Após abertura da barragem da Penha, águas baixam no Jardim Pantanal; ex-presidente da CPI das enchentes pede auditoria sobre possível relação

Von Rodrigo Chagas17/09/2026 às 23:340 Aufrufe
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Brasil de Fato

Depois de cinco dias consecutivos de enchente na várzea do rio Tietê, moradores do Jardim Pantanal e de bairros vizinhos começaram a registrar uma redução do nível da água nesta quinta-feira (17). Segundo o vereador Alessandro Guedes (PT), ex-presidente da CPI do Pantanal, as seis comportas da Barragem da Penha foram abertas por volta das 15h desta quarta-feira (16).

A sequência aparentemente causal entre os eventos levou o parlamentar a pedir uma auditoria externa e independente para apurar se a operação da estrutura tem alguma influência sobre as inundações no extremo leste de São Paulo.

Guedes afirma ter acompanhado situação semelhante durante a grande enchente ocorrida em fevereiro de 2025, quando cobrou a abertura das comportas ao lado do deputado estadual Enio Tatto (PT). Desta vez, ele evita atribuir diretamente a redução da água à manobra, mas defende que a repetição da sequência seja investigada.

“Isso não significa que eu esteja apresentando uma conclusão técnica pronta. Significa que existe uma questão objetiva que precisa ser esclarecida”, declarou.

A percepção de que a abertura das comportas interfere na velocidade com que a água deixa os bairros também aparece nos relatos colhidos pelo Brasil de Fato durante a enchente. Na Vila Seabra, Clarice Ferreira contou que moradores chegaram a acompanhar a situação da barragem enquanto as casas permaneciam inundadas.

“Quando foi mais tarde, abriram duas, a água da rua começou a baixar. Só que eles foram e fecharam novamente”, relatou. Segundo ela, depois disso a água voltou a subir.

Na União de Vila Nova, Emerson Maquiné, morador e integrante da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), já relacionava a demora no escoamento à operação da barragem desde o início da inundação. Na manhã de sábado (12), quando a água já estava há horas dentro do bairro, afirmou: “A água não tá escorrendo. Não tá tendo vazão. Ou seja, seguimos aqui com sofrimento, como todos os anos, e a gente quer solução”.

A cobrança ocorre depois de uma enchente que se prolongou por bairros como Jardim Pantanal, Jardim Helena, Vila Seabra, Vila Itaim e União de Vila Nova. Na Vila Seabra, moradores relataram ao Brasil de Fato água entre 80 centímetros e 1 metro dentro de algumas casas. Marinalva da Silva Menezes deixou a residência depois de perder móveis e eletrodomésticos, enquanto Clarice contou que vizinhos chegaram a organizar um barco por conta própria para levar marmitas a famílias que não conseguiam sair.

O Brasil de Fato pediu à SP Águas os horários de abertura e fechamento de cada uma das seis comportas, o grau de abertura, os níveis do rio a montante e a jusante e as vazões registradas, no início da semana. A agência explicou as regras gerais de funcionamento, mas não encaminhou o histórico operacional do período.

A própria CPI do Pantanal terminou sem uma conclusão técnica definitiva sobre a influência da barragem. O relatório final registra que foram apresentadas avaliações divergentes: enquanto documentos e manifestações técnicas sustentam que a estrutura não teria influência determinante sobre o Jardim Pantanal, outros relatos e questionamentos mantiveram aberta a hipótese de interferência “ao menos em determinados cenários” sobre as águas a montante. A comissão concluiu que o tema precisava de aprofundamento pelos órgãos competentes.

Guedes defende agora que esse aprofundamento seja feito por especialistas sem participação direta na operação da barragem. A bancada do PT na Câmara Municipal também encaminhou representação ao Ministério Público de São Paulo, pedindo acesso aos registros das manobras, dados de telemetria e uma análise dos possíveis efeitos a montante. Até a manhã desta quinta-feira (17), não havia informação pública de abertura de uma investigação específica pelo MP-SP em resposta ao pedido.

SP Águas nega influência

Em nota sobre a abertura de comportas desta quarta e a redução das águas nos bairros, a SP Águas defendeu que a operação das comportas da Barragem da Penha não interfere nas condições de escoamento do Jardim Pantanal.

“A região está situada em cotas altimétricas entre 728 e 729 metros acima do nível do mar, ou seja, acima da cota máxima do remanso associado à Barragem da Penha, que varia entre 723 e 724 metros.

A operação das estruturas hidráulicas do sistema é definida com base em critérios técnicos e no acompanhamento permanente das condições hidrológicas e hidráulicas do rio, incluindo níveis e vazões, de forma a contribuir para o controle das cheias e para a segurança do sistema.

É importante destacar que o bairro está inserido em uma área de várzea do Alto Tietê, formada por terrenos naturalmente baixos e associados à dinâmica do rio. Em episódios de chuvas intensas, essas áreas podem receber e acumular volumes expressivos de água, fazendo parte da dinâmica natural de extravasamento e amortecimento das cheias. Por isso, a ocorrência de alagamentos na região não significa que a água esteja sendo represada pela operação da Barragem da Penha.

O Governo do Estado também mantém intervenções para melhorar as condições de escoamento do Tietê e reduzir os impactos das cheias. No Jardim Pantanal, já foram removidos 371,9 mil m³ de sedimentos, com investimento de R$ 55,8 milhões. Também está em andamento o desassoreamento de aproximadamente 11,7 km da calha do Rio Tietê, entre a Barragem da Penha e o Córrego Três Pontes”, informou a agência.

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Brasil de Fato
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