Acredito que a vida adulta te coloca algumas provações inusitadas, como descobrir que detergente virou bebida de maluco negacionista e que o papel higiênico não se desenrola sozinho — a não ser quando seu gato faz picadinho dele numa madrugada qualquer.
Existem outras, claro, tão banais, como ir à lavanderia. Eu estou nessa prática há pouco tempo e percebi como esse ecossistema úmido é repleto de armadilhas sociológicas.
A lavanderia é um lugar onde a intimidade alheia se expõe, rodopiando a mil rotações por minuto, atrás de um vidro embaçado. Foi numa dessas incursões, armado com um cesto de roupas sujas e a ingenuidade de um novato, que o destino me pregou uma peça.
Recolhi minhas roupas da secadora e dobrei tudo com a pressa de quem quer voltar ao sofá. Ao organizar as gavetas, notei uma intrusa. Uma cueca vermelha. Não um vermelho discreto. Era um vermelho vibrante, quase radioativo, um vermelho que gritava “eu não tenho medo de desbotar na lavagem”.
Eu não tenho cuecas vermelhas. Minhas gavetas são um monótono degradê de cinza, preto e azul-marinho, o uniforme padrão da melancolia masculina urbana. Aquela peça rubra era um alienígena no meu guarda-roupa. Fiquei imaginando quem seria o dono e o que aquela cueca teria vivido.
Pensei em levar de volta. “Amanhã eu desço e deixo no balcão”, prometi. Mas o amanhã não chegou. A cueca vermelha ficou ali, no cesto de roupa suja, me encarando com toda a sua ousadia escarlate toda vez que eu me aproximava.
Semanas se passaram e a cueca foi soterrada por outras peças. Chegou o dia de lavar roupa novamente. No piloto automático, peguei tudo no cesto, desci, lavei, sequei, subi. Quando fui guardar… lá estava ela. Eu a havia lavado de novo. Avisei a Alexa para anotar o recado e me lembrar no dia seguinte. “Devolver a cueca”.
Por um momento, eu não só a tinha sequestrado, como também a mantinha num regime bizarro de cativeiro com pensão completa. Ela tinha dono e não era eu. Senti um misto de culpa e absurdo. E, por algum motivo besta, tinha nojinho dela.
Decidi que daria um fim naquilo. Um assassinato de algodão. Mas hesitei. Vai que o cara é apegado? A cueca já tinha ganhado status de entidade na minha casa.
Na vez seguinte em que desci à lavanderia, a maldita estava na minha sacola, pronta para ser devolvida. Enquanto a máquina girava, sentei-me e abri um livro, tentando fingir que não carregava a roupa íntima de um estranho no bolso. Fiquei sem jeito de colocar a danada na bancada porque havia mais gente.
Não é qualquer gente, é dessas que puxam assunto na lavanderia. Elas existem. Foi quando um rapaz deu início ao papo. Falamos do tempo, do síndico, da inflação do sabão. Amenidades. A conversa fluiu para o futebol. Ele suspirou pesado e, com a naturalidade de quem confessa um pecado, soltou:
— Pra piorar, perdi minha cueca da sorte aqui faz um mês. Sou flamenguista. Tinha uma cueca vermelha que eu só usava no dia de clássico. Sumiu na secadora. Sem ela, o Mengão perdeu o último jogo.
Eu, são-paulino desde o berço, congelei. A mão, que instintivamente tinha ido ao bolso, parou no meio do caminho. O tecido vermelho pareceu queimar meus dedos.
Olhei para o rapaz. Ele tinha um olhar triste, de quem acreditava que o time dependia daquela peça íntima. Pensei no meu Tricolor lutando no campeonato e nas minhas próprias mandingas de torcedor. Pensei no Flamengo. Pensei na cueca vermelha, limpinha, amaciada com lavanda, refém no meu bolso esquerdo.
Fiz o que qualquer homem ético e apaixonado por futebol faria naquela situação.
Fiquei em absoluto silêncio.
— Puxa, cara… que chato — lamentei, com a voz embargada por uma solidariedade falsa. — A máquina sempre come alguma coisa — consolei.
Ele assentiu, resignado. Recolheu suas roupas e saiu com sua sacola, levando consigo a esperança do seu time. E eu fiquei ali, com a cueca no bolso. Já sozinho, a depositei no balcão, olhando para os lados, e resolvi escrever um bilhete de improviso.
— Pertence a um flamenguista. Favor respeitar. Ele voltará.
Voltei para o apartamento satisfeito. Tirei as roupas da sacola, dobrei com cuidado e guardei. Para minha surpresa, e revolta, agora havia uma meia. Apenas o pé direito, daquelas estampadas com capivaras usando óculos escuros.
— “Não é possível”, pensei.
Levantei a meia contra a luz para observar melhor a capivara com seus óculos de lacração tug life. Se o Flamengo perdeu o jogo por causa da cueca, o que será que estava em jogo com aquela meia de capivara? Pelo sim, pelo não, passei a calçar a meia para ver os jogos do São Paulo. Passado um tempo, a conclusão: se o universo estava tentando me dar uma vantagem, definitivamente não funcionou.
