59º Festival de Brasília celebra memória, resistência e diversidade do cinema brasileiro

Por Júlio Camargo13/09/2026 às 02:0821 visualizações
59º FBCB
59º FBCB
Brasil de Fato

O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB) deu início à 59ª edição nesta sexta-feira (11). A cerimônia reuniu artistas, realizadores e representantes do cinema nacional, além da honraria à atriz Julia Lemmertz pelo conjunto da obra e a exibição dos filmes “A pele morta” (2026) e a versão restaurada de “Brasília – Planejamento Urbano” (1964).

A cerimônia de abertura contou com apresentação dos jornalistas Luiza Garonce e Chico Sant’anna, que destacaram o fato de que, por ser o mais longevo evento cinematográfico do país, o Festival se consolidou como espaço de encontro e difusão da sétima arte, acompanhando as mudanças do cinema e da sociedade brasileira ao longo dos anos. “O festival é também um símbolo de resistência, perseverança e segue como um dos grandes acontecimentos da cultura nacional”, afirma Garonce.

A primeira convidada da noite foi a representante do Ministério da Cultura e Secretária do Audiovisual, Joelma Oliveira Gonzaga, que destacou a importância do FBCB como espaço de convergência da cultura nacional em um contexto de luta pela democracia e pela soberania.

“Lembro de Paulo Emílio Sales Gomes, que foi um teórico e crítico de cinema, quando ele diz que ‘não tem cinema brasileiro e não tem audiovisual brasileiro se não houver democracia brasileira’. É sobre esses tempos em que estamos numa luta pela continuidade do Festival de Brasília em um projeto de país que preza, zela e protege a soberania, democracia e liberdade”, destacou Gonzaga.

Homenagens

A condecoração do festival, fora da Mostra Competitiva, começou com a premiação da Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo (ABCV). Em 2026, a associação fundada por Vladimir Carvalho e Geraldo Moraes agraciou a categoria de profissionais da captação de som direto. Receberam os prêmios Acácio Campos (“Ñande Guarani”, “Cássia Eller”), Chico Bororo (“Romance do Vaqueiro Voador” e “Rock Brasília – Era de Ouro”) e Fernando Cavalcante (“A pele morta”, “Democracia em vertigem” e “Apocalipse nos trópicos”).

Premiação da ABCV |
Premiação da ABCV | — Michelle Moreira/59º FBCB
Premiação da ABCV | Crédito: Michelle Moreira/59º FBCB

Em seguida, os apresentadores abriram espaço para celebrar a memória e prestar homenagens aos grandes nomes das artes e do audiovisual falecidos recentemente: Gê Martu e Guilherme Reis, duas figuras fundamentais do teatro e do cinema da capital; as atrizes consagradas Laura Cardoso e Glória Menezes; além de Teuda Bara, Titina Ribeiro, Dênnis Carvalho, Juca de Oliveira, Rui Rezende, Gracindo Júnior e o documentarista Silvio Da-Rin. A noite também reservou tributos especiais a Orlando Senna, que também será homenageado na 6ª Conferência do Audiovisual, e ao produtor Luiz Carlos Barreto, o Barretão, lembrado por meio de um vídeo institucional sintetizando sua trajetória.

Ao conceder o Troféu Candango pelo conjunto da obra a Júlia Lemmertz, o Festival de Brasília prestou tributo a mais de quatro décadas de uma carreira marcada por densidade dramática e versatilidade nos palcos, na televisão e nas telas de cinema. Consolidada como um dos nomes mais expressivos da atuação no país, Lemmertz construiu uma filmografia que dialoga diretamente com momentos cruciais da cinematografia nacional.

Sua relação histórica com o festival remonta a 1986, quando foi laureada como melhor atriz coadjuvante por “A cor do seu destino”, dirigido por Jorge Durán, cineasta que estava na plateia e que, à época, recebeu o troféu em seu nome. Ao longo de sua trajetória, a atriz protagonizou e integrou produções emblemáticas como “Jenipapo” (1995), “A hora mágica” (1998), as adaptações “Um copo de cólera” (1999) e “Meu nome não é Johnny” (2008), além de títulos autorais como “Música para quando as luzes se apagam” (2021).

Júlia Lemmertz fez questão de dividir a honraria com todos os técnicos, diretores e colegas de profissão. Ao refletir sobre a vocação coletiva e a força política do audiovisual, a atriz definiu o fazer artístico como um ato permanente de coragem e preservação: “Nós, atores, e essa comunidade do cinema, essa comunhão de pessoas que contam histórias e preservam a memória cultural do país, nós somos uma raça única, corajosa e que precisa ter muito fôlego, porque a luta é grande”.

