

Certos elementos textuais foram sendo trabalhados de obra para obra em direção a uma escrita mais personalizada e focada nas personagens como entes individuais. A nota não assinada da José Olympio Editora a respeito de As Três Marias, o último, em cronologia, do grupo desses romances iniciais, assim pontua a questão: “Permanece como sua última experiência em livro, de ficcionista, já então voltada para temas individualistas em lugar dos sociais dos livros anteriores”.
É mister ressaltar, contudo, que esta análise não é pautada em hierarquias ou julgamentos que visam exaltar os romances mais recentes dentre os quatro, como se a escrita da autora fosse fundamentalmente empírica (ou cumulativa) e seu estilo estivesse apenas sendo aperfeiçoado até alcançar um grau de aceitabilidade considerável com As Três Marias, quando a escritora interrompeu então sua atividade de ficcionista. Não haverá nestas linhas considerações tais que considerem o(s) último(s) livro(s) o(s) mais perfeito(s) e os anteriores, meras práticas para alcançar a qualidade satisfatória do último. Propõe-se uma análise conjunta, observando cada romance com o devido escopo e atenção.
O primeiro romance de Rachel de Queiroz, O quinze, vem à luz em 1930, com a autora tendo vinte anos incompletos. É o mais profundamente social, o que não significa falta de comprometimento com as personagens e seus caracteres. Significa apenas que, já desde o título, elas estão inseridas em um mundo delimitado, relativamente amplo, de que são figuras quase aleatórias, mundo marcado por um sentido de urgência geográfico e político. “O quinze” é o ano de 1915, em que houve uma seca tristemente memorável no Nordeste brasileiro, e a autora coloca suas criaturas num quadro bastante rígido em que elas se movimentam dentro de estruturas mais ou menos imutáveis.
Não obstante tal configuração, começa a despontar a individualidade que será cada vez mais forte nos romances seguintes: a jovem Conceição, protagonista do relato, ambiciona uma carreira (como professora) e renuncia voluntariamente ao comodismo de classe, fugindo assim da participação muda como simples testemunha de sua época. O romance, porém, demonstra que o mundo que a engloba é resistente a mudanças: o social do mundo da seca esmaga a individualidade de Conceição.
Conceição é uma moça de pouco mais de vinte anos que oscila entre a observação passiva do quadro geral em que se encontra (a seca, as estruturas arcaicas das propriedades sertanejas, o mundo rural) e o despontar de suas próprias consciências. Temos aqui o princípio do que queremos desenvolver: o nascimento da personagem feminina e protagonista forte em Rachel de Queiroz, mas ainda num núcleo restrito para seu despertar. A relação de Conceição com seu primo Vicente e os próprios planos profissionais tímidos que acalenta – reflexo talvez do que ocorria com Rachel de Queiroz nessa estreia ainda não de todo segura – são diminuídos em face de uma impossibilidade de desenvolvê-los a contento.
O que queremos demonstrar é como essa individualidade da personagem feminina protagonista vai sendo ampliada e se destacando do entorno estrutural, ao longo dos quatro primeiros romances da autora. Não se trata de considerações de pretensão sociológica, esclarecendo um mundo geográfico e cultural factual e extraindo daí conclusões, nem de uma análise que queira “dar conta” de todos os fenômenos que definem uma personagem e sua constituição enquanto tal. Intenta-se focar nos quatro textos concretos, como um corpus definido e suficiente (ainda que evidentemente com assistência teórica), para observação de casos propriamente dita. Em outras palavras, ver como Rachel de Queiroz trata nos seus romances da década de 1930 o crescimento da consciência de individualidade ou subjetividade das personagens, feito elas fossem “deixando” de ser tipos (modelos numa estrutura definida) para virar pessoas (com maiores e mais conscientes expressões de ação e comunicação).
