Internações infantis por doenças respiratórias sobem 628% em cidade do lítio de MG

Por Diego Junqueira24/09/2026 às 07:0074 visualizações
Sigma Lithium opera desde maio de 2023 a maior mina de lítio a céu aberto do Brasil (Foto: Reprodução/MPMG)
Sigma Lithium opera desde maio de 2023 a maior mina de lítio a céu aberto do Brasil (Foto: Reprodução/MPMG)
Reporter Brasil

DE ARAÇUAÍ E ITINGA (MG) — De uma gaveta da cômoda, Marta* tira uma caixa de sapatos coberta de poeira. Ao invés de calçados, guarda remédios para doenças respiratórias — a maioria usada pelo neto, de seis anos. A rotina de estudos e brincadeiras do menino é marcada também por uma agenda de consultas e exames. “Ontem foi raio-X do pulmão, hoje foi uma visita ao hospital”, lamenta.

A suspeita da avó é que a saúde do neto tenha piorado por causa da poeira gerada pela Grota do Cirilo, a maior mina de lítio a céu aberto do país. Operada pela mineradora canadense Sigma Lithium, a jazida está localizada na zona rural de Araçuaí e Itinga (MG), municípios do Vale do Jequitinhonha. Fica também a menos de um quilômetro de Piauí Poço Dantas, comunidade onde mora a família de Marta e de onde se vêem as pilhas de rejeitos da mineração.

Desde dezembro de 2025, a Sigma é alvo de uma Ação Civil Pública do MPMG (Ministério Público de Minas Gerais), por suspeita de provocar diversos danos socioambientais em quatro comunidades vizinhas: Piauí Poço Dantas, Ponte do Piauí, Taquaral Seco e Santa Luzia. Entre os impactos investigados está a possível piora na qualidade do ar causada pela poeira excessiva da atividade minerária. 

As operações da empresa foram suspensas provisoriamente pela Justiça em outro processo, devido à falta de consulta prévia, livre e informada a uma comunidade quilombola situada a menos de 3 km do empreendimento.

Na ação do Ministério Público, um relatório técnico identificou o aumento de doenças respiratórias entre moradores das comunidades no entorno da mina, principalmente em crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas. “Os danos à saúde respiratória causados pela exposição crônica a material particulado são progressivos e podem tornar-se irreversíveis”, diz a ação. 

Dados oficiais do Ministério da Saúde indicam uma piora na saúde respiratória infantil nos dois municípios de atuação da Sigma, cujos centros urbanos estão a cerca de 21 km da atividade minerária. 

Um levantamento inédito da Repórter Brasil mostra que, entre 2021 e 2025, as internações de crianças de até 0 a 14 anos por asma, pneumonia, bronquite e bronquiolite cresceram 628% em Araçuaí e 350% em Itinga. 

Em nota, a empresa nega qualquer relação entre suas operações e o aumento das internações. Também diz ser “vítima de uma campanha difamatória, baseada em alegações enganosas, falsas e imprecisas”. Leia a íntegra da resposta aqui e confira outros trechos do posicionamento ao longo desta reportagem. 

A análise da Repórter Brasil compara 2021, ano anterior à construção da mina, e 2025, último ano com dados completos no Sistema de Informações Hospitalares do SUS. A Grota do Cirilo foi construída ao longo de 2022 e entrou em operação em maio de 2023.

Os dados públicos revelam alta de internações respiratórias infantis nesse período em todo país. Porém, o aumento de casos em Araçuaí (628%) e Itinga (350%) está acima do registrado no Vale do Jequitinhonha (221%), em Minas Gerais (157%) e no Brasil (102%).

Estudos nacionais e internacionais apontam a contaminação do ar como fator de incremento nas internações de crianças pelas quatro doenças analisadas. Isso ocorre porque a inalação constante de partículas finas “causa uma inflamação crônica nas vias aéreas e quebra as barreiras de proteção do pulmão”, explica Unaí Tupinambá, médico infectologista e professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais. 

O médico destaca que a poluição atmosférica agrava todas as enfermidades do trato respiratório, porém, na saúde infantil, as doenças mais suscetíveis são justamente asma, pneumonia, bronquite e bronquiolite.

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O que diz a Sigma?

Procurada, a Sigma contesta o levantamento da reportagem e afirma que os dados “não conferem e partem de premissas erradas”.

