Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

By Dyepeson Martins17/09/2026 às 07:0051 views
Mesmo licenciado do cargo de Policial Civil, o deputado federal Delegado Palumbo (de marrom) participa de operações e posta no YouTube – este vídeo foi retirado após contato da reportagem
Mesmo licenciado do cargo de Policial Civil, o deputado federal Delegado Palumbo (de marrom) participa de operações e posta no YouTube – este vídeo foi retirado após contato da reportagem
Agencia Publica

Noite na Marginal Pinheiros, uma das principais artérias de São Paulo: dois jovens negros são abordados por três policiais militares numa viatura. Motivo? Eles caminhavam de forma suspeita, segundo a equipe. A abordagem é seguida por revista, interrogatório e xingamentos por parte dos PMs. “Tu é todo ladrãozão, né”, comentou um dos policiais.

Nada ilegal ou suspeito foi identificado na dupla. Mesmo assim, a ação foi exaltada em um vídeo publicado no YouTube pelo Diretor Elias Junior, candidato a deputado estadual pelo MDB. “O tamanho do viaduto ficou pequeno quando viram a ROTA”, diz o título da publicação. Um formato sensacionalista que se repete entre outros youtubers que disputam as eleições de 2026 e integram a lista dos que mais monetizaram explorando operações policiais. Alguns dos vídeos contêm deboche, humilhação e truculência, expondo, além dos próprios policiais, moradores e suspeitos, sobretudo em regiões periféricas de grandes cidades.

Apuração exclusiva da Agência Pública, em parceria com a plataforma Zeeng, mostra que um candidato com muitos seguidores pode ganhar até R$ 8 mil por mês no YouTube com vídeos sobre operações e abordagens das polícias. O levantamento considerou os 15 candidatos influencers com maior monetização sobre ocorrências policiais em 2026: eles podem ter ganhado até R$ 64,6 mil na soma dos vídeos (entre shorts e vídeos longos) postados no YouTube de 1º de janeiro a 25 de agosto deste ano.

Os valores podem ser ainda maiores, pois o levantamento considera o pagamento estimado por views do YouTube, o que não leva em conta outras redes sociais e possíveis patrocínios negociados diretamente pelos candidatos, a exemplo de divulgação de cursos e produtos.

Ao todo, sete partidos de direita e centro-direita compõem o levantamento: Podemos, MDB, PP, PL, Avante, União Brasil e Republicanos. Os nomes analisados possuem vínculo direto com a Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal e Guarda Civil Metropolitana de São Paulo. A exceção é Elias Junior, que é diretor cinematográfico, mas acompanha operações e explora a estética policial.

Dos 15 youtubers listados pela reportagem, 14 utilizam ocorrências policiais para divulgar a própria imagem, a maioria em condutas que não são condizentes com as normas das Polícias Civil e Militar de São Paulo sobre uso das redes sociais. Além disso, parlamentares licenciados dos cargos não têm prerrogativa para se apresentarem como autoridades policiais – e nem usarem distintivo ou equipamentos da corporação, conforme confirmado pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.

Por que isso importa?

  • As Polícias costumam ter normas de como seus agentes devem usar as redes sociais – muitas delas vedam o uso de palavras depreciativas ou de fardas e dispositivos.
  • Cerca de 6% de todos os candidatos destas eleições são ligados a forças de segurança.
  • Partidos de direita e extrema direita têm defendido medidas inconstitucionais de endurecimento da punição a crimes.

O líder na estimativa de arrecadação é o deputado federal e candidato à reeleição, delegado Palumbo (PODE-SP), que pode ter faturado cerca de R$ 64,6 mil desde o início do ano, acumulando mais de 26 milhões de visualizações no período analisado. Mesmo licenciado do cargo de Policial Civil, Palumbo aparece nos vídeos participando de operações, sobretudo relacionadas ao tráfico de drogas.

Na maioria das ocorrências, ele caminha ao lado dos agentes, auxilia e até mesmo protagoniza interrogatórios. Os títulos utilizados nos conteúdos são majoritariamente chamativos e com palavras fortes. “São duas opções, c4deia ou caixão – dessa vez ele foi parar na c4deia”, descreve uma publicação de 20 de julho de 2026, que começa com policiais imobilizando de forma agressiva um homem na rua. “Não estamos te esculachando não, você está sendo tratado como tem que ser tratado”, diz um dos agentes. Depois de ter sido procurado pela reportagem, Palumbo retirou o vídeo do ar, mas não respondeu aos questionamentos.

