'O mundo é outro': encontros de Putin na Cúpula do BRICS refletem queda do G7, diz analista

11/09/2026 às 22:154 visualizações
Foto: AVISO: midia estatal russa / Sputnik Brasil
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, chegou na noite da última quinta-feira (10, sexta-feira no horário local) na capital da Índia, Nova Deli, para a XVIII Cúpula do BRICS. No primeiro dia, o líder russo se reuniu com chefes de Estado da África do Sul, Egito, Malásia, além do primeiro-ministro Narendra Modi, anfitrião do evento.
Em suas falas, Putin destacou que Moscou está aberta à cooperação com todo o mundo, incluindo o Ocidente, que desde 2022 transformou a Federação da Rússia no país mais sancionado do mundo, ainda que sofra com as consequências desta ação.

"Mesmo sob severas restrições externas, é possível estabelecer metas ambiciosas e alcançá-las com sucesso. Pode-se concluir que os países que iniciam as sanções — e que enfrentam o impacto direto de déficits orçamentários, dívida pública crescente e declínio industrial — são incapazes de implementar tais políticas. [Eles] enfrentam consequências difíceis e severas."

Putin também destacou que a Rússia está pronta para contribuir com a segurança energética e alimentar mundial e que busca parceiros confiáveis e previsíveis ao redor do globo. Sobre o BRICS, o líder do Kremlin defendeu que o grupo não quer se fechar em si mesmo, preza pela cooperação mútua e baseia o desenvolvimento das relações comerciais a partir dos interesses de cada nação.
"É evidente que uma parceria econômica sólida e laços comerciais confiáveis ​​constituem a base das relações internacionais sob muitos aspectos, tornando-as mais estáveis ​​e permitindo superar muitos dos fenômenos de crise que o mundo moderno enfrenta", disse Putin no Fórum Empresarial do BRICS.
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Panorama internacional
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Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas contam que as falas do presidente da Rússia demonstram o pragmatismo e a visão de multilateralidade de Moscou, similares à abordagem do BRICS como grupo, que se solidifica a cada nova cúpula.
Para o pesquisador do núcleo de BRICS da Universidade Federal Fluminense (UFF), Fernando Goulart, Putin, ao ao dizer que busca parcerias confiáveis e previsíveis reforça a necessidade de ações de natureza ganha-ganha para ambas as partes.
"O presidente Putin está sendo pragmático. Ele sabe que não pode ficar enclausurado só nos países do Sul Global. Existem parcerias muito próximas e o próprio presidente Putin tinha uma parceria muito estreita com a Alemanha até bem pouco tempo atrás na questão energética."
Isso é um contraste com grupos como o G7, que se baseiam na assimetria de poder. O BRICS, explica à Sputnik Brasil, foi criado a partir de uma concepção de mundo multilateral.
Para Goulart, a escalada protecionista dos países do G7, com destaque para a cruzada tarifária dos Estados Unidos, é um sinal de que o Sul Global, hoje, incomoda as nações antes hegemônicas. Se o mundo um dia foi comandado pelo Atlântico Norte, hoje o poder migra em direção ao Pacífico.

"É muito difícil fazer negócios com um país que, de uma hora para a outra, o regime muda, a situação política e a econômica se tornam instáveis. Tudo que a gente quer é previsibilidade e relações saudáveis entre esses países, que estão calcadas em uma previsibilidade, na saúde dessas relações internacionais que, infelizmente, hoje o G7 não vem privilegiando isso."

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Laura Ludovico, advogada, especialista em direito internacional público e estudos humanitários diplomáticos pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) afirma que as forças e fraquezas do BRICS mostram que essa estratégia de relações internacionais continua viva e efetiva, mesmo diante do enfraquecimento das Nações Unidas.
"O BRICS se insere nesse cenário [global] de uma forma muito protagonista. Um dos pontos mais fortes e mais fracos desse grupo de países é a falta de consolidação institucional. O BRICS não se considera um grupo econômico ou político, mas uma terceira via mais ampla e que foge de vincular seus países a regras impostas por um seleto grupo de Estados."
A especialista é enfática ao dizer que o modo como o grupo age e se porta não é um ataque aos Estados Unidos ou à Europa, mas busca fortalecer algumas das economias do Sul Global antes marginalizadas.
"A fala de Putin desenha muito bem esse panorama, visto que a ideia não é a criação de um grupo exclusivo para seus membros, mas de inaugurar uma dinâmica multilateral de fato aberta ao livre comércio e circulação de bens e serviços."

Métodos antigos para um mundo novo

Goulart detalha que as sanções impostas à Rússia nos últimos anos foram uma estratégia das nações "outrora hegemônicas" que poderia ter funcionado 30 anos atrás, mas não hoje. Para o especialista, a tentativa de isolar Moscou foi uma falha de leitura do Ocidente, que agora se depara com a "pujança econômica do Sul Global".

"O presidente Putin encontrou-se com [os líderes de] África do Sul, Indonésia, Índia — que tem proximidade geográfica com a Rússia — e essas cadeias de fornecimento, esses relacionamentos políticos, eles foram desafogando essa laçada que o G7 tentou dar na Rússia. O mundo é outro, e o G7 está percebendo que aquela preponderância que eles tinham na antiga ordem, vamos chamar assim, mudou."

O especialista destaca que ainda é difícil saber onde essa mudança global vai parar, catalizada, principalmente, pela pandemia do coranavírus, decretada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no início de 2020.

"O que a gente não vê é a possibilidade de crescimento dos países europeus, que têm problemas seríssimos hoje com a aquisição de matéria-prima para a industrialização, energia, sendo a questão energética para eles a mais complicada, além das novas tecnologias, que eles não dominam."

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Ludovico entende que a Rússia se projeta para o mundo a partir da sua identidade de nação e do seu planejamento econômico, especialmente mostrando posturas divergentes daquelas propostas pelos pares ocidentais.
Para a analista, Moscou não quer repetir a "metodologia punitiva do Ocidente", como a guerra por procuração estabelecida pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) por meio da Ucrânia, ainda que nações da aliança sejam historicamente dependentes do gás russo.

"Ao invés de encarar a conjuntura como delicada, a Rússia abraça a complexidade e observa isso como uma oportunidade de demonstrar a capacidade de diplomacia russa e a abertura desse novo mundo prometido."

Para Ludovico, as sanções foram uma chance de expansão de mercados para a Rússia, mas também permitiram que nações de regiões como Ásia e América Latina, que são alvos de tentativas de dominação ocidental, adotassem uma postura diplomática mais acolhedora com Moscou.

"Um Estado do porte econômico e político da Rússia não se enfraqueceria com essas sanções, mas tomou a situação como uma chance de consolidar sua identidade de nação milenar. As interações entre Estados dos BRICS abrem essa chance aos países membros e não-membros, isto é, um debate aberto para uma possibilidade de libertação política da exploração e imposições do Ocidente."

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Sputnik Brasil
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