A Sigma sugere que o ano base de comparação deveria ser 2022, quando a Grota do Cirilo estava em fase de implementação, e não 2021, quando não havia atividades industriais. 

Contudo, um dos estudos de impacto ambiental do projeto, realizado durante o processo de licenciamento, já considerava como “impactos previstos”, nas fases de “implantação e operação”, “alterações físicas sobre a qualidade ambiental do ar, decorrentes da emissão de efluentes atmosféricos, suspensão e dispersão de material particulado.” 

A empresa questionou ainda o recorte das quatro doenças analisadas (asma, pneumonia, bronquite e bronquiolite), afirmando que “doenças infecciosas agudas são causadas por vírus e bactérias e não têm relação com a atividade industrial-minerária”, segundo a nota da empresa. “Relacionar as operações a um falso aumento de problemas respiratórios da população carece de amparo factual ou científico”, continua.

No entanto, o Relatório de Impacto Ambiental de uma outra área da Grota do Cirilo afirma que “a modificação da composição do ar nas adjacências da mineração  pode contribuir para um prejuízo ao sistema respiratório da população, comprometendo sua saúde, principalmente entre crianças e idosos”. Outro estudo feito durante o licenciamento também considera possível o “aumento na ocorrência de doenças do trato respiratório”.  

Doenças respiratórias causadas por infecções são “pioradas pela poluição do ar”, afirma Patrícia Ferrini, consultora técnica da OMS (Organização Mundial da Saúde).

“Mesmo a Covid-19, que é transmitida por um vírus, mata mais quem vive em áreas poluídas, porque essa poluição já coloca o sistema imunológico, cardiovascular e respiratório em risco”, avalia. 

No que diz respeito às doenças causadas por vírus e bactérias, um estudo da Universidade Chang Gung, em Taiwan, mostra que partículas finas, quando inaladas, prejudicam diretamente as células de defesa do pulmão, reduzindo a capacidade do organismo de responder a infecções. 

Crianças expostas a ar poluído têm mais dificuldade de combater infecções comuns, que podem evoluir para um quadro grave, acrescenta Tupinambá, da UFMG.  

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Na resposta, a Sigma questiona também a escolha de Araçuaí e Itinga para a análise. 

“As atividades industrial-minerárias ocorrem em Itinga, e não em Araçuaí, cujo centro fica a 45 quilômetros das operações e, por isso, não é afetada pelas operações. Os dados relevantes são, portanto, os de Itinga. Se houvesse dano à saúde da população, ele deveria ser detectado primeiro e com mais intensidade em Itinga, e foi o contrário do que aconteceu”, diz a empresa (leia a resposta na íntegra).

Contudo, os diferentes estudos de impacto ambiental do projeto consideram Araçuaí e Itinga sedes do empreendimento e áreas de potencial impacto. Os dois municípios também são beneficiados com recursos da CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais), pagos pela mineradora. 

Além disso, a distância entre a Grota do Cirilo e os centros urbanos das duas cidades é de 21 km em linha reta, conforme se observa por meio do Google Maps. 

Embora o licenciamento do empreendimento tenha sido realizado de forma fatiada, os estudos ambientais reconhecem a possibilidade de dispersão de poluentes atmosféricos pelo vento. 

Por um lado, os estudos contratados pela empresa dizem que os poluentes “não deverão ser arrastados por grandes distâncias” e que as partículas ficariam “dentro dos limites do empreendimento e em áreas não habitadas”. 

Por outro, admite-se que, “sem a devida atenção para os particulados em suspensão, há risco de alteração da qualidade do ar e acúmulo de poeira em áreas habitadas”.

Sigma Lithium opera desde maio de 2023 a maior mina de lítio a céu aberto do Brasil (Foto: Reprodução/MPMG)
Sigma Lithium opera desde maio de 2023 a maior mina de lítio a céu aberto do Brasil (Foto: Reprodução/MPMG)
Sigma Lithium opera desde maio de 2023 a maior mina de lítio a céu aberto do Brasil (Foto: Reprodução/MPMG)

Fundador e ex-CEO da Sigma Lithium, o engenheiro britânico Calvyn Gardner afirma que as nuvens de poeira branca vistas em fotos são características de materiais que contêm sílica e que a distância percorrida depende do tamanho das partículas.

