemanha nunca teve um parlamento regional sem a CDU. Então isso é muito significativo, é uma grande crise para esse governo Friedrich Merz. Cada dia se está esperando que o próprio partido, a própria coligação com a SPD, vai tirar ele do cargo. Mas não está acontecendo porque a alternativa também não existe. É muito difícil fazer uma alternativa. É por isso que ele ainda segue no cargo.

No próprio domingo ele veio a público com resultados preliminares, dizendo: ‘Os resultados foram um desastre para a CDU’. Só que naquele momento a CDU marcava 5,2%. Depois é que se confirma a cláusula de barreira e que a CDU não teria entrada no parlamento. Então, se já era desastroso antes, imagina depois. Era esperado um discurso um pouco mais derrotista, um pouco mais demissionário do Merz, mas ele subiu o tom e falou: “O resultado é catastrófico, mas a gente segue no poder. Eu sou uma pessoa de equilíbrio, de buscar consensos”. Então, ele está realmente se segurando no cargo, não é?

Sim, exatamente. E aí é interessante olhar a segunda força no estado lá no Nordeste, em Mecklemburgo-Pomerânia, que foi a SPD, que só tinha uns 3% menos que os nazistas, com uma candidata da SPD muito reconhecida, que também era governadora nos últimos quatro anos. E mesmo que o partido dela faça parte da coligação nacional CDU-SPD, ela fez um discurso totalmente contra a política desse governo, dizendo que é injusto porque as propostas de reforma de Merz são, afinal, cortar a aposentadoria, aumentar tempo de trabalho, várias coisas que são totalmente antissociais, por isso muito criticado pela esquerda. E essa candidata fez exatamente esse discurso e com isso ela quase ganhou as eleições. Isso mostra que a posição desse governo, em eleições, não tem mais chance de ganhar. Por isso também vimos em Berlim que são os dois partidos de esquerda que estão na frente.

Mas ainda queria falar sobre o BSW, que rachou com o partido Die Linke há uns dois anos. A Sahra Wagenknecht, durante muitos anos, foi uma pessoa com muito destaque no partido Die Linke. Só que sempre teve muitas brigas internas. Ela vem realmente da ala muito radical da Die Linke, bem comunista. Só que ela estava dizendo ao Die Linke que o partido estava se afastando dos interesses das pessoas. O partido tem o nome dela: BSW é o Bündnis Sahra Wagenknecht (Aliança Sahra Wagenknecht). Então só importa o que ela pensa, ela lidera esse partido com total autoritarismo. E ela está dizendo: “Bom, as pessoas não gostam de imigrantes, então a gente tem que fazer políticas contra imigrantes”. Ela e esse partido que se está dizendo um partido de esquerda, é um partido que, no quesito de racismo, está totalmente do lado da direita, e não da direita moderada, da direita extrema. Porque o BSW fala: “Ah, não, mas o povo não se interessa por esses temas”. Em certo sentido, ela está certa, porque a gente vê que grande parte está votando nos nazistas, que também odeiam esses temas. Temos que ser muito claros: o BSW não é um partido de esquerda. É um partido, talvez, do centro com várias tendências de extrema direita. Isso é muito importante porque cada vez mais eles estão indo nessa direção.

E eu falei antes do consenso entre todos os partidos de não topar coalizão com os nazistas da AfD. O único partido que está dizendo: “Não, essa posição está errada” é o BSW. Eles apostam em coligações ou conversas com esse partido. E essa situação se dá em Saxônia-Anhalt, porque ali a AfD e o BSW teriam uma maioria, pequena, mas maioria. Então, ali se tem uma situação em que a extrema direita, com a ajuda desse partido ex-esquerda, dessa pessoa ex-esquerda, Sahra Wagenknecht, tem a chance de formar um governo nazista. Isso a gente tem que deixar bem claro. Por exemplo, no Mecklemburgo-Pomerânia, o BSW quase entrou, mas chegou a 4,8%. E ali, os outros partidos vão fazer uma coligação e o partido mais forte, a AfD, vai ficar de fora do governo. Então, esse partido BSW é bem perigoso. Mesmo assim, a gente tem que olhar por que um partido tão contraditório está ganhando em todas as eleições em torno de 5%. Na eleição nacional, eles ficaram abaixo da cláusula de barreira por poucos votos. Eram talvez 3 mil votos. Tinha 4,99%. Então, sempre tem 5%. Uma coisa é criticar, mas é preciso também pensar como pode ser que uma posição tão esquisita é votada por 5% da população a nível nacional. Então, também temos que fazer esse exercício de entender.

