‘A gente ainda está tentando ser livre’, diz cineasta de documentário sobre contracultura

Por BdF Entrevista10/09/2026 às 23:455 visualizações
nem tudo é paz e amor
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Brasil de Fato

O documentário “Nem Tudo é Paz e Amor”, dirigido pelo músico e cineasta Betão Aguiar, lança um olhar atento sobre a infância de filhos de artistas da contracultura das décadas de 1960 e 1970. Filho de Paulinho Boca de Cantor, integrante dos Novos Baianos, Betão reuniu depoimentos de amigos de infância para investigar como foi crescer em ambientes marcados pela liberdade e pela ausência de tabus tradicionais.

O projeto nasceu a partir da inquietação de compreender os bastidores dessa criação alternativa e as contradições vivenciadas pelas crianças da época. Ao BdF Entrevista, Betão Aguiar conta que a ideia do filme partiu de uma amiga já falecida, Jasmine Pinho, que queria fazer um filme para investigar o comportamento desses filhos e filhas que cresceram sob influência desse movimento de vanguarda cultural

“O filme olha para esse lugar, como foi essa criação alternativa, entre muitas aspas, e, ao mesmo tempo, para vários desses dilemas que são comuns a todos: de criar, de ser criado, a relação com o pai, com o filho”, conta.

Inicialmente batizado de “Filhos da Contracultura”, o projeto passou por uma mudança de título proposta pelo próprio diretor para evitar um tom excessivamente didático ou rígido. Para o cineasta, a expressão escolhida reflete melhor a complexidade e a diversidade de visões expressas pelos entrevistados, que incluem desde recordações afetuosas até desabafos sobre regras frouxas ou rotinas comunitárias.

O nome busca desconstruir a idealização romântica sem apagar o afeto genuíno que unia aquelas famílias. “A vontade do ‘Nem Tudo é Paz e Amor’ é porque nem tudo era paz e amor. Acho que paz é mais difícil do que o amor, porque amor tinha bastante”, pondera.

Entre os temas abordados na produção estão a convivência com a nudez, a liberdade sexual e a ausência de tabus no diálogo sobre substâncias como a maconha. Em vez de proibições autoritárias, a convivência familiar priorizava conversas e orientações diretas sobre os impactos das escolhas pessoais.

“Acho que tudo é ambiente, estímulo. Você ter isso, ter proximidade, ter contato com isso desde novo, acho que te possibilita querer experimentar. E acho que também tem o lado negativo da proibição”, pontua.

Betão Aguiar relembra a forma como esses tópicos eram tratados em casa e contrapõe a transparência da época ao moralismo contemporâneo. Ao analisar o papel dessa geração em quebrar estigmas e o efeito da proibição sobre os jovens, o diretor ressalta que “as pessoas sabem que existe isso, mas criam os filhos como se isso fosse uma coisa que não existisse, aí talvez desperte até mais vontade”.

Ao refletir sobre os impactos do movimento na sociedade atual, o cineasta avalia que as transformações comportamentais impulsionadas por aquela geração abriram caminhos fundamentais, embora veja com preocupação os retrocessos conservadores e o isolamento infantil diante das telas no mundo contemporâneo.

Para ele, a experiência de infância vivenciada no passado estimulava a imaginação e o convívio em comunidade de uma forma que parece cada vez mais rara. “A galera já estava lá atrás lutando para ser mais livre, coisa que hoje em dia eu sinto muito pertinente também. A gente está ainda tentando ser livre. E nem sempre está conseguindo”, conclui.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Fonte
Brasil de Fato
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