Ser como Jesus e não como Davi

Por Ailma Barros19/09/2026 às 10:4926 visualizaciones
Política Nacional de Prevenção e Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes começou a vigorar no dia 19 de maio em todo o país
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Brasil de Fato

Eu não sei como foi sua infância e adolescência — espero que tenham sido boas. As minhas foram na igreja. Cresci entre as paredes brancas e a agenda definida de cultos e ensaios e escola bíblica dominical (EBD). Sinto que a igreja foi um espaço protetivo para mim de muitas maneiras. Mas queria conversar sobre as maneiras que a igreja silenciou e nunca me comunicou sobre proteção.

Eu sempre ponderei que a igreja me protegeu de muitas violências — as externas e até letais. E acreditava que isso era tudo o que importava. Eu fui uma menina negra, crescendo num bairro pobre de uma cidade mediana do Brasil. A violência estava ali, a um passo. As más decisões também. Cresci repetindo para mim mesma que a igreja me protegia. Hoje discordo disso.

Crescendo entre a EBD e o círculo de oração infantil, ouvi muitas histórias fantásticas que apontavam para um Deus que fazia intervenções sobrenaturais. Aprendi sobre o Deus que entra num forno aceso e livra rapazes de se queimarem; aprendi sobre jumentos falando com humanos teimosos e tacanhos. Mas nunca fui ensinada sobre o que Deus pensava sobre o meu cotidiano.

Nunca ouvi sobre Deus intervindo em coisas eminentemente humanas. Nunca soube a opinião de Deus sobre o alcoolismo e outros elementos que resultam em terror nas casas e a violência psicológica decorrente. Sendo criança e depois sendo adolescente, eu nunca fui ensinada na igreja sobre violência e nem que Deus ou a igreja poderiam ser lugares seguros para mim ou para minha família.

Quando me tornei adolescente, passei a viver outra experiência violenta — e não conseguia defini-la como violência, mas eu sentia a revolta do meu corpo sempre que era submetida a esta experiência, me sentia constrangida e muito desconfortável. Que experiência era essa? A partir dos 12 ou 13 anos, passei a ouvir cada vez mais o discurso que eu precisava namorar, que depois dos 18 anos eu ficaria encalhada. Havia um peso do tempo contra mim.

Esse discurso, apesar de me deixar mal, não me fez capitular a ele — como aconteceu com muitas amigas — porque meus pais tinham um discurso mais forte da importância do foco no estudo. Mas o medo de ficar encalhada era terrível. Eu tinha pretendentes que foram se tornando escassos depois que fiz 18 anos.

Porque estou contando essa trajetória tão comum? Por isso mesmo, porque ela é comum. As igrejas brasileiras refletem a realidade da sociedade brasileira. Sabemos pouco sobre como proteger crianças e adolescentes da violência, especialmente as violências mais recorrentes para esse público: violência sexual (assédio, abuso, exploração), violência psicológica e violência física.

Seguimos numa lógica medieval de incentivar meninas a estabelecer relacionamentos com homens mais velhos, ignorando a legislação brasileira que estabelece que relacionamento com menores de 14 anos configura estupro de vulnerável com ou sem o consentimento das mesmas. Somos um dos países com maiores índices de casamento infantil no mundo. Casamentos esses que muitas vezes são marcados por uma hierarquia de idade tão grande que culmina em violência doméstica.

Impedimos nossas adolescentes de se desenvolver plenamente e imputamos a elas expectativas e relacionamentos que são difíceis até para pessoas adultas. Sabemos pouco sobre reconhecer crianças e adolescentes como pessoas e nos relacionar com eles com diálogo e disciplina baseada em limites e confiança, não em violência e terror.

A escritora estadunidense Bell Hooks, refletindo sobre o processo de criar crianças de maneira amorosa, nos apresenta um grande desafio: “Nada cria mais confusão em relação ao amor no coração e na mente de crianças do que punições duras e/ou cruéis aplicadas pelos mesmos adultos que elas foram ensinadas a amar e respeitar. Essas crianças aprendem desde cedo a questionar o significado do amor e a ansiar por ele, mesmo quando duvidam que exista”.