O romance seguinte, João Miguel, de 1932, é mais individualista já desde o título, com o nome do protagonista. No entanto, a breve cena carcerária retratada – um homem preso por ter cometido um assassinato enquanto embriagado, sua estada na prisão e sua absolvição – também não permite que a individualidade da personagem seja plenamente exercida. O microcosmo da prisão não só apresenta um ambiente repetitivo e quase inumano como o romance deixa claro que João Miguel e os outros presos são menos pessoas que tipos, tipos que sempre serão recorrentes e que representam classes, comportamentos e histórias ciclicamente reproduzidas. A individualidade do transtorno psicológico interno de João Miguel, sem embargo, é mais uma mostra de como a individualidade das personagens de Rachel de Queiroz aumenta paulatinamente no decorrer de seus romances dos anos 30.
Nesse romance, todavia, queremos dar atenção a Santa, mulher do personagem-título, pois, como dito, a intenção é comentar a personagem feminina em Rachel de Queiroz. E Santa vem a propósito: possuindo mais traços de individualidade que a “idealizada” Conceição, tem talvez mais matizes e nuanças que a moça de O quinze. Tem desejos, sente vontades, eventualmente cede a impulsos, trai. Santa poderia ser apenas um tipo apagado, o da “mulher do presidiário”, sem qualquer individuação ou idiossincrasia, mas, como dissemos, as personagens da autora vão caminhando na direção da autoconsciência de seu sentido não (apenas) enquanto personagens, mas (igualmente) como pessoas. Santa tem voz, tem credos, tem pensamentos que já são um amadurecimento da timidez com que Conceição foi anteriormente definida no primeiro romance.
Ressaltando o que expusemos anteriormente, não é mérito deste livro ou demérito daquele; são mulheres diferentes e é esse o sentido a reforçar: a individualidade de cada uma, com suas especificidades e decorrências. Santa não é o ápice desse individualismo que queremos dissecar, aliás – por vezes seu comportamento é tão entranhado na vida social daquela comunidade que ela certamente se mistura ao background e deixa de ser exclusivamente individual –, mas é uma etapa nítida em seu aperfeiçoamento.
Em 1937 é publicado Caminho de pedras, em que se dá mais uma guinada do social ao individual, marcada quase explicitamente pelo adensamento do retrato das vidas de militantes políticos. A política, ou a reunião de militantes em grêmios e associações, iguala a todos numa assepsia coletiva; isso não impede que o destaque a um punhado de personagens, sobretudo Roberto e Noemi, deixe clara a resolução da escritora em acompanhar mais detidamente a vida das pessoas determinadas, específicas que a vida de uma coletividade que ora se questiona. É uma mudança enorme considerando o primeiro livro, mas uma alteração tênue se vista em perspectiva com o segundo.
Focando nossa atenção evidentemente em Noemi, notemos nessa personagem o aprofundamento de seu papel como pessoa, ou mulher: Noemi é mãe, é esposa, é companheira, é ativista, é cúmplice de vida, sonhos e “subversões” políticas. Essas camadas extras conferem a ela um individualismo maior em comparação a suas duas antecessoras, quais sejam, Conceição e Santa. A mulher ganha níveis e esses níveis são discutidos e detalhados, colocados em evidência, desenvolvidos sem ocultamento, desvelados.
As Três Marias, de 1939, é sem dúvida o romance mais individualista dessa primeira fase literária de Rachel de Queiroz. As razões são muitas. As três personagens principais aparecem já no título, e é o único dos quatro romances narrado em primeira pessoa, pela personagem Maria Augusta (Guta). Destaca a condição feminina – diferentemente de O quinze, em que o espírito independente de Conceição quase fica confinado em uma estrutura social sufocante –, com as personagens se movimentando com mais liberdade e audácia.
Diferentemente dos três romances precedentes, as experiências vivenciadas pelas personagens aqui são essencialmente pessoais, sem laços de coletividade, e num ambiente urbano que tematiza a solidão (uma possível consequência desse individualismo agora explicitado). Dá-se um destaque muito mais amplo a cogitações íntimas e a desencaixes com a sociedade, em vários níveis.
