Nem Schopenhauer, nem Dr. Smith MCcarthy

Di Roberto Kiel25/09/2026 às 14:5340 visualizzazioni
Preços dos alimentos no supermercado impacta custo de vida, principalmente das famílias mais pobres
Preços dos alimentos no supermercado impacta custo de vida, principalmente das famílias mais pobres
Brasil de Fato

Imagine dois sujeitos numa fila de supermercado, quinta-feira à noite. Ambos têm o mesmo carrinho: arroz, cerveja, um pacote de biscoito que ninguém planejou comprar. Ambos pagam com o mesmo cartão, digitam a mesma senha, saem com a mesma sensação difusa de ter gastado mais do que deviam. Até aqui, são idênticos. A diferença está no que cada um pensa enquanto digita.

O primeiro é o homo economicus otimista. Ele acredita, no fundo do coração, que a sua pequena gula de quinta-feira é uma virtude cívica. Leu Adam Smith numa disciplina eletiva da faculdade e nunca se recuperou. Para ele, o mercado é uma máquina de transformar egoísmo em bem-estar, e ele é uma engrenagem bem-intencionada dessa máquina. Compra a cerveja, o fornecedor lucra, o entregador trabalha, o imposto circula, a economia gira. Ninguém planejou nada, mas tudo se ajeitou — a famosa mão invisível, que ele imagina mais ou menos como uma espécie de gerente geral do universo, discreto, competente, ligeiramente britânico. Sai do mercado satisfeito consigo mesmo. Não sabe exatamente o que quer, mas confia que querer é suficiente.

O segundo é o homo economicus pessimista. Tem o mesmo carrinho, o mesmo cartão, o mesmo biscoito não planejado. Mas enquanto digita a senha, pensa: por que eu quero isso? Ele também sabe que o mercado funciona, que os preços sinalizam, que a oferta responde à demanda. Não é negacionista da economia. Só lê esse funcionamento como Schopenhauer leria: não como harmonia, e sim como a Vontade se manifestando em mais uma de suas formas. O supermercado é a Vontade em estado de prateleira. Cada produto é um objeto de desejo que promete preencher algo e não preenche. Ele compra a cerveja sabendo que a sede vai voltar, compra o biscoito sabendo que o biscoito é uma metáfora. Sai do mercado com a mesma sensação difusa de vazio, mas sem nenhuma ilusão sobre ela. Não é mais infeliz que o primeiro — talvez seja até mais lúcido. Mas sabe que a mão invisível é só um nome bonito para a mão que segura o cartão de crédito.

Vale registrar, antes de seguir, que os dois não estão certos. Os dois estão convencidos de que estão certos, o que é uma coisa bastante diferente e, para os nossos fins, mais interessante. O comportamento deles é rigorosamente idêntico: mesmas escolhas, mesmos preços, mesmos carrinhos abandonados no site às duas da manhã. O fenômeno é neutro. Não há nada no mercado que permita decidir entre as duas leituras. A divergência não é empírica, é metafísica. E é justamente por isso que a convicção preenche o vazio que a observação deixa. Um dorme tranquilo; o outro dorme também, mas sabendo por quê.

A pedra de toque, aqui, é o juízo sobre o resultado, não a mecânica do egoísmo — nisso Smith e Schopenhauer concordam, o egoísmo coordena, a coisa funciona. Smith olha para o mercado e vê uma mão. Schopenhauer olha para o mesmo mercado e vê um abismo que por acaso tem regularidade. A mão invisível não é uma refutação da Vontade; é uma leitura otimista dela. E a Vontade não é uma refutação da mão invisível; é uma leitura pessimista do mesmo mecanismo. Schopenhauer nunca leu Smith, diga-se de passagem. Não houve refutação, houve contraposição: a metafísica schopenhaueriana simplesmente não acomoda a mão invisível sem retirar dela o caráter benevolente e providencial. Se tivesse lido, diria algo como: o que você chama de harmonia é a máscara da Vontade. Não é uma objeção empírica. É uma reinterpretação. E reinterpretações, como se sabe, não costumam fechar.