Delegado licenciado usa distintivo e participa de operações

O canal com maior número de inscritos pertence ao deputado federal delegado Da Cunha (União-SP), com 3,53 milhões de inscritos, embora tenha ficado em 10º lugar no ranking de visualizações. Ele publicou 237 vídeos num período de quase oito meses, podendo ter monetizado cerca de R$ 3,4 mil desde janeiro.

Da Cunha está licenciado do cargo de delegado da Polícia Civil, mas participa de operações policiais e se apresenta nas ocorrências como “deputado e delegado”. Em um dos vídeos, postado em 8 de julho deste ano, ele interrogou um homem linchado por populares após uma tentativa frustrada de assalto a uma loja de produtos importados, em Osasco (SP).

Da Cunha aparece no vídeo atendendo a ocorrência junto à Guarda Municipal de Osasco. Usando distintivo de delegado, o deputado também foi até o hospital onde o suspeito ficou internado após o espancamento. Com o homem com a cabeça enfaixada e deitado numa maca, o parlamentar é filmado dando sermão e ainda faz propaganda de um projeto de lei de autoria dele e dos deputados Kim Kataguiri (Missão-SP) e Marcos Pollon (PL-MS): “Sabia que aumentou a pena do 157 [crime de roubo]? Sabia que a lei é minha? Agora é dez anos a pena mínima. Vai ficar uma cotinha na cadeia, meu tio. Agradecer à polícia que salvou sua vida né, se não ‘tava’ com o CPF cancelado já”.

Por lei, é considerada contravenção um policial civil usar publicamente distintivo de função que não exerce. Além disso, uma portaria editada em 2020 regulou, em São Paulo, o uso de redes por policiais civis. A norma proíbe, entre outros pontos, a publicação de fotos e vídeos com vítimas, suspeitos ou investigados; veda comportamento que busque “reconhecimento social” ou “promoção pessoal” e exige “decoro e discrição na linguagem”.

A Polícia Militar de São Paulo tem norma parecida desde 2021, que proíbe publicar ou compartilhar qualquer conteúdo que se relacione, direta ou indiretamente, com a PM, bem como divulgar operações ou investigações.

Ainda que o servidor esteja licenciado, um órgão de segurança pública pode adotar medidas administrativas pelo descumprimento de normas institucionais, explicou o professor de direito eleitoral da Faculdade de Direito de Sorocaba, Pedro Marques Neto. “Tem regras que evitam o uso de fardas, por exemplo, mas muitas vezes elas não são aplicadas”.

No Brasil, quase 30% dos órgãos de polícia não têm norma específica para o uso de redes sociais por parte dos agentes, conforme levantamento do Instituto Sou da Paz. Para a entidade, é preciso garantir a liberdade de expressão, “mas também vedar o uso da autoridade policial para autopromoção e engajamento político”.

O problema é que as normativas em geral não estabelecem o setor responsável e as formas de fiscalização dos agentes no ambiente virtual, frisou a diretora-executiva do instituto, Carolina Ricardo. “Falta em algumas normativas ter um fluxo claro de quem é o dono disso dentro das instituições, da função de fiscalizar. E isso torna muito mais difusa a implementação [das normas]”, comentou.

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo informou que o parlamentar licenciado por conta do mandato não tem a prerrogativa para usar distintivo e nem se apresentar como autoridade policial. “Não há, portanto, autorização para ações como as descritas pela reportagem”, disse, em nota, quando questionada sobre parlamentares licenciados e também sobre o caso do Elias Junior, que não é policial.

Sobre o uso de redes sociais, a Secretaria reforçou que portarias das Polícias Civil e Militar proíbem a criação de perfil vinculado ao trabalho policial, bem como a publicação de fotos e vídeos com vítimas, e que não compactua com desvios de conduta. “Casos identificados são apurados pelas corregedorias das corporações, mediante procedimento próprio, podendo resultar em medidas administrativas, disciplinares, civis e criminais”, diz a nota. A SSP, no entanto, não confirmou se os casos enviados pela reportagem serão apurados.

