Operação contra infiltração do PCC no transporte de SP mira ex-vereador Milton Leite, aliado de Nunes, e prende candidato do PL de Bolsonaro

17/09/2026 às 10:572 visualizações
O ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (direita) ao lado do prefeito Ricardo Nunes e do governador Tarcísio de Freitas
O ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (direita) ao lado do prefeito Ricardo Nunes e do governador Tarcísio de Freitas
Brasil de Fato

A Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo (MPSP) deflagraram nesta quinta-feira (17) uma operação contra a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no poder público e no sistema de transporte coletivo. Entre os principais alvos estão o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil) e Danilo Morgado (PL), candidato a deputado estadual pelo partido de Jair Bolsonaro. Leite teve a prisão decretada e é considerado foragido pela polícia, enquanto Morgado foi preso.

Batizada de Vectura Corrupta, a operação busca cumprir 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão. A ação é realizada pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo.

A investigação identificou 12 empresas de transporte coletivo que seriam controladas, direta ou indiretamente, pelo PCC. Segundo a Polícia Civil, os elementos reunidos apontam para uma possível infiltração da organização criminosa no sistema de transporte público da capital, com atuação de integrantes e intermediários da facção em empresas e procedimentos licitatórios.

Milton Leite é aliado político do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB). Em 2024, quando presidia a Câmara Municipal e o diretório do União Brasil na capital, ele foi responsável por oficializar o apoio do partido à candidatura à reeleição do prefeito. Durante o anúncio, realizado em um evento na zona sul de São Paulo, Leite afirmou que a legenda estava “firme” no propósito de vencer as eleições ao lado de Nunes.

Investigação aponta influência de Leite no setor de ônibus

Segundo a investigação, decisões estratégicas relacionadas a empresas de transporte suspeitas de ligação com o PCC dependeriam do conhecimento ou da aprovação política de Milton Leite. A conclusão, de acordo com os investigadores, se baseia em interceptações envolvendo operadores e em elementos reunidos em outras apurações sobre a atuação do ex-vereador no setor.

No pedido que embasou a operação, Leite é citado como responsável direto pela operação de algumas das empresas que, segundo a investigação, seriam controladas pela facção. O documento também menciona depoimentos de policiais militares prestados ao Tribunal de Justiça Militar segundo os quais o ex-vereador seria o dono de fato da Transwolff.

Policiais foram à casa de Leite nesta quinta-feira para cumprir o mandado de prisão, mas não o encontraram. Diante das circunstâncias verificadas no imóvel, a polícia passou a considerá-lo foragido. Segundo informações obtidas durante a diligência, o ex-vereador estava em casa até a tarde de quarta-feira (16). Uma funcionária afirmou aos policiais que ele saiu à noite para um compromisso de campanha.

Em nota à imprensa, Leite nega estar foragido. “Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas. Vou provar minha inocência em todas as acusações”, afirmou.

Ex-presidente da SPTrans está entre os presos

Entre os presos na operação está Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans. Segundo os investigadores, ele teria mantido encontros periódicos com José Daniel Satilite, apontado como um dos personagens centrais do esquema. A investigação afirma que as reuniões tratavam de interesses da facção relacionados a empresas de transporte.

Também foi preso Danilo Marco Morgado Silva, candidato a deputado estadual pelo PL e ex-candidato à Prefeitura de Praia Grande. Segundo a Polícia Civil, a investigação identificou um “forte vínculo” dele com integrantes do PCC e indícios de que sua campanha à prefeitura teria sido financiada pela organização criminosa. O Brasil de Fato tenta localizar a defesa dos citados. O espaço está aberto para manifestação.

A operação desta quinta é um desdobramento de investigações iniciadas em 2024. A apuração chegou a uma estrutura financeira que, segundo a polícia, era utilizada pelo PCC para lavagem de dinheiro e teria movimentado cerca de R$ 8 bilhões. As investigações também identificaram indícios de financiamento de campanhas de vereadores pela facção e do envolvimento de servidores comissionados de prefeituras paulistas.

Prefeitura diz que colabora com investigação

Em nota, a prefeitura de São Paulo afirmou que as intervenções na Transwolff e na UPBus — empresas citadas na operação — determinadas em abril de 2024, foram adotadas para “proteger o sistema municipal de transporte”. Segundo a gestão Ricardo Nunes (MDB), no caso da UPBus, a medida foi tomada por iniciativa da própria administração, sem solicitação da Justiça.

A prefeitura também destacou que abriu, por meio da Controladoria-Geral do Município, processos contra as duas empresas e que atua em conjunto com o Ministério Público e a Polícia Civil desde o início das investigações. A administração afirmou ainda que encerrou contrato para “preservar o interesse público e garantir que a população não fosse prejudicada”.

O Executivo acrescentou que colabora com as investigações e fornece ao Ministério Público “todos os documentos e esclarecimentos necessários”.

Fonte
Brasil de Fato
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