‘Arqueólogos’ astronômicos descobrem estrelas na Via Láctea vindas de outra galáxia há 12 bilhões de anos

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Yazar Sven Buder, Astrophysicist, Australian National University20/08/2026 às 21:161 görüntüleme
Ilustração mostra uma etapa da fusão prevista entre nossa galáxia, a Via Láctea, e a vizinha galáxia de Andrômeda, conforme ela se desenrolará ao longo dos próximos bilhões de anos.
          NASA; ESA; Z. Levay and R. van der Marel, STScI; T. Hallas; and A. Mellinger
Ilustração mostra uma etapa da fusão prevista entre nossa galáxia, a Via Láctea, e a vizinha galáxia de Andrômeda, conforme ela se desenrolará ao longo dos próximos bilhões de anos. NASA; ESA; Z. Levay and R. van der Marel, STScI; T. Hallas; and A. Mellinger
Foto: CC BY-ND / The Conversation Brasil
Ilustração mostra uma etapa da fusão prevista entre nossa galáxia, a Via Láctea, e a vizinha galáxia de Andrômeda, conforme ela se desenrolará ao longo dos próximos bilhões de anos. NASA; ESA; Z. Levay and R. van der Marel, STScI; T. Hallas; and A. Mellinger
Ilustração mostra uma etapa da fusão prevista entre nossa galáxia, a Via Láctea, e a vizinha galáxia de Andrômeda, conforme ela se desenrolará ao longo dos próximos bilhões de anos. NASA; ESA; Z. Levay and R. van der Marel, STScI; T. Hallas; and A. Mellinger
Ilustração mostra uma etapa da fusão prevista entre nossa galáxia, a Via Láctea, e a vizinha galáxia de Andrômeda, conforme ela se desenrolará ao longo dos próximos bilhões de anos. NASA; ESA; Z. Levay and R. van der Marel, STScI; T. Hallas; and A. Mellinger

Olhe para o céu em uma noite escura e a Via Láctea se apresenta como uma faixa serena de estrelas atravessando o céu. Mas nossa galáxia tem um passado violento.

Por mais de 13 bilhões de anos, ela cresceu por meio da formação de estrelas e de fusões com outras galáxias. Já sabemos que várias galáxias de grande porte ajudaram a construir a jovem Via Láctea.

Agora, um novo estudo publicado na revista científica Nature Astronomy traz um dos primeiros desses violentos eventos para um foco muito mais nítido. Liderada pelo astrônomo Davide Massari, do Observatório de Astrofísica e Ciências Espaciais de Bolonha, na Itália, uma equipe de cientistas usou datações excepcionalmente precisas da idade de aglomerados estelares muito densos para determinar com maior precisão quando essa antiga fusão ocorreu, qual era a massa da galáxia que se fundiu com a nossa e como ela evoluiu antes de se tornar parte da Via Láctea.

Isso nos leva a um dos períodos mais decisivos — e mais difíceis de reconstruir — da história da nossa galáxia: seus primeiros bilhões de anos.

Galáxias crescem por meio de fusões

Nosso entendimento atual sobre a formação de galáxias diz que as grandes galáxias crescem gradualmente à medida que sistemas menores se aproximam sob a ação da gravidade e se fundem a elas. A gravidade desintegra a galáxia que se aproxima e espalha suas estrelas pelo sistema maior. Mas mesmo bilhões de anos depois essas estrelas ainda podem preservar pistas sobre sua origem. A Via Láctea, portanto, contém um registro fóssil das galáxias que absorveu.

A importância dessa ideia foi destacada este ano, quando o Prêmio Kavli de Astrofísica de 2026 foi concedido a Vasily Belokurov, Amina Helmi e Rodrigo Ibata pelo trabalho pioneiro que revelou as evidências fósseis de fusões passadas e mostrou como a Via Láctea cresceu por meio desse processo.

Um dos capítulos mais claros dessa história é o chamado Gaia–Sausage–Enceladus, ou GSE, em que uma galáxia de grande porte que se fundiu com a Via Láctea há cerca de 10 bilhões de anos.

Mas recuar ainda mais no tempo fica muito mais difícil. Em épocas anteriores, a própria Via Láctea ainda era pequena, e as galáxias que se fundiam com ela eram blocos de construção substanciais, em vez de galáxias satélites menores caindo em uma galáxia mais “madura”.