“A poeira de sílica respirável, composta por partículas menores que 10 mícrons, pode permanecer suspensa no ar por horas e percorrer cerca de 25 km com ventos fracos”, diz ele à Repórter Brasil. Acionista minoritário da Sigma, Gardner mantém uma disputa judicial com a mineradora e tem denunciado supostas irregularidades e falhas de segurança na operação.

Uma revisão científica feita por pesquisadores de universidades indianas e britânicas aponta o material particulado como um dos principais poluentes da mineração a céu aberto. 

O estudo destaca que partículas finas podem se deslocar a partir das áreas de mineração, mas ressalta que ainda são necessários estudos para compreender melhor seu destino e transporte (especialmente a influência dos ventos) e os efeitos sobre a saúde de trabalhadores e moradores do entorno.

Além disso, um estudo feito por pesquisadores de universidade norte-americanas e australianas concluiu que, ao contrário da poeira grossa (que se deposita perto da fonte), as partículas finas respiráveis (de nome técnico PM 2,5) têm baixíssima velocidade de sedimentação, permanecem em suspensão por dias e viajam por dezenas a centenas de quilômetros sob a ação do vento.

Poeira levantada durante uma detonação na Grota do Cirilo, mina de lítio da Sigma próxima às casas da comunidade Piauí Poço Dantas, no Vale do Jequitinhonha (Foto: Reprodução/MPMG)
Poeira levantada durante uma detonação na Grota do Cirilo, mina de lítio da Sigma próxima às casas da comunidade Piauí Poço Dantas, no Vale do Jequitinhonha (Foto: Reprodução/MPMG)
Poeira levantada durante uma detonação na Grota do Cirilo, mina de lítio da Sigma próxima às casas da comunidade Piauí Poço Dantas, no Vale do Jequitinhonha (Foto: Reprodução/MPMG)

Partículas respiráveis representam risco à saúde de trabalhadores e moradores

Uma fiscalização realizada neste ano pela Feam (Fundação Estadual do Meio Ambiente), após denúncias de moradores e pedidos do Ministério Público estadual, concluiu que a localização do empreendimento no topo do relevo contribui para a propagação de poeira e ruídos.

“Foi relatada ainda a piora de problemas respiratórios, ou desencadeamento deles, a partir do aumento da poeira emitida pelas atividades do empreendimento, principalmente em crianças”, diz o documento. “Ressaltaram que em meses de vento intenso, como agosto, intensifica muito a dispersão de poeira.”, continua.

O Ministério Público atribui esse cenário ao aumento da concentração de material particulado fino presente na poeira, o qual classifica como “extremamente prejudicial à saúde”. 

Chamado de PM 2,5, esse material pode ter diferentes composições físicas e químicas, mas são as dimensões das partículas que as tornam perigosas. Elas têm um diâmetro de até 2,5 micrômetros — 30 vezes menor que a espessura de um fio de cabelo, são finas o bastante para atravessar as defesas do corpo e chegar aos pulmões.

No curto prazo, segundo o professor sênior de toxicologia respiratória no Imperial College de Londres, Ian Mudway, isso piora os sintomas de doenças pré-existentes como asma e bronquite. No longo prazo, pode levar a doenças crônicas, problemas cardiovasculares, derrames, câncer e demência.  

Crianças são particularmente vulneráveis. Mudway explica que, além de estarem em desenvolvimento, sua respiração é mais rápida que a de um adulto, seus pulmões são menores e elas passam mais tempo ao ar livre — o que resulta numa proporção maior de partículas finas no corpo.  

Isso pode levar os pulmões infantis a ter um desenvolvimento debilitado e chegar à idade adulta menores do que deveriam, com sequelas irreversíveis. “Pelo resto dos seus dias, essas crianças estarão mais suscetíveis a doenças respiratórias e cardiovasculares, derrames, infartos, câncer e à morte prematura”, afirma. 

Segundo análise do Ministério Público com base nos dados de automonitoramento da Sigma, em 2023 a empresa ultrapassou o limite anual legal de concentração de PM 2,5 em todos os pontos monitorados.

A Sigma atribui o aumento registrado em 2023 a “um incêndio florestal sem qualquer relação” com sua operação. Contudo, segundo Mudway, mesmo que existam diferentes fontes de PM 2,5, “se você é uma indústria, é impossível que você não esteja contribuindo para essa poluição do ar”. 

A reportagem solicitou dados do automonitoramento da Sigma referentes aos anos de 2024 e 2025, mas não obteve resposta. Em um comunicado aos investidores, a empresa afirmou que, nos 12 meses até maio de 2026, suas emissões mensais ficaram abaixo dos limites legais. 