Júlia Lemmertz |
Júlia Lemmertz | — Júlio Camargo/BdF DF
Júlia Lemmertz | Crédito: Júlio Camargo/BdF DF

A atriz enfatizou ainda o papel fundamental das narrativas para o futuro do país. “Precisamos seguir contando histórias e preservando a nossa memória, porque daqui a um tempo outras gerações já estão vindo e vão reconhecer a nossa história e vão saber do que aconteceu no Brasil por meio dos filmes”. Para ela, o cinema cumpre sua missão transformadora quando se converte em imaginação compartilhada, lembrando que o processo de sonhar, produzir e entregar uma obra às salas de exibição “vai formando uma consciência coletiva, vai formando um pensamento coletivo”.

A solenidade seguiu anunciando homenagens que ocorrerão ao longo da programação, como a entrega do Troféu Leila Diniz à cineasta Tata Amaral e da Medalha Paulo Emílio Salles Gomes à pesquisadora Fernanda Coelho.

Abrindo a programação de exibições, o diretor artístico do festival, Eduardo Valente, leu uma mensagem do cineasta e diretor de fotografia Luís Abramo sobre o restauro do clássico curta-metragem documental Brasília – Planejamento Urbano de 1964, dirigido por seu pai, Fernando Coni Campos, em colaboração com Lúcio Costa e Maria Elisa Costa.

A pele morta

Por fim, a equipe do longa-metragem de abertura, “A Pele Morta”, subiu ao palco para apresentar a obra. Com roteiro de Daniel Tavares e direção assumida pelos irmãos Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres, o projeto roteirizado por Geraldo Moraes foi definido como uma narrativa de integração latino-americana, fronteiriça e de forte apelo à ancestralidade indígena e decolonial.

Denise ressaltou o compromisso de honrar a memória paterna a partir de uma visão compartilhada: “A gente fica muito honrado e também sente um peso muito grande também da responsabilidade de trazer um filme que deveria ser dirigido pelo nosso pai”.

Ela enfatizou ainda o caráter integrador e transnacional da produção, definindo a obra para além de suas fronteiras geográficas: “’A pele morta’ é, antes de tudo, um filme sobre pertencimento, um pertencimento que não está necessariamente ligado a um território fixo, mas se constitui nos vínculos afetivos que a gente cria ao longo do caminho.”

Equipe do filme “A pele morta” |
Equipe do filme “A pele morta” | — Júlio Camargo/BdF DF
Equipe do filme “A pele morta” | Crédito: Júlio Camargo/BdF DF

Em seguida, Bruno Fatumbi situou o trabalho como uma produção de posicionamento político em defesa das causas originárias. O codiretor celebrou a continuidade da trajetória familiar ao afirmar que “hoje a gente cumpre uma missão, uma missão de ancestralidade mesmo, porque, por meio de nós, eu e Denise, o Geraldo está vivo”.

Em tom de denúncia, Bruno chamou a atenção do público para a urgência da questão indígena e revelou o impacto trágico da violência real sofrida por um dos integrantes da produção: “A gente precisa continuar olhando para os territórios indígenas do Brasil. Um dos indígenas que é ator do filme foi assassinado numa aldeia, na Jaguapiru, Bororó, e foi muito marcante para nós. Esse filme também fala sobre isso, é um protagonismo indígena nesse contexto de resistência decolonial que ainda segue de forma violenta”.

Resistência

Festival de Brasília do Cinema Brasileiro chega à 59ª edição com mais de 70 produções na programação. O evento este ano acontece graças à pressão popular, que fez a governadora Celina Leão (PP) liberar o orçamento da mostra. O mais longevo evento dedicado ao cinema nacional chegou a ser cancelado pelo Governo do Distrito Federal (GDF) por falta de recursos. De 11 a 19 de setembro, o Cine Brasília será o palco principal da programação, além de Planaltina, Taguatinga, Samambaia e Ceilândia. A programação completa pode ser acessada pelo site oficial do festival.

Serviço

Data: de 11 a 19 de setembro

Locais: Cine Brasília, Complexo Cultural de Planaltina e Universidade Católica de Brasília, em Taguatinga

Entrada: gratuita para a maior parte da programação. A Mostra Competitiva Nacional custa R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

No Cine Brasília, a entrada para as sessões gratuitas é mediante retirada de ingresso uma hora antes da exibição. As atividades estão sujeitas à lotação dos espaços.

No Cine Brasília, a entrada para as sessões gratuitas é mediante retirada de ingressos uma hora antes da exibição. As atividades estão sujeitas à lotação dos espaços.


Apoie a comunicação popular no DF:

Faça uma contribuição via Pix e ajude a manter o jornalismo regional independente. Doe para [email protected]

Faça uma sugestão de reportagem sobre o Distrito Federal, por meio do número de WhatsApp do BdF DF: 61 98304–0102

Siga nosso perfil no Instagram e fique por dentro das notícias da região.

Entre em nosso canal no WhatsApp e acompanhe as atualizações

Fonte
Brasil de Fato
Abrir original ↗
Esta notícia foi útil?

Debates 0

Seja o primeiro a contribuir com o debate.

Difunda suas informações e promova seu argumento

Não se acanhe de publicar alguma informação ou dado que possa ser positivo ou útil.

Para participar do debate, entre com sua conta ou crie uma gratuita.