Sem cotas e fundo eleitoral, candidatos PCDs das periferias de São Paulo driblam falta de recursos na campanha

Por Jacqueline Maria da Silva / Carol Lima / Raphaela Guimarães22/09/2026 às 10:524 visualizações

“Quem está comigo é o neurodivergente que precisa contar as moedas para pagar a passagem”, conta o candidato a deputado federal Gregory França (PT), do Parque São Lucas, na zona leste de São Paulo. Aos 24 anos, ele concorre a uma vaga na Câmara dos Deputados e decidiu não pedir dinheiro para pessoas próximas por conta da situação financeira.

“Há candidatos que abriram vaquinha, porque a elite está com eles. Eu decidi não abrir, porque as pessoas que estão comigo passam muita dificuldade financeira e não tenho como pedir para elas doarem”, ressalta.

A realidade dos candidatos PCDs (Pessoas com Deficiência) é pouco debatida nas eleições e envolve além dos desafios da campanha a falta de recursos.

Diagnosticado com (TEA) Transtorno do Espectro Autista, Gregory se queixa que do repasse de pouco mais de R$ 19 mil fornecidos pelo partido para a campanha dele. Diz que somente R$ 400 reais chegaram de fato às suas mãos.

Gregory mudou de partido em busca de oportunidade de se candidatar as cadeiras do Congresso @Eduardo Santos/Divulgação
Gregory mudou de partido em busca de oportunidade de se candidatar as cadeiras do Congresso @Eduardo Santos/Divulgação

Gregory mudou de partido em busca de oportunidade de se candidatar as cadeiras do Congresso @Eduardo Santos/Divulgação

Ao menos R$3 mil foram para pagar advogados do partido e R$15.500 para a propaganda de televisão que gravou. Para ele, faltam políticas que garantam reserva mínima de recursos do Fundo Eleitoral para campanhas PCDs, como ocorre com outros grupos sub representados: mulheres e negros tÊm reserva mínima de 30% do valor repassado para o partido.

A Justiça Eleitoral prevê dois fundos de financiamento de campanhas: o Fundo Partidário, usado para financiar atividades permanentes e a divulgação do partido; e o Fundo Eleitoral, que deve ser usado exclusivamente nas campanhas.

O que comumente ocorre nos partidos é a priorização no repasse de recursos para candidatos considerados mais competitivos e o baixo financiamento para quem, teoricamente, tem menos visibilidade – mesmo que esses candidatos pudessem aumentar a representatividade de minorias no Legislativo.

É o que lamenta Juarez Pereira, 43, candidato a deputado estadual pelo MDB. Morador do Jardim São Luís, na zona sul, e cadeirante, Juarez está na sexta campanha, entre cargos municipais e federais. Ele já passou por diferentes siglas, como PTB, Democratas e União Brasil. Diz qie viu a priorização de recursos se repetir diversas vezes.

Em 2026, ele recebeu R$53 mil para a campanha, segundo o DivulgaCand. Com a verba, fica difícil contratar pessoas para alavancar a candidatura pelas redes sociais e até confeccionar materiais de divulgação.

“Deveria ter uma identificação da pessoa com deficiência nas candidaturas e uma verba partidária maior. Tem cotas para pessoas negras e mulheres, mas as pessoas com deficiência também precisam”, desabafa.

‘Uma das prioridade do meu mandato será ampliar à acessibilidade para PCDs nas periferias’, diz Juarez @Raphaela Guimarães/Agência Mural
‘Uma das prioridade do meu mandato será ampliar à acessibilidade para PCDs nas periferias’, diz Juarez @Raphaela Guimarães/Agência Mural

‘Uma das prioridade do meu mandato será ampliar à acessibilidade para PCDs nas periferias’, diz Juarez @Raphaela Guimarães/Agência Mural

A Justiça Eleitoral não identifica nominalmente se um candidato é uma pessoa com deficiência ou não. Isso porque, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), se trata de uma informação sobre saúde, que é considerada um dado sensível. Divulgá-la feriria a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados). Os entrevistados reclamam que a medida impede a população de conhecer representantes PCDs.

Porém, o TSE contabiliza o total de candidatos com deficiência nacionalmente, sem identificá-los. Ao todo são 510 candidatos PCDs no Brasil concorrendo nas eleições de 2026.