Estudos anteriores já haviam estabelecido evidências de outro grande evento de fusão anterior ao GSE, associado a populações estelares conhecidas como “Kraken”, “Heracles” e um “grupo de baixa energia” de aglomerados globulares.

O novo estudo aprimora consideravelmente nossa compreensão desse evento.

Um quadro mais nítido

Massari e seus colegas utilizaram aglomerados globulares: grupos densos contendo centenas de milhares de estrelas que se formaram aproximadamente na mesma época.

Isso torna estes objetos verdadeiros “relógios cósmicos” excepcionalmente precisos. Datar estrelas antigas individualmente é difícil, mas os aglomerados globulares permitem que os astrônomos comparem muitas estrelas que compartilham a mesma idade. Utilizando observações minuciosas do Telescópio Espacial Hubble e modelagem sofisticada, os pesquisadores determinaram idades relativas muito precisas para aglomerados globulares em toda a Via Láctea.

Em seguida, compararam essas idades com a metalicidade de cada aglomerado — a abundância de elementos mais pesados do que os dois mais leves do Universo, o hidrogênio e o hélio, que compõem a maior parte da massa das estrelas.

As galáxias se enriquecem quimicamente ao longo do tempo. À medida que gerações de estrelas se formam e morrem, elas produzem novos elementos que passam a ser incorporados às gerações posteriores. Ao comparar as idades e as metalicidades desses aglomerados globulares, os pesquisadores conseguiram compreender a história de como eles se formaram.

O resultado surpreendente é que os aglomerados globulares da Via Láctea exibem três sequências distintas de idade e metalicidade.

Uma delas está associada à própria Via Láctea primitiva. Outra pertence ao Gaia–Sausage–Enceladus (GSE). E, entre elas, encontra-se uma terceira sequência associada à fusão anterior.

Os autores estimam que esse evento ocorreu cerca de 1,8 bilhão de anos antes do GSE e envolveu uma galáxia contendo estrelas equivalentes a aproximadamente 500 milhões de Sóis — semelhante em massa estelar ao GSE.

Grande parte de seu material foi depositado nas regiões mais internas da Via Láctea. Conectando várias estruturas já nomeadas, os autores chamam seu progenitor de Low-energy–Kraken–Heracles, ou LKH.

De saber que aconteceu a reconstruir a história

E é justamente isso que torna o resultado deste estudo particularmente interessante.

O avanço não é simplesmente descobrir mais um ramo na árvore genealógica da Via Láctea. Estudos anteriores já haviam revelado esse evento de acreção primitivo. A precisão do novo estudo, no entanto, nos permite atribuir uma data e uma descrição muito mais detalhada a esse ramo.

As três sequências de idade–metalicidade começam a separar as histórias químicas da Via Láctea primitiva, do LKH e do GSE. Podemos, portanto, perguntar não apenas quando essas galáxias colidiram, mas também como eram e como haviam evoluído anteriormente?

Isso é especialmente valioso nesses períodos muito remotos. Os primeiros bilhões de anos da Via Láctea foram notavelmente agitados, com etapas importantes de seu crescimento ocorrendo em rápida sucessão.

Mas ainda há limitações. Os aglomerados globulares fornecem um registro incompleto: algumas galáxias primitivas podem ter formado poucos aglomerados, enquanto outras podem tê-los perdido. A reconstrução das propriedades das fusões também depende inevitavelmente de modelos. Mas a abordagem oferece algo único.

Equipamentos como o Telescópio Espacial James Webb agora podem observar galáxias distantes como elas eram há mais de 12 bilhões de anos. Essas observações nos mostram diretamente galáxias durante a mesma era em que a jovem Via Láctea estava se formando – mas geralmente sem distinguir suas estrelas individualmente.

A Via Láctea oferece a visão complementar. Aqui, podemos examinar estrelas e aglomerados que sobreviveram daquela mesma época com detalhes extraordinários. A astronomia de longas distâncias nos dá instantâneos de galáxias jovens. A “arqueologia galática” nos dá seus fósseis.

Juntas, essas abordagens estão transformando a visão que tínhamos da infância outrora indistinta da Via Láctea em uma história cada vez mais detalhada de como as galáxias se formaram quando nosso Universo ainda era jovem.

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Sven Buder recebe financiamento do Australian Research Council. Ele é integrante da Astronomical Society of Australia.

Kaynak
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