Sendo Guta a maior presença do livro, é nela que focaremos nossa análise. Parece quase óbvia a individualidade de uma tal personagem, que além do mais é a voz que descreve tudo que acompanhamos no relato. Contudo já ficou claro que esse processo veio gradualmente nos quatro romances selecionados da autora, e aqui temos seu ápice temático. Guta tem em si todos os passos verificados nas personagens anteriores: a esperança hesitante de Conceição, o pragmatismo desiludido de Santa e o idealismo frustrado de Noemi. Cada uma delas foi adquirindo contornos que as diferenciam entre si e que as tornam personagens mais multifacetadas e complexas.
Rachel de Queiroz relaciona-se com outros autores que se debruçaram, com olhares e conclusões variadas, sobre o sertão em mudança ou colapso. Sobretudo com dois prosadores nordestinos, contemporâneos dela, que igualmente observaram as etapas da desnaturação desse mundo, seus ambientes e personagens: Graciliano Ramos e José Lins do Rego.
Graciliano Ramos passou por um caminho algo parecido ao de Rachel de Queiroz, mas com curiosa configuração cronológica: se Vidas secas, de 1938, é algo associado a O quinze, pelo menos tematicamente, com personagens sofredoras no cenário da seca e o fantasma social dos retirantes, Angústia, que veio dois anos antes, é o equivalente a As Três Marias, com a absoluta marca da personagem “centrada em si”, quase numa subjetividade delirante, que é Luís da Silva. Assim como em Rachel de Queiroz, a transição não é abrupta, não é incoerente. Todavia é igualmente marcante a diferença de tom que dá voz maior ou menor à individualidade das personagens, no sistema social e na estrutura literária. Observemos este trecho de Vidas secas:
“Olhou a catinga amarela, que o poente avermelhava. Se a seca chegasse, não ficaria planta verde. Arrepiou-se. Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo – anos bons misturados com anos ruins. A desgraça estava em caminho, talvez andasse perto. Nem valia a pena trabalhar. Ele marchando para casa, trepando a ladeira, espalhando seixos com as alpercatas – ela se avizinhando a galope, com vontade de matá-lo”.
Compare-se ao trecho selecionado de Angústia:
“Necessitava levantar-me, afastar-me depressa, entrar em casa, dormir. Àquela hora o marido de Dona Rosália resfolegava, arranhava com a barba o couro amarelo de Dona Rosália. O marido de Dona Rosália resfolegava como um bicho. E Julião Tavares parado. Minutos antes andava na maciota, o cigarro aceso, o pensamento na cama da mocinha sardenta. Agora ali junto da cerca, estirado. Inconveniente ficar ao lado dele. Inconveniente. As carapanãs zumbiam, voavam perto da minha cara, picavam-me as orelhas e as mãos escalavradas. Inconveniente”.
Em Vidas secas, as considerações de Fabiano são mais passivas e adequadas ao cenário que habita, numa conformidade de procedimento e filosofia que radicalmente se altera no transtorno sentido por Luís da Silva no segundo excerto. Notemos como em ambos há a natureza das pessoas, dos animais, das plantas que existem naqueles ambientes. Contudo, as percepções das personagens são muito diferentes: o fatalismo de Fabiano é um pouco a imersão de alguém num sentido maior que ele, respeitado e acatado; Luís da Silva, de seu lado, irrita-se com a ação da natureza que animaliza os homens e que faz os animais, por sua vez, serem inúteis, reles pragas.