A média mensal, contudo, contribui pouco para estimar o impacto em saúde, segundo a consultora da OMS Patricia Ferrini. Ela explica que os valores anuais apoiam estudos epidemiológicos de longa duração, enquanto picos diários são os que podem “levar pessoas para o hospital”. Por isso, é importante ter acesso a esses dois dados para avaliação do cenário. 

Um dos estudos da Sigma para o licenciamento da Grota do Cirilo já havia estimado que “as emissões atmosféricas causarão pontos de concentrações” de PM 2,5 “superiores aos limites diários e anuais estabelecidos pela legislação”. 

Mudway explica que, em indivíduos com algum tipo de doença respiratória, esses picos são sentidos imediatamente, com pioras expressivas nos sintomas. Ferrini acrescenta que, entre crianças com comorbidades, o pico de concentração de partículas respiráveis pode ser suficiente para levar ao óbito.

Já em pessoas saudáveis, Mudway compara a poluição atmosférica ao cigarro. “Ninguém cai morto na rua por fumar um único cigarro, mas cada trago acumula danos no corpo.”

Pilha de rejeitos da Sigma fica em área elevada a poucos metros da Escola Municipal Nuno Murta, na zona rural de Itinga (Foto: Kátia Torres/Repórter Brasil)
Pilha de rejeitos da Sigma fica em área elevada a poucos metros da Escola Municipal Nuno Murta, na zona rural de Itinga (Foto: Kátia Torres/Repórter Brasil)
Pilha de rejeitos da Sigma fica em área elevada a poucos metros da Escola Municipal Nuno Murta, na zona rural de Itinga (Foto: Kátia Torres/Repórter Brasil)

Empresa teve atividades suspensas pela Justiça por ignorar quilombo

A ação do Ministério Público estadual avançou nos últimos meses. Em maio, a Justiça determinou a suspensão das operações ruidosas entre 22h e 6h e impôs multa diária de R$ 500 mil, limitada a R$ 200 milhões. 

Em junho, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais manteve parte das obrigações, mas as comunidades denunciaram que a empresa continuava operando à noite. O MPMG comprovou o descumprimento com imagens de drone e boletim de ocorrência. 

Em julho, a Feam aplicou 16 autuações, suspendeu licenças de operação de duas cavas e cancelou outras três por prestação de informação falsa. As operações chegaram a ser paralisadas, mas foram retomadas em agosto. Em nota, a empresa negou irregularidades e disse que “não prestou informações inverídicas às autoridades ambientais”.

E no início de setembro, a Justiça Federal acolheu pedido da Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais e suspendeu todas as licenças ambientais do Projeto Grota do Cirilo. O motivo é a falta de Consulta Livre, Prévia e Informada à Comunidade Quilombola do Baú, situada a menos de 3 km do empreendimento.  

Procurada, a Sigma encaminhou um comunicado aos investidores onde afirma que “suas atividades de mineração e industriais estão em curso e que a companhia não recebeu qualquer comunicação judicial referente a uma decisão judicial preliminar, proferida sem o devido processo legal, que supostamente suspenderia suas licenças ambientais”.

Com a caixa de remédios no colo, Marta diz que o neto foi instruído por um médico a “nem apontar a cara pro terreiro”, a fim de evitar contato com a poeira. Mas as partículas finas e nocivas entram por todas as frestas. “Como posso prender o menino em casa, se até aqui dentro tem poeira?”, pergunta a avó.

* Nome da entrevistada foi alterado para preservar sua identidade

Sigma Lithium tem empresas europeias e asiáticas entre as principais compradoras do lítio extraído em Minas Gerais; mineral é usado principalmente na fabricação de baterias para veículos elétricos (Foto: Jamie Malcom-Brown/Cultural Survival)
Sigma Lithium tem empresas europeias e asiáticas entre as principais compradoras do lítio extraído em Minas Gerais; mineral é usado principalmente na fabricação de baterias para veículos elétricos (Foto: Jamie Malcom-Brown/Cultural Survival)
Sigma Lithium tem empresas europeias e asiáticas entre as principais compradoras do lítio extraído em Minas Gerais; mineral é usado principalmente na fabricação de baterias para veículos elétricos (Foto: Jamie Malcom-Brown/Cultural Survival)

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