Deles, 273 concorrem para deputado estadual, 199 para deputado federal, 16 para deputado distrital (Distrito Federal), dois para governador, cinco para vice -governador, seis para senador – além de cinco a 1º suplente e quatro a 2º suplente ao cargo.

Ao menos três partidos não têm nenhum candidato PCD registrado para candidatura nestas eleições, incluindo PCB, PCO e PRTB.

O número de PCDs corresponde a apenas a 2,5% do total de candidatos registrados (20.983 pessoas). Os valores estão longe da realidade do país, no qual 7,2% da população possuí alguma deficiência, segundo dados nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Contrastes entre candidaturas PCDs

O psicólogo Gabriel Brito, 30, do Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo, é conhecido no bairro e ainda mais nas redes sociais. Ele mantém o canal Olhar sob Rodas no Tik Tok, no qual usa o humor para discutir os desafios das pessoas com deficiência. O nome faz referência a cadeira de rodas usada para a locomoção, reduzida devido a uma doença congênita.

Com mais de 1 milhão de seguidores só nessa rede, foi surpreendido no início de 2025 com um convite do PSD para integrar uma chapa no partido. Ele agarrou a oportunidade como uma chance de lutar pela causa dos PCDs periféricos.

Na primeira candidatura, de deputado federal, ele soma para a campanha R$160 mil repassados pelo PSD e usa a internetcomo principal ferramenta para se impulsionar na disputa.

“Eles [integrantes do partido] falaram que pela minha visibilidade, em especial entre pessoas PCD, eu podia ir além dos conteúdos de comédia e fazer a diferença [na política]. E eu achei muito legal a ideia, porque a gente não vê PCDs ocupando cargos políticos, dá para contar nos dedos”, comenta.

Gabriel explica que a verba do partido foi destinada para impulsionamento da campanha pela internet @Arquivo pessoal/Divulgação
Gabriel explica que a verba do partido foi destinada para impulsionamento da campanha pela internet @Arquivo pessoal/Divulgação

Gabriel explica que a verba do partido foi destinada para impulsionamento da campanha pela internet @Arquivo pessoal/Divulgação

Diego Pernoca, 37, morador de Poá, na Grande São Paulo, também disputa uma vaga pelo PSD, para deputado estadual. Na quinta campanha e com três mandatos de vereador no currículo (2012, 2016 e 2024), recebeu o maior financiamento da sua trajetória política: do partido: R$510 mil.

“Ver tão poucos candidatos PCD concorrendo em São Paulo mostra que ainda há muitas barreiras de acesso, de recursos, de visibilidade, antes mesmo da disputa eleitoral começar. Por isso, quero abrir caminho para que outras pessoas com deficiência também se sintam capazes de ocupar esse espaço”, afirma.

Além do recurso, ele conta com ajuda de organizações sociais e da Rede de Pessoas com Deficiência no Brasil, com a meta de ser o primeiro candidato PCD de Poá na Assembléia Legislativa de São Paulo.

“Venho de um bairro periférico e sempre via as pessoas sentindo na pele o descaso do estado: falta de saúde, mobilidade, segurança, educação e inclusão. Sou um político que gosta de conversar com as pessoas, bater de porta em porta nos bairros e ir à estação de trem. Estou longe de ser um político de gabinete”, conta.

Para Pernoca, PCDs em cargos do legislativo ajudam a alavancar demandas desta população @Arquivo pessoal/Divulgação
Para Pernoca, PCDs em cargos do legislativo ajudam a alavancar demandas desta população @Arquivo pessoal/Divulgação

Para Pernoca, PCDs em cargos do legislativo ajudam a alavancar demandas desta população @Arquivo pessoal/Divulgação

Representatividade e Capacitismo

Embora os candidatos integrem correntes políticas diferentes, todos acreditam que assumir uma cadeira no Legislativo faz diferença quando se pertence a um grupo com necessidades especiais, sobretudo como pessoas periféricas. Mas concordam que apenas disputar uma cadeira não é sinônimo de inclusão, sobretudo pela falta de visibilidade das campanhas.

Diagnosticado em 2025 com TEA e concorrendo em eleições pela segunda vez, Gregory levanta a bandeira da população neurodivergente e também da juventude periférica e LGBT+.

“As pessoas me questionam com falas como: ‘você é um cara tão legal, por que quer entrar nisso? Será que você vai ter força na política? Será que você vai conseguir dar sua voz?’”, conta lembrando que nas atividades de campanha já foi chamado de “esquisitão” e teve que ouvir que o lugar dele “não é na política”.