Recentemente escutei de uma militante francesa da esquerda radical que muitas bandeiras e pautas deles estariam próximas de bandeiras defendidas pela extrema direita europeia, no caso, o fim da OTAN, o fim da guerra na Ucrânia, um discurso antimilitarista. Transpondo para a Alemanha, a AfD acaba defendendo algumas dessas pautas também, no sentido de interrupção dos auxílios bilionários que a Alemanha manda para Kiev, para ajudar o governo Zelensky na guerra contra a Rússia, que causam um rombo nos cofres públicos e atrapalham a vida dos trabalhadores. Essa pauta acaba sendo uma pauta popular, que afeta a vida do trabalhador e que também tem um ponto de convergência, seja com o BSW, mas também a AfD, que defende o fim imediato de ajuda a Kiev e o encerramento da guerra na Ucrânia. Há uma convergência de pautas? Como lidar com isso?

Bom, eu não concordo muito com esse discurso que você citou. Por um lado, se a gente vai realmente ver o que a extrema direita está propondo na área onde estão os pontos fortes da esquerda vamos ver que é totalmente diferente. Nós estamos apostando como esquerda em igualdade social e mais justiça social. E a extrema direita, pelo menos na Alemanha, talvez tenha algumas diferenças, sempre aposta exatamente nesse sistema neoliberal que eu já mencionei. E sempre foi assim: mais dinheiro para os ricos e menos para o povo, mesmo que no discurso, eles tentem disfarçar. Então, no social, não tem nenhum encontro entre esquerda e direita. E também nessa outra grande área, que é racismo, discriminação e igualdade. A extrema direita também sempre fala em segregar, que é preciso ver quem são os alemães e que os migrantes são o principal problema que a gente tem. Então, não vejo realmente ali uma coisa onde se tem essa certa convergência, que, na verdade, muitas pessoas também na direita, na direita tradicional, também sempre tem essa tese. Já se escuta muito isso.

Você mencionou o exemplo da guerra da Ucrânia. Na guerra da Ucrânia a gente tem que ver que foi a Rússia que invadiu esse país e também a cada dia está matando pessoas lá. Não é, digamos, uma atuação que seria, do ponto de vista da esquerda, defensável. E é importante ver que esse governo do Putin é absolutamente autoritário e tem muitas características que a gente chamaria nos nossos países, digamos Brasil e Alemanha, de extrema direita. Então, para mim, não me surpreende muito que tem uma certa ligação dos nazistas da AfD com o regime do Putin na Rússia. E também a gente vê que tem muitas tentativas do Putin de interferir em assuntos eleitorais na Alemanha, na Europa, assim como o Trump está fazendo na Europa e também na América Latina. Então a gente vê essas ligações que existem, uma certa posição anti-guerra da AfD nesse caso, para mim, é mais uma opinião tática, porque eles estão interessados em todos os países com governos autoritários, como Trump nos Estados Unidos, Milei na Argentina, Putin na Rússia e estão fazendo essas ligações. Eles não são um partido de paz só porque estão criticando o armamento que a comunidade europeia está mandando para a Ucrânia. Isso sim é um tema complicado, eu diria, tem vários aspectos que a gente tem que pensar e opinar sobre a participação da Otan e da comunidade europeia nessa guerra, mas o ponto de vista da AfD, para mim é puro engano.

