‘Lindão’: Tarcísio de Freitas usou privatização da Sabesp para se aliar a Leite, investigado por envolvimento com PCC

Par Igor Carvalho17/09/2026 às 15:310 vues
O ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite ao lado do prefeito Ricardo Nunes
O ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite ao lado do prefeito Ricardo Nunes
Brasil de Fato

Um evento na Vila Emir, bairro da zona sul de São Paulo (SP), no dia 17 de janeiro de 2024, selou a aliança entre o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o então vereador Milton Leite, que presidia a Câmara Municipal da capital paulista. Era a entrega da primeira fase de implantação da Usina Fotovoltaica Flutuante Araucária.

A obra não era o fato mais importante no evento, que tinha uma grande claque de apoiadores de Leite gritando o nome do vereador e o chamando de “lindo”. Quando pegou o microfone, Tarcísio também não hesitou em elogiar o parlamentar.

“Que o Milton é querido, tudo bem, a gente já sabia. Agora, lindão? Mas é o seguinte: eu estava olhando melhor, Milton. Se é para ganhar o coração do Miltão, é lindão mesmo”, afirmou o governador.

Nesta quinta-feira (17), uma operação contra a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no poder público e no sistema de transporte coletivo atingiu o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite e Danilo Morgado (PL), candidato a deputado estadual pelo partido de Flávio Bolsonaro.

Leite teve a prisão decretada e é considerado foragido pela polícia, enquanto Morgado foi preso. Batizada de Vectura Corrupta, a operação busca cumprir 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão. A ação é realizada pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo.

A investigação identificou 12 empresas de transporte coletivo que seriam controladas, direta ou indiretamente, pelo PCC. Segundo a Polícia Civil, os elementos reunidos apontam para uma possível infiltração da organização criminosa no sistema de transporte público da capital, com atuação de integrantes e intermediários da facção em empresas e procedimentos licitatórios.

A aliança

Os meses que antecederam o encontro na Vila Emir foram de negociações entre Leite, Tarcísio e o prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB). Na pauta, a privatização da Sabesp e as eleições municipais de 2024. O trio não disfarçou que seus interesses pessoais seriam fundamentais para desatar os nós dos assuntos políticos.

A privatização da Sabesp, uma das principais bandeiras da campanha de 2022 de Tarcísio de Freitas, esbarrava em uma cláusula no contrato da estatal com o município de São Paulo. O projeto de venda da empresa de saneamento e fornecimento de água dependia da aprovação da Câmara Municipal. Na posição de presidente da Casa, Leite era o responsável por pautar o plenário e segurava o projeto desde setembro de 2023.

Por outro lado, Leite queria recuperar a influência que teve no Palácio dos Bandeirantes durante os governos de João Doria e Rodrigo Garcia, ambos do PSDB, e participar da escolha do vice na chapa de Ricardo Nunes, que disputaria a reeleição naquele ano.

Meses antes, em outubro de 2023, Leite havia mandado um duro recado para Freitas e Nunes, que trabalhavam pela privatização da Sabesp. “A gente está vendendo a Emae para uma empresa. E estamos vendendo a Sabesp, pelo menos pelo que consigo entender, para uma outra empresa. Veja o antagonismo que nós temos”, disse Leite, que complementou: “O setor empresarial vai ficar maluco com essa situação. Nós não estamos jogando água no chope deles, mas não vamos abrir mão dos direitos da cidade de São Paulo”.

Enquanto usava a privatização da Sabesp para pressionar Nunes e Tarcísio, Leite também jogava com as pretensões do deputado federal Kim Kataguiri, que estava no União Brasil, partido liderado pelo vereador em São Paulo.

Kataguiri pretendia disputar a prefeitura paulistana e Leite usava sua pré-candidatura para ameaçar Nunes, que queria o apoio do União Brasil em São Paulo. O partido tinha sete vereadores e era fundamental para a construção da maioria na Câmara dos Vereadores.

Poder e influência

Além disso, Leite sempre controlou muitos territórios e subprefeituras em São Paulo, o que lhe garantia poder e influência durante os períodos eleitorais. Nunes tinha interesse em trazer para perto o presidente da Câmara e estava disposto a ceder.

Leite conseguiu apoio de Nunes para garantir o vereador Ricardo Teixeira (União) na presidência da Câmara Municipal, mantendo o comando da casa legislativa sob comando de seu partido em São Paulo.

Tarcísio de Freitas garantiu que Leite voltaria a ter influência no Palácio dos Bandeirantes, o que se confirmou com a saída de Gilberto Kassab (PSD) da Casa Civil e a indicação de Arthur Lima, do União Brasil, aliado do ex-vereador.

Após os acordos com Nunes e Tarcísio, Leite tornou célere a tramitação do projeto de privatização da Sabesp na Câmara Municipal e a cláusula que impedia a venda da estatal à iniciativa privada foi derrubada.

A relação se tornou tão estreita que, há 18 dias, durante o lançamento da candidatura dos filhos do ex-vereador, Alexandre Leite, a deputado estadual, e Milton Leite Filho, a deputado federal, Tarcísio elogiou o aliado.

“Assim que nós chegamos em São Paulo, nós fomos abraçados por eles [família Leite], uma parceria enorme, e o tempo todo eu vi a preocupação com as pessoas. Gente que gosta da gente, gente que gosta de vocês”, afirmou Tarcísio de Freitas, que disputa a reeleição para o governo paulista.

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Brasil de Fato
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