O curral agora tem WhatsApp

Por Crônicas de Domingo20/09/2026 às 12:0038 visualizações
'O antigo coronel já não precisa ficar olhando a cédula que o eleitor coloca na urna. Mas talvez o cabresto esteja no grupo do WhatsApp!', comenta Joel Martins Cavalcante
'O antigo coronel já não precisa ficar olhando a cédula que o eleitor coloca na urna. Mas talvez o cabresto esteja no grupo do WhatsApp!', comenta Joel Martins Cavalcante
Brasil de Fato

Por Joel Martins Cavalcante*

Hoje é domingo, 20 de setembro. Daqui a dois domingos, no dia 4 de outubro, será eleição.

E eleição, você sabe, tem dessas coisas: faz aparecer na rua o que durante quatro anos muita gente prefere fingir que não existe.

Nos últimos dias, tenho visto alguns vídeos circulando pelas redes sociais. Esse lugar estranho, no qual a gente entra para passar cinco minutos e, quando percebe, já perdeu meia hora da vida. Entre uma bobagem e outra, aparecem vídeos de trabalhadores contratados por prefeituras sendo cobrados porque não compareceram a determinado ato político.

Tem até uma figura que ganhou nome nas redes: o “fiscal de deputado”.

O sujeito chega com o caderninho – ou com o celular mesmo, porque o coronelismo também se modernizou –, bate à porta e pergunta:

“Por que você não foi?”

A pessoa se enrola. Diz que estava doente, que apareceu um compromisso, que o menino precisou de alguma coisa, que não conseguiu transporte.

Nos comentários, o povo ri.

“Na minha cidade é assim também.”

“Aqui é pior.”

“Conheço um monte.”

A gente ri porque a cena é quase uma comédia. O problema é que, quando todo mundo conhece uma história parecida, talvez já não seja tão engraçado assim.

Voltei recentemente à sala de aula e, em uma das turmas, estava falando sobre o início da República brasileira. Chegamos à chamada República Velha e ao famoso voto de cabresto.

Expliquei aos estudantes aquela velha história: numa época em que o voto nem sequer era secreto, coronéis e chefes políticos exerciam enorme controle sobre os eleitores. O voto podia estar ligado à terra, ao emprego, ao favor recebido, à proteção do poderoso local.

E aí fiquei pensando: será que o voto de cabresto acabou mesmo?

Claro que o Brasil mudou. O voto hoje é secreto. Temos urna eletrônica, Justiça Eleitoral, Ministério Público, legislação contra o assédio eleitoral. O antigo coronel já não precisa ficar olhando a cédula que o eleitor coloca na urna.

Mas talvez o cabresto esteja no grupo do WhatsApp!

Talvez tenha virado contrato temporário e precário.

Talvez tenha se transformado naquele recado discreto dizendo que “é importante comparecer”. Na fotografia que precisa ser feita no evento. Na lista de presença. Na cobrança para colocar uma bandeira ou adesivo na frente de casa. Na pergunta aparentemente inocente:

“Você vai, não vai?”

E todo mundo entende o que aquela pergunta quer dizer.

É fácil julgar quem se submete. Difícil é fazer o julgamento quando a conta de energia vence, quando tem comida para comprar, filho para criar, aluguel para pagar e um contrato que pode simplesmente não ser renovado no mês seguinte.

A liberdade fica muito bonita escrita na Constituição. Na vida concreta, ela custa caro.

Conheço gente que passa o dia defendendo um grupo político e, depois do expediente, reclama dele. Conheço quem critica baixinho e balança bandeira em público. Conheço também os camaleões da política: aqueles que conseguem descobrir rapidamente qual será a próxima cor predominante. Se perceberem que o outro lado pode vencer, mudam de lado antes mesmo da apuração terminar.

Não necessariamente por convicção.

Às vezes, por sobrevivência.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das perversidades dessa história. Um serviço público sustentado excessivamente por vínculos precários não produz apenas insegurança trabalhista. Pode produzir dependência política.

O emprego que deveria garantir dignidade vira favor.

O direito vira dívida.

E a dívida, na eleição, é cobrada.

Depois a gente estranha que determinados grupos atravessem décadas no poder. Mas pense comigo: como disputar livremente o voto de alguém que acredita que a vitória do adversário pode significar seu desemprego na segunda-feira?

Não estou falando apenas de uma prefeitura, de um partido ou de um governo. Essa lógica atravessa cidades, governos e grupos políticos diferentes. Trocam-se os personagens, mudam-se as bandeiras, mas o método encontra maneiras de sobreviver.

Por isso, concurso público é muito mais do que preencher vagas. É também uma forma de proteger o trabalhador da vontade de quem ocupa temporariamente o poder.

Servidor público não deveria ter dono.

Voto também não.

Daqui a dois domingos, milhões de pessoas vão entrar sozinhas diante de uma urna. Talvez seja um dos poucos momentos em que o fiscal, o chefe, o prefeito, o deputado, o secretário e o dono do contrato ficam do lado de fora.

E ainda bem.

Porque mais de um século depois da República Velha, talvez a democracia brasileira continue tentando responder a uma pergunta bastante simples:

De que adianta o voto ser secreto, se o medo continua público?

*Joel Martins Cavalcante é professor de história da rede estadual de ensino da Paraíba, jornalista, advogado e militante dos direitos humanos e do Movimento Brasil Popular.

**A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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