O presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, afirmou que a economia de seu país está "à beira do abismo" como consequência da "irresponsabilidade fiscal" de seu antecessor, Gustavo Petro (2022–2026), e alertou que, atualmente, 44% do orçamento provêm de dívidas.
Apesar da promessa de implementar um forte ajuste fiscal, De la Espriella apresentou ao Congresso um projeto orçamentário que, longe de reduzir os gastos, os aumenta em 60 trilhões de pesos colombianos — cerca de R$ 97 bilhões. Para explicar essa decisão, o mandatário liderou um pronunciamento no qual atribuiu o aumento à necessidade de incluir "despesas que haviam ficado sem financiamento pela administração anterior", particularmente em previdência, saúde e universidades públicas.
"Petro e seu governo tomaram decisões ilegais e deixaram a Colômbia à beira do abismo. Nenhuma crise ou recessão do passado se compara ao desastre econômico que Petro e sua equipe causaram."
Nesse sentido, o presidente apontou que o orçamento do governo anterior "deixava despesas essenciais sem financiamento e não refletia corretamente o verdadeiro peso da dívida que temos hoje". Para ilustrar a situação, ressaltou que, atualmente, "44% dos recursos do orçamento provêm de dívidas".
Os gastos 'inflexíveis'
Diego Cortés Valencia, economista e professor da Universidade Católica da Colômbia, disse à Sputnik que, embora a imagem do "abismo" possa ser exagerada para descrever a situação da economia nacional, "é indiscutível que existe uma tendência de forte crescimento tanto dos gastos públicos quanto da dívida pública".
O primeiro trimestre de 2026 determinou um marco para o país sul-americano, visto que — segundo um relatório da instituição financeira Corficolombiana — o peso dos gastos públicos (15,9%) no Produto Interno Bruto (PIB) superou, pela primeira vez, o investimento (15,7%).
Cortés Valencia explicou que, embora o atual presidente busque consolidar a ideia de que o governo de Petro foi "gastador", as estatísticas mostram "várias décadas de aumento constante dos gastos públicos e da dívida pública", tendência que também não foi revertida por governos mais "ortodoxos", como os de Álvaro Uribe (2002–2010) ou Juan Manuel Santos (2010–2018).
"O que temos na Colômbia é um problema estrutural relacionado ao funcionamento do Estado e à própria Constituição de 1991, que estabeleceu regras do jogo que implicam um maior aumento dos gastos públicos em setores como previdência, folha de pagamento do funcionalismo ou educação e universidades públicas, por exemplo."
Esse modelo fez com que, atualmente, "a maioria dos gastos seja inflexível", impedindo que os sucessivos governos possam introduzir alterações. "O problema, então, é onde encontrar as receitas para sustentar esse gasto permanente e crescente", explicou.
A herança de Petro
Para Cortés Valencia, o fato de o problema se arrastar há décadas não isenta de responsabilidade o governo de Petro, que enfrentou, sim, "alguns problemas profundos em termos fiscais", como destinar grandes montantes orçamentários a instituições "que não teriam capacidade de executá-los em um, dois ou três anos". Assim, o governo Petro registrou alguns "dos percentuais de execução mais baixos dos últimos 20 anos".
Cortés Valencia explicou que esse problema impedia que tais recursos fossem destinados a outros setores, evitando um aumento desnecessário dos gastos públicos. A esse cenário somou-se outro problema: as altas projeções de receitas que, no fim das contas, não se concretizaram.
"Havia uma alta expectativa de arrecadação que não se confirmou. Mês após mês, a arrecadação ficava abaixo do esperado, o que implicava um aumento da dívida."
Um endividamento insustentável
Esse processo levou a Colômbia a atingir, em julho de 2026 — último mês da gestão Petro —, um endividamento bruto equivalente a 60,1% do PIB, segundo dados do Ministério da Fazenda compilados pelo site especializado Valora Analitika.
Cortés Valencia destacou que esse processo vem acompanhado de um aumento do peso que o pagamento do serviço da dívida exerce sobre o orçamento governamental, uma vez que o endividamento com vencimento em 2029 ou 2030 está sendo contraído "a taxas elevadas".
"Na minha opinião, o problema não é necessariamente o nível da dívida ou do déficit, mas sim o fato de que chegará um ponto em que a situação se tornará insustentável."
Relacionado a isso, ele ressaltou a questão de "onde o dinheiro está sendo gasto", uma vez que a necessidade de destinar cada vez mais recursos ao funcionamento da máquina pública impedirá que sejam aplicados na "resolução de problemas sociais e no atendimento às necessidades materiais da população".
Na visão do especialista, sem crescimento econômico, o Estado colombiano corre o risco de ficar preso em um ciclo de "alocar cada vez mais recursos para o pagamento da dívida e menos para o investimento, que deveria ser o motor do crescimento e do desenvolvimento".