Já José Lins do Rego, em sua obra mais célebre, Fogo morto, desenvolve não apenas um fechamento de seu ciclo nordestino da cana e do açúcar, constantes em obras anteriores do autor, como maneja personagens que também estão em conflito com um individualismo num contexto de decrepitude social. As profissões e atividades habituais estão por desaparecer: usineiro, escravagista (e, naturalmente, escravo), feitor, seleiro, boleeiro. Há uma discrepância enorme entre a subjetividade não expressada e a necessidade social de seguir o cotidiano e garantir o sustento, ainda que o fim último do desencaixe entre o que se vive e o que se é possa ser uma fatalidade: o mestre José Amaro, o coronel Lula de Holanda e o capitão Vitorino Carneiro da Cunha, personagens centrais do romance, não conseguem concretizar suas ambições íntimas num tempo que já não os acolhe e estão fadados à derrota moral. Daí ser um romance de decadência de costumes, um necrológio dos engenhos e de todo um sistema socioeconômico. Também permeia a obra um tom memorialista, que associaremos principalmente à Conceição de O quinze, ou à figura de Rachel de Queiroz enquanto autora desse romance, pois ela e José Lins do Rego escreveram sobre o que vivenciaram da realidade sertaneja, um universo que vai se apagando factualmente e virando lenda – ou lembrança, como esta da personagem Adriana, esposa do capitão Vitorino:
“(…) Deixou que o gado descesse e seguiu a sua viagem. A gaita do negro lhe trazia coisas do seu tempo passado, dos dias de menina do sertão. Quando o velho Lucindo falou dos sertanejos que desciam como formigas era como se falasse da sua gente que chegara morrendo de fome no Santa Fé, na seca terrível que matara tudo, que fizera de seu povo uma porção de pedintes. A gaita triste de Cabrinha era todo o seu sertão e que nunca mais revira, que nunca mais poderia rever”.
Fogo morto é de 1943, portanto posterior ao corpus que ora comentamos; mas nem José Lins do Rego nem Rachel de Queiroz retiraram do acaso a tradição que seguem: ambos se inserem num contexto da literatura brasileira, pagam seu tributos, cobram seus méritos. Nem os primeiros romances de Rachel de Queiroz nem os romances nordestinos de José Lins do Rego poderiam existir descolados de sua moldura espaço-geográfica. No entanto, as forças das personagens desses escritores são maiores que a que as confina em limites mensuráveis lógica e espacialmente.
A intertextualidade entre os autores não é acidental, portanto, e sim parte de uma estrutura indissociável do estudo da literatura dita regionalista brasileira nas décadas de 1930 e 1940. Seja nos romances proletários de Jorge Amado na Bahia ou nas sagas de famílias de Erico Verissimo no Rio Grande do Sul, o lado social da ficção é uma realidade a ser ponderada. O fato de se tratar de assuntos “localizáveis” num plano mais concreto do discurso, ou seja, falar de temas compreensíveis na história recente do Brasil de então, como a seca, o cangaço, a imigração ou a urbanização incipiente, apresenta para a arte literária problemas de relevância incontornável. Otto Maria Carpeaux explica com muita propriedade que “os meros fatos não existem, e sim apenas os problemas. Os fatos não se percebem; só pelo lado problemático se tornam visíveis”.
É então nesse sentido que se propõe a análise de como as personagens femininas dos quatro primeiros romances de Rachel de Queiroz vão deixando de serem fatos (sociais, geográficos, localizados sociologicamente) e vão passando a problemas (subjetivizadas, individuais, particularizadas). Não é tarefa fácil, tampouco inédita: com a extraordinária profusão de novas vozes nas letras brasileiras nas décadas especificadas, a questão foi percebida por muitos estudiosos. Note-se, por exemplo, o que diz Sérgio Milliet, falando do “romance social” enquanto discute Fogo morto: “A definição sociológica traria como resultado englobar gêneros bem diversos numa mesma categoria. Seria o romance dos homens na sociedade, em oposição ao romance subjetivo, à autobiografia interior, ao ensaio disfarçado”.
A polarização e a excessiva vontade de classificar e nomear fenômenos possivelmente talvez atrapalhem em certa medida a discussão, como o próprio Milliet reconhece (as formas se interrelacionam); habilitamo-nos, entretanto, a entender como caminhamos de O quinze a As Três Marias, e como suas figuras femininas vão se fortalecendo em sua constituição de personagem-mulher – simultaneamente dentro da tradição da ficção regionalista nordestina e da particular obra ficcional de Rachel de Queiroz.
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