A Pública procurou também todos os 15 candidatos do levantamento. A Capitã Rebeca, em 12º lugar no ranking, respondeu que não monetiza com os vídeos. Porém, não comentou sobre os objetivos do canal e nem como se posiciona sobre as críticas de espetacularização da violência.

O Coronel Telhada, 14º no ranking, disse que nenhuma das suas redes sociais ganha dinheiro com monetização. “O YouTube com frequência manda mensagem para monetizarmos, mas nunca concordamos e nem aceitamos, nunca fizemos inscrição no programa de monetização de nenhuma rede social e nem faremos”, afirmou em nota.

O deputado federal Sargento Fahur e candidato à reeleição, disse que a gestão do seu canal é feita por uma empresa. “Os valores obtidos com monetização não são suficientes sequer para custear integralmente a operação”, afirmou, pois há custos com funcionários, edição de vídeos, aluguel de espaço e compra de equipamentos. “Não se trata de autopromoção, mas de divulgar aquilo que penso”, conclui nota enviada pelo policial militar reformado que está na 6ª posição no ranking (leia na íntegra).

Este espaço será atualizado em caso de manifestação dos demais.

Distintivo confiscado – e devolvido

Em julho de 2021, Da Cunha chegou a ter o distintivo e a arma confiscados após a abertura de uma sindicância contra ele por ter simulado operações policiais. Os objetos foram devolvidos em 2023, numa decisão do delegado-geral da Polícia Civil de SP, Artur José Dian. À época, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informou que a competência sobre o processo era exclusiva da Polícia Civil e que não iria se manifestar sobre o tema.

Os processos administrativos foram abertos após o deputado virar réu na Justiça por abuso de autoridade e constrangimento ilegal. Em julho de 2020, ele teria constrangido uma vítima de sequestro e o próprio sequestrador a simularem um resgate para que a cena pudesse ser gravada e repercutida nas redes sociais. Ele também é alvo da Justiça, após denúncia do Ministério Público, por violência doméstica contra a ex-companheira, em outubro de 2023. Ela acusou o parlamentar de ameaça de morte, lesão corporal, dano material e de bater sua cabeça contra a parede, além de tentar sufocá-la em um apartamento em Santos.

Em 3 de setembro deste ano, o processo por abuso de autoridade teve mais uma reviravolta: o anúncio da demissão de Da Cunha do cargo de delegado por parte do Governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), atendendo a uma recomendação feita pela Polícia Civil em 2022. No mesmo dia em que a demissão foi anunciada, no entanto, a Justiça de São Paulo concedeu uma liminar, a pedido do deputado, impedindo que a decisão fosse formalizada.

Monetizando a estética policial

Com 1,3 milhão de inscritos, o canal do Diretor Elias Junior teria arrecadado, em média, mais de R$ 40,8 mil na monetização dos vídeos só este ano. Na página inicial do perfil no YouTube, ele aparece com um colete à prova de balas marrom e uma roupa camuflada, nas características da farda do Exército brasileiro. Em alguns dos vídeos, ele usa boina e uniforme semelhantes aos usados pela PM de São Paulo.

Elias Junior vai às ocorrências dentro das viaturas, usa o discurso punitivista e expõe as abordagens policiais, ainda que nenhum crime tenha sido identificado. Entre outros formatos, os títulos sensacionalistas criticam o sistema legal brasileiro. Um deles foi intitulado “Mulher bandida teve o benefício da mãe cárcere”. No vídeo, publicado em 16 de junho de 2026, ele conversa com uma mulher que cumpria pena por tráfico de drogas em casa por conta de um benefício legal concedido a mães de crianças com menos de 12 anos.

Em outra publicação, em 23 de junho de 2026, o candidato acompanha o patrulhamento realizado por dois tenentes da Polícia Militar que decidem abordar dois homens que estariam andando com um “jeito malandro”, na Zona Leste de São Paulo. Os homens eram dependentes químicos e foram interrogados pelos militares sobre o consumo de drogas e crimes que teriam cometido; posteriormente, foram liberados. Mas o vídeo foi postado.

O diretor Elias Junior não respondeu aos questionamentos da Pública. A Polícia Militar não comentou o caso.