Ela continua. “Todos os dias, milhares de crianças em nosso país são abusadas verbal e fisicamente, passam fome, são torturadas e assassinadas. Elas são as verdadeiras vítimas de um terrorismo íntimo, sem voz coletiva nem direitos. Elas permanecem propriedade de adultos que fazem delas o que querem. Não pode haver amor sem justiça. Até que vivamos numa cultura que não apenas respeite, mas assegure direitos civis básicos para as crianças, a maioria delas não conhecerá o amor. Em nossa cultura, o lar da família nuclear é uma esfera institucionalizada de poder que pode ser facilmente autocrática e fascista”.

O que as igrejas (e outros espaços de fé e sagrado) podem fazer para serem espaços nos quais as crianças saibam que são completamente protetivos para elas?

Você pode argumentar sobre a centralidade bíblica da família como projeto de Deus e reforçar essa relação de tirania. Mas a Bíblia nos conta o que acontece quando a família não é um espaço protetivo para os seus. A Bíblia nos dá exemplos de pais que fracassaram em sua função. A predileção de Jacó criou inimizade entre os filhos. A leviandade de Jefté condenou sua filha à morte. A cobiça de Amnon pela própria irmã culminou em violência sexual. E a atitude de Davi como pai? Silêncio que só protegeu o filho e condenou a filha. O resultado? Mais violência e um sofrimento baseado em vingança.

A família falha. E, prevendo isso, a nossa Constituição define no artigo 227 que crianças e adolescentes são prioridade nas decisões e são responsabilidade da família, do Estado, da sociedade e da comunidade. Será que quando as famílias falham, nós temos assumido o nosso dever de proteger crianças? Ou nós temos protegido os adultos dessas famílias?

Em 2017, o Brasil aprovou a lei 13.431 que define protocolos para que as crianças sejam ouvidas, consideradas e respeitadas quando sofrerem violência ou forem testemunhas de violência. A ideia da lei é evitar que as crianças sejam revitimizadas, que não sejam expostas, que os adultos acreditem no que elas dizem e as protejam.

A violência é o fenômeno que mais fragiliza o ser humano. Algumas violências assombram seres humanos a vida inteira. Quando uma criança conta para um adulto uma violência que ela sofreu ou testemunhou, é o momento mais vulnerável e decisivo para ela. Não podemos, como sociedade, repetir o erro do rei Davi, de silenciar e fingir que nada aconteceu. Isso é hipocrisia e mais violência.

Podemos ser honestos nas nossas igrejas e noutros espaços comunitários. As famílias falham com seus filhos. Nós podemos, como comunidade, demonstrar como cuida o Deus Cristo que encarnou. E o cuidado de Jesus respeita a legislação. O cuidado de Jesus é reconhecer as crianças como pessoas. Não foi isso que Ele fez com aquelas crianças que estavam sendo impedidas de se aproximar dele?

O cuidado desse Deus revela que as igrejas são espaços onde precisamos ouvir as crianças. Não foi isso que aconteceu com o Jesus de 12 anos que estava ensinando os sábios no templo? A vida de Jesus é uma vida sofrida como criança, ameaçada por Herodes e migrante refugiada no Egito. Pobre. Mas a vida de Jesus é uma vida que dignifica crianças, que aponta que elas são pessoas, que o que elas pensam e sentem é importante. Como sociedade majoritariamente cristã temos falhado em refletir Jesus.

O estupro de vulnerável figura como o principal tipo de violência contra crianças e adolescentes notificado no Brasil. Os autores da violência sexual contra crianças e adolescentes são, em sua maioria, conhecidos da vítima (índice entre 60% e 80% dos casos). A violação ocorre, em geral, nas residências das crianças e adolescentes. Entre 2021 a 2023, nasceram 45.649 bebês cujas mães são meninas com menos de 14 anos — e 10 desses bebês, as mães tinham até 9 anos de idade.

E esses são números subnotificados. Segundo estimativa do IPEA, o número real pode ser até 10 vezes maior. Como um país de maioria cristã admite esses números? Como cristãos defendem que crianças que sofreram violência sexual e engravidaram, mantenham a gravidez, contrariando a legislação brasileira vigente desde 1940?

Nós temos sido espaços seguros para que as crianças possam falar dos seus medos e sofrimentos? Temos sido como Jesus, dando voz e espaço para as crianças? Ou temos sido como Davi e silenciado as vítimas? O nosso desafio está posto. Eu quero fazer parte de uma igreja e uma sociedade protetora e segura para crianças e adolescentes.

Fuente
Brasil de Fato
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