O ponto mais curioso, no entanto, é o que acontece com a agência. Em Smith, o indivíduo age de verdade: escolhe, calcula, persegue o próprio ganho. É um agente no sentido pleno. Mas o resultado da sua ação não lhe pertence. Ele quer o lucro e produz bem-estar social sem saber. Há um vão entre a intenção e o efeito, e é esse vão que a mão invisível preenche. Ora, a mão não é um agente — é o nome do fato de que o vão se preenche. Mas Smith lhe dá verbos de agência: ela conduz, guia, dirige. A Providência conduz. A agência fica partida em dois níveis: o indivíduo, que intenciona, e a mão, que coordena. Uma visível, a outra não.

Em Schopenhauer, o indivíduo acha que age. Mas é a Vontade que age através dele. Ele é a Vontade objetivada, o ponto onde o querer cego se torna consciente de si como desejo. A Vontade age — mas a Vontade não é um sujeito. Não conhece, não delibera, não escolhe. É agência sem consciência. E pior: não intenciona resultado nenhum. Apenas quer. Não há coordenação, há conflito. A ordem, se existe, é subproduto da autodilaceração da Vontade.

O paralelo, então, é este: ambos os sistemas repartem a agência e deslocam a parte decisiva para um princípio que não é um agente. Nos dois casos, a agência visível — a do indivíduo — é declarada insuficiente. Em Smith, ela é real mas parcial. Em Schopenhauer, ela é ilusória. Em ambos, o que produz a ordem (ou o que quer que seja aquilo) é uma agência sem sujeito. A diferença está no tipo de não-agente. A mão invisível é um quase-sujeito: tem a qualidade da intenção sem ter intenção, conduz e beneficia como se alguém estivesse no comando, mas ninguém está. É uma simulação de subjetividade. A Vontade é um quase-força: tem a qualidade do impulso sem ter impulso determinado, quer e insiste sem saber nem se importar. É uma simulação de causalidade sem finalidade. Uma parece um sujeito sem sujeito. A outra parece uma força sem força. As duas produzem efeitos universais sem origem explicada — e é aí que o seu paralelo, se me permite, se sustenta melhor do que na comparação doutrinal direta.

E o homo economicus, onde entra nisso? Ele é a figura mais agêntica de toda a teoria social. A economia é a ciência da escolha; o homo economicus é aquele que escolhe. É o agente por excelência. E no entanto tanto Smith quanto Schopenhauer dissolvem a sua agência: Smith fazendo o resultado não ser dele, Schopenhauer fazendo a escolha não ser dele. O homo economicus otimista diz: eu sou o agente, minhas escolhas são reais, e a mão é a garantia de que elas não se perdem. O homo economicus pessimista diz: eu não sou o agente, sou onde a Vontade se torna consciente de si como desejo, e o mercado é onde a Vontade faz suas contas.

No fim, as duas leituras são indistinguíveis na prática. O otimista e o pessimista fazem exatamente as mesmas escolhas, respondem aos mesmos incentivos, pagam a mesma conta. A diferença não está no comportamento, está no comentário interno que acompanha o comportamento. Um diz: que maravilha, o sistema funciona. O outro diz: que maravilha, o sistema funciona, e é justamente isso que me preocupa. Talvez seja por isso que a economia conseguiu expulsar Schopenhauer de si mesma com tanta facilidade: não porque ele estivesse errado, mas porque, do ponto de vista do funcionamento do mercado, tanto faz. A Vontade não se importa com o que você pensa dela. A mão invisível também não.

Resta a escolha narrativa, e essa escolha tem consequências — não para o mercado, mas para quem o habita. O otimista tem uma vida mais leve e uma compreensão mais pobre. O pessimista tem uma compreensão mais rica e uma vida ligeiramente mais pesada. Smith dorme melhor. Schopenhauer escreve melhor. Os dois, no fundo, compraram o mesmo biscoito. E o homo economicus pessimista, ao contrário do que se poderia esperar, não deixa de consumir: ele só deixa de acreditar que o consumo vai resolver alguma coisa. Continua na fila, continua digitando a senha, continua comprando a cerveja de quinta-feira. A diferença é que ele sabe que está na fila. Saber que se está na fila, em geral, não faz a fila andar mais rápido — mas faz o tempo passar de outro jeito.

*Roberto Kiel é engenheiro agrônomo e funcionário do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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