Mas o congelamento de relações entre Berlim e Moscou, a interrupção do fornecimento de gás russo que encareceu a energia na Alemanha, a interrupção no comércio bilateral e os gastos bilionários que a Alemanha tem com ajuda ao regime de Kiev, não pioraram a vida do trabalhador alemão?

Eu diria que o que está mudando com essa guerra é que em muitos países, inclusive na Alemanha, se começou a reinvestir muito dinheiro em armamentos, em questões militares, o que durante décadas, sobretudo na Alemanha, não havia. Mas o Trump também o tempo todo estava dizendo que a Alemanha, a França, tem que investir mais em questões militares. E foi feito a partir dessa guerra. Então, quando vai mais orçamento para assuntos militares, tem menos dinheiro normalmente para questões sociais. E esse governo também não quer gastar nada com questões sociais. Eu diria que eu sou contra gastos militares altos porque sobra menos dinheiro para outras tarefas mais importantes. E também porque, normalmente, armamento sempre vai ser usado, sempre vai causar morte. Então, eu sou contra essa política, mas eu não faço isso pelos mesmos argumentos da AfD, porque a AfD não tem nada contra armamento. Eles vão usar armamento quando chegar no poder. Eles estão contra essa guerra porque eles querem estar mais perto com Rússia, porque tem uma aliança de várias extremas direitas no mundo com o regime na Rússia, o regime do Putin. A gente tem que dizer assim, eu sei que tem muitas pessoas que têm outras ilusões com a Rússia, por questões geopolíticas, seja o que for. Eu não concordo com essa parte.

Você acabou de dizer “quando a AfD chegar no poder”. É um prognóstico esse seu? E se você pudesse traçar para a gente qual seria, então, o caminho que a AfD teria que percorrer para chegar a eleger um chanceler da República? Até quando esse cordão sanitário contra a AfD vai funcionar?

Na Alemanha, existe uma preocupação com isso, com esses resultados absurdos que a AfD está tendo, absurdamente bons para eles. Por outro lado, eu também vejo que eles não têm muito tempo. Agora é o momento deles. Daqui a 10 anos tudo vai ser numa outra direção. Eu vejo um grande perigo se a coisa segue como está e nas próximas eleições nacionais, em mais ou menos três anos, eles podem ganhar maioria no nível nacional. As pesquisas já indicam que é o partido mais forte e talvez com um partido como o BSW ou alguma outra força possam chegar no poder. Por isso tem uma discussão também muito forte na Alemanha que é para proibir esse partido, já que ele quer destruir a Alemanha e a Constituição prevê proibir partidos. Isso aconteceu nos anos 1950, em que foi proibido um partido nazista e um partido comunista. Mas é uma discussão interessante. Normalmente eu sou totalmente contra proibições, porque não é um instrumento que a gente gosta de usar. Mas quando a gente vê o nível de argumentos e discussão, e tudo isso no contexto das fake news, das mentiras, a AfD, os nazistas, estão só avançando.

Faz poucos dias que eu li uma matéria dizendo, e não é 100% de verdade isso, mas que quando as pessoas votam na AfD, eles votam na AfD sorrindo. Eles votam felizes, contentes. Quando eu li isso eu comecei a pensar um pouquinho. Me parece que é verdade. E se isso for assim, e assim também era a conclusão dessa matéria, as pessoas são felizes. E nós estamos votando em outras opções para impedir os nazistas. Muitas vezes não votamos mais no nosso partido, no meu caso no Die Linke, para fazer um voto útil. Então, eles também têm um prazer em ser o que são e construir uma força nazista que pode chegar no governo. Eu realmente não tenho resposta, mas eu acho muito, muito preocupante, porque a Alemanha, quando se trata desse tema, não é qualquer país. É o país que tem as piores experiências no mundo com essa direção política.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

منبع
Brasil de Fato
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