Machado de Assis, precursor da literatura negra moderna 

به قلم C.S. Soares22/09/2026 às 12:5247 بازدید
Participantes do Primeiro Congresso Internacional de Escritores e Artistas Negros, em setembro de1956, na Sorbonne
Participantes do Primeiro Congresso Internacional de Escritores e Artistas Negros, em setembro de1956, na Sorbonne
Brasil de Fato

Há descobertas literárias que não dependem de encontrar um manuscrito perdido, uma carta desconhecida ou um romance esquecido. Às vezes, basta abrir um livro antigo e descobrir que um escritor estava sendo lido, em outro país e dentro de outra tradição intelectual, de uma maneira que sua própria cultura demoraria décadas para discutir.  

Foi o que aconteceu com Machado de Assis. 

Em 1963, o escritor e historiador martinicano Léonard Sainville publicou, pela Présence Africaine, em Paris, a Anthologie de la littérature négro-africaine: Romanciers et conteurs. Seu projeto procurava pensar conjuntamente escritores negros da África, do Caribe e das Américas. É dentro dessa história transnacional que Machado surge numa posição excepcional: como precursor de uma literatura negra moderna e autônoma. 

A evidência mais clara aparece quando Sainville trata de René Maran, autor de Batouala e primeiro escritor negro a receber o Prix Goncourt, em 1921. Maran, escreve ele, teria se afastado do pastiche, “assim como Machado de Assis, cerca de trinta anos antes”, demonstrando a possibilidade de uma literatura negra autêntica. 

A comparação, registrada na página 419, muda a cronologia. Se Maran pertence ao momento de afirmação da literatura negra francófona no século 20, Machado aparece como alguém que havia realizado anteriormente a passagem fundamental da imitação para a autonomia. Não é apenas incluído numa tradição negra. É colocado antes dela. 

Anthologie de la littérature négro-africaine: Romanciers et conteurs, 1963. 
Anthologie de la littérature négro-africaine: Romanciers et conteurs, 1963. 
Anthologie de la littérature négro-africaine: Romanciers et conteurs, 1963. 

Outro trecho torna essa posição ainda mais explícita. No início da antologia, Sainville descreve o nascimento de uma literatura africana, negro-americana, antilhana e malgaxe que passa a rejeitar a “pálida imitação” da cultura europeia. Essa nova produção, que ele denomina “romance negro-africano”, teria como parentesco fundamental uma tomada de consciência étnica formada num mundo marcado pela opressão, pelo racismo e pela discriminação. 

Ao olhar para o período anterior, porém, Sainville encontra uma exceção. 

“Les exceptions confirment la règle. Il n’y a eu qu’un Machado de Assis”. 

“As exceções confirmam a regra. Houve apenas um Machado de Assis”. 

O contexto é decisivo. Sainville está afirmando que essa literatura negra autônoma só se consolidaria coletivamente no século 20. Machado, entretanto, já teria alcançado no século 19 aquilo que outros escritores negros conquistariam décadas depois. Sua excepcionalidade é, portanto, também cronológica: Machado aparece como precursor. 

Essa leitura produz uma inversão particularmente interessante. 

A familiaridade de Machado com Shakespeare, Sterne, Swift, Pascal, Montaigne e a tradição europeia foi muitas vezes utilizada para explicar seu cosmopolitismo. Sainville olha para essa mesma formação e encontra o contrário de submissão cultural. Para ele, o fato decisivo é que Machado deixou para trás o “pastiche”: recebeu modelos europeus, mas não permaneceu prisioneiro deles. Sua condição de precursor nasce justamente dessa transformação. Não por escrever fora da tradição europeia, mas por conseguir atravessá-la e produzir uma voz que já não podia ser reduzida a ela. 

Isso ganha ainda mais significado pelo lugar de onde partia a leitura. A Présence Africaine era um dos centros da intelectualidade negra internacional e havia organizado, em setembro de 1956, o Primeiro Congresso Internacional de Escritores e Artistas Negros, na Sorbonne, reunindo figuras como Aimé Césaire, Frantz Fanon, Léopold Sédar Senghor, Richard Wright, Cheikh Anta Diop e Édouard Glissant. 

Sainville tampouco era um observador periférico desse universo. Nascido na Martinica em 1910, esteve ligado ao ambiente parisiense dos anos 1930 do qual emergiu a Négritude e ao círculo intelectual de L’Étudiant noir, associado a Aimé Césaire, Léopold Sédar Senghor e Léon-Gontran Damas. Posteriormente, tornou-se um dos intelectuais próximos à Présence Africaine e construiu uma obra de romancista e historiador dedicada também à experiência negra nas Antilhas francesas. 

Por isso, sua leitura de Machado possui um significado particular. 

Não há evidência de que Machado tenha influenciado diretamente a Négritude ou sido discutido naquele congresso. A afirmação documental é mais precisa, e talvez mais surpreendente. Quando, em 1963, um intelectual ligado a essa tradição procurou organizar historicamente a literatura negra, Machado já estava lá. Antes de René Maran. Antes da Négritude. Antes da Présence Africaine. Não como fundador de um movimento, mas como precursor estético de uma literatura negra moderna, alguém que teria realizado isoladamente, no Brasil do século 19, uma conquista que Sainville via tornar-se coletiva apenas no século 20. 

Por isso, a verdadeira força de sua frase: “Houve apenas um Machado de Assis”. Lida sozinha, parece admiração. Lida dentro do argumento de Sainville, é quase uma coordenada histórica. Quando uma das grandes redes intelectuais negras do século 20 procurou saber de onde vinha sua literatura, encontrou Machado de Assis esperando por ela no século 19. 

*C.S. Soares é escritor e biógrafo, autor de Machado: O Filho do Inverno (Ação Editora, 2025), obra que revela o Machado de Assis negro que o país tentou esquecer. Acompanhe seu trabalho em cssoares.online e nas redes sociais: @cssoaresonline.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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