Juarez se engajou após se tornar paraplégico em 2014, vítima de um tiro na coluna devido a um assalto. No ano seguinte, influenciado pelo cunhado, filiou-se ao PTB, e concorreu a uma vaga de vereador em São Paulo.

Em paralelo a vida política, ao lado do irmão, começou a ajudar a vizinhança com reparos e manutenção de cadeiras de rodas. Com esse trabalho passou a ser conhecido como uma liderança na defesa de pessoas deficientes. Hoje, o projeto consegue reformar e doar mensalmente 200 cadeiras de rodas a quem precisa.

‘Conheci um mundo muito diferente do que eu estava acostumado, com muitas pessoas com deficiência sem conseguir dar conta das necessidades básicas, com direitos violados’

Juarez, candidato a deputado estadual

Vítima de ‘haters’ pela internet durante a campanha, Gabriel quer fazer a diferença olhando para os seus. A principal proposta dele é doar recursos para AACD na confecção de dispositivos de adaptação, em especial cadeiras de rodas motorizadas. O equipamento, que chega a custar mais de R$12 mil, foi imprescindível para a autonomia e independência.

“É algo absurdamente caro, que o pessoal da periferia não tem condição de pagar, como eu não tinha. Quando ganhei a minha, mudou minha vida, tive liberdade, podia ir para todo lugar sozinho, que antes dependia de outras pessoas. Pude fazer faculdade e hoje posso sair para fazer campanha”, conclui.

Para Diego, conhecido como Pernoca, apelido adotado por ele devido à condição causada pela poliomielite na infância, o desejo de ser deputado nasceu da vivência diária com as barreiras físicas e sociais enfrentadas pelas pessoas com deficiência. Cria de Poá, viu a cidade crescer sem nunca ter tido um deputado estadual para defender essa pauta.

“Enquanto calçadas, postos de saúde, escolas e prédios públicos não forem pensados para todo mundo, uma parte da população segue excluída do direito básico de ir e vir, de trabalhar, de estudar, de votar com dignidade. Entendi que ou alguém saía da teoria e ia para a prática ou continuaríamos sendo esquecidos. Decidi que esse alguém seria eu”, completa.

PROPOSTAS DOS CANDIDATOS COM DEFICIÊNCIA

DIEGO REIS CANDIDATO DEPUTADO ESTADUAL

Proposta nos eixos de saúde, mobilidade urbana e educação. Estruturação de atendimento adequado na rede de saúde para pessoas com deficiência e mães atípicas, que hoje enfrentam anos de espera por avaliação lutar por mobilidade urbana acessível de verdade, não apenas no papel e defender que a inclusão esteja presente desde a educação básica até a formação técnica, hoje inexistente no Estado de São Paulo.

GABRIEL BRITO CANDIDATO DEPUTADO ESTADUAL 

Doação para AACD para dispositivos de acessibilidade, melhoria das ruas e calçada nas periferias,  garantir acessibilidade no transporte público, como manutenção dos elevadores. E o cartão PCD para que o cidadão tenha desconto em itens necessários para sua mobilidade e dia a dia.

GREGORY FRANÇA CANDIDATO DEPUTADO FEDERAL 

Mudança nas legislações para incluir PCDs nos planos de governo e nos financiamentos de campanha. Ampliar escopo de deficiências nas leis que garante direitos PCD. Desburocratizar o direito a tratamento e a medicações judicializadas, como cannabis medicinal. Trabalhar na frente de estímulo à leitura, políticas para emergências climáticas, fim das privatizações e segurança alimentar, especialmente para a população transexual das periferias. 

JUAREZ PEREIRA CANDIDATO DEPUTADO ESTADUAL

Padronização das calçadas e adequação de acessibilidade nos espaços públicos como ruas e escolas públicas para PCDs e pessoas com mobilidade reduzida, especialmente nas periferias. Reduzir filas do SUS para obtenção de cadeiras de rodas com prioridade e urgência para crianças. Segundo Juarez, a demora pode fazer com que, quando a cadeira seja disponibilizada, ela já não seja adequada ao tamanho da criança. Ampliar serviços de manutenção desses equipamentos e disponibilidade de peças para reparos. Ampliar a oferta de centros de hemodiálise. Ampliar a implantação do Smart Sampa, programa da Prefeitura de São Paulo que utiliza câmeras com recursos de inteligência artificial e reconhecimento facial, para as periferias.

Agência Mural

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