O tribunal midiático e o ‘policial herói’

Jurisprudências do Tribunal Superior do Trabalho (TST) reconhecem o vínculo de integrantes da segurança pública com a iniciativa privada, desde que compatíveis com os horários e não conflitantes com a função exercida. O famoso “bico” de segurança particular, por exemplo, é proibido.

Em relação à figura do “policial youtuber”, há regras institucionais que deveriam limitar a atuação dos servidores na internet. Em São Paulo, por exemplo, é vedado o uso de qualquer elemento que se remeta à corporação em perfis pessoais, com exceção de solenidades, formaturas e eventos excepcionais. O que acontece na prática, no entanto, é a teatralização da atividade do agente de segurança, com discursos violentos que tendem a construir a imagem de “policial herói”, assim como na maioria dos programas policiais — explicou o pesquisador Dannilo Duarte, autor do livro Jornalismo Policial na Televisão Brasileira: Gênero e Modo de Endereçamento.

O autor destaca que a internet amplificou a exploração audiovisual das operações, principalmente em ações envolvendo populações mais vulneráveis. “Há um posicionamento de quem é a vítima e de quem vai ser o bandido. Recorrentemente esse bandido vai ser preto ou pardo, vai estar em regiões periféricas. Se constrói uma ideia de que está sempre vinculado ao tráfico e que são pessoas com o estereótipo do malandro, do espertalhão, que não cumpre as leis”.

Além disso, esse tipo de abordagem, conforme o autor, alimenta a ideia de “justiceiro” que, em meio a estímulos à violência e descredibilização do sistema judiciário, faz “justiça com as próprias mãos”, a exemplo do assassinato de Claudio Rafael Landeiro, em 12 de agosto, em Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro. A vítima tinha 37 anos e foi espancada até a morte por cinco homens após ser acusada injustamente de roubar uma bicicleta.

“É um comportamento de certa forma estimulado, o ‘bandido bom é bandido morto’. Mas você não verá isso acontecer num condomínio de classe média, mesmo que o infrator tenha cometido uma infração grave. Jovens brancos de classe média, média alta, não são espancados na praia ou nos becos. A integridade física não é respeitada. Há um lixamento virtual e físico”, pontuou Duarte.

Dos 15 perfis analisados, há uma exceção para a estética policial. Trata-se do policial rodoviário federal, Breno Faria, candidato a deputado federal pelo PL no Rio de Janeiro. Dono do canal Café com teu Pai, perfil também popularizado no Instagram, ele aproveita o espaço na internet para a defesa de ideias misóginas e ataques a leis de combate à violência contra a mulher. Em um dos vídeos, afirma: “as leis feministas não protegeram a mulher em nada” e defende o “aconselhamento familiar” como mais eficiente do que a atual legislação.

Numa outra publicação, Breno Faria faz comentários pejorativos sobre as roupas da deputada Erika Hilton (PSOL-SP). “Mulher trans negra ou patricinha de Beverly Hills?”, publicou em 15 de junho. Estima-se que Faria tenha monetizado em torno de R$ 3,8 mil só no YouTube desde janeiro, somando mais de 1,9 milhão de visualizações em 401 vídeos.

METODOLOGIA

A Agência Pública começou o levantamento considerando os 100 youtubers e perfis no YouTube que têm maior número de inscritos na plataforma. Em seguida, cruzamos com os que são candidatos neste ano, usando a base de dados do Tribunal Superior Eleitoral.

Para estimar os valores monetizados pelos candidatos, foi considerada a soma de visualizações dos vídeos publicados em cada um dos 15 canais do YouTube entre 1.º de janeiro e 25 de agosto deste ano, separadas entre shorts e vídeos longos. Com isso, foi aplicado um modelo de receita bruta de anúncios que combina um parâmetro oficial do YouTube – a partir da divisão de 55% da receita publicitária com o criador e as estimativas de CPM (custo por mil impressões) e de RPM (receita por mil visualizações).

Eduardo Prange, pesquisador e CEO da Zeeng, afirma que os valores calculados são uma estimativa “moderada”, já que foi feito também um cenário otimista e conservador para as possíveis arrecadações. Prange destaca que a única forma de ter dados precisos de monetização seria com acesso ao YouTube Analytics de cada canal – que só o titular possui.

Os valores publicados não consideram outras redes sociais e também possíveis patrocínios negociados diretamente com o titular do canal, como divulgação de cursos ou de produtos.

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