Caboclo Mestiço mistura ciranda e eletrônicos em música com mestre Anderson Miguel

Di Fátima Pereira20/09/2026 às 12:0025 visualizzazioni
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Brasil de Fato

O grupo pernambucano Caboclo Mestiço lançou, neste mês de setembro, a música “De Corpo Inteiro”, parceria que reúne a sonoridade eletrônica do projeto à tradição da ciranda da Zona da Mata Norte de Pernambuco. Criado em Olinda pelos artistas Alê Maia e Hamilton Tenório, o grupo conta na faixa com a participação do mestre cirandeiro Anderson Miguel, de Nazaré da Mata, que empresta sua voz à gravação e também aparece no visualizer . A produção foi realizada de forma independente e está disponível nas plataformas digitais.

A música representa uma novidade na trajetória do Caboclo Mestiço, que atua desde 2018. Pela primeira vez, o projeto registra uma composição com assinatura em parceria e aproxima diretamente sua pesquisa musical da experiência de um mestre da cultura popular pernambucana.

A aproximação com Anderson Miguel começou durante um encontro no Engenho Cumbe, na zona rural de Nazaré da Mata, em janeiro deste ano. O local é associado à história do Maracatu Rural Cambinda Brasileira, fundado em 1918 e reconhecido como Patrimônio Vivo de Pernambuco e Ponto de Cultura do Estado.

Segundo Hamilton Tenório, o encontro aconteceu durante as celebrações pelos 108 anos do Cambinda Brasileira. Na ocasião, Anderson Miguel demonstrou interesse pela proposta de registrar uma ciranda com o grupo.

“Foi justamente neste ano de 2026, na celebração dos 108 anos de existência do Maracatu Rural Cambinda Brasileira, no mês de janeiro. Naquele momento, houve uma admiração de Anderson Miguel em relação à proposta de gravar uma ciranda, diante de tantas vivências desse mestre, que cresceu no terreiro de Maracatu de Baque Solto. Ele também representa a tecnologia popular, abrindo diálogo com outras linguagens musicais que estão enraizadas nas tradições culturais de Pernambuco”, conta Hamilton.

A presença de Anderson também amplia uma trajetória que já inclui colaborações com artistas de diferentes vertentes da música brasileira, como Juçara Marçal, Clarianas, Jorge Du Peixe e Lenine. O cirandeiro lançou seu primeiro álbum em 2018 e mantém em seu trabalho a relação com as tradições da Zona da Mata Norte.

“Entrei de corpo inteiro. O nome dessa canção do grupo Caboclo Mestiço já diz tudo. Levo sempre a Zona da Mata Norte de Pernambuco e ao mesmo tempo entro e sinto estilos musicais diversos e diferentes da minha região. Acredito na arte, poesia e histórias. É um reencontro porque a gente se encontrou no Engenho Cumbe. O reflexo disso é o acolhimento musical e a mistura dos ritmos”, afirma Anderson Miguel.

Composição de Alê Maia, “De Corpo Inteiro” parte da ciranda para construir uma sonoridade que incorpora instrumentos de sopro, percussão e bases eletrônicas. Para o Caboclo Mestiço, a combinação faz parte de uma pesquisa que procura aproximar elementos da música popular pernambucana de outras linguagens contemporâneas.

“A raiz sonora da canção é a ciranda, que em seu entorno encaixa com instrumentais eletrônicos, sendo essa união a responsável pela materialização fonográfica que se apresenta nesta nova música”, explica Hamilton.

A letra estabelece uma relação entre a dança, o movimento das águas e a experiência de viver no território latino-americano. O início da composição apresenta os versos “Trago a ciranda/Pra ver o dia/Balanço o corpo/Como a maré faz com o mar” e, ao longo da música, surgem imagens relacionadas aos rios, mares, chuva e natureza.

Em outro trecho, Alê Maia escreve: “Aproveito a vida/Sem deixar para amanhã/Vou de corpo inteiro/Peito aberto e emoção”. A composição também faz referência à América do Sul ao mencionar “Canto de sereia/Boto Rosa, Céu azul/Canto Rios e Mares/Pela América do Sul”.

Para Alê, a escolha da ciranda também está relacionada à preservação de uma manifestação reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

“A ciranda ‘De Corpo Inteiro’ leva a sua contribuição para a conservação, fortalecimento e continuidade desse ritmo popular que é Patrimônio Cultural do Brasil, registrado pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)”, destaca.

Além de Alê Maia, Hamilton Tenório e Anderson Miguel, a gravação reuniu outros músicos pernambucanos. Participam Luiza Roberta, no trombone; Peu Drums, na percussão; maestro Nilsinho Amarante, no trombone e nos arranjos de sopro; e Enok Chagas, no trompete.

Natural de Nazaré da Mata, Nilsinho Amarante construiu uma trajetória ligada tanto à música popular quanto à cultura pernambucana, com trabalhos ao lado de nomes como Spokfrevo Orquestra, Elba Ramalho, Alceu Valença, Fagner, Naná Vasconcelos, Banda Eddie, Silvério Pessoa, Lula Queiroga e Antônio Nóbrega.

“Houve a liberdade de tocar trompete e trombone, lembrando que na ciranda a tradição é do trompete. A gente coloca na canção essa atmosfera da ciranda de Pernambuco, somada aos eletrônicos, com a harmonia e a propriedade dos instrumentos de sopro, conhecidos como metais”, explica o maestro.

As gravações foram realizadas em Olinda, na Toca do Lobo Records, em Bairro Novo, e no HT Estúdio, na Cidade Tabajara. Tiago Gadelha fez a captação das vozes, sopros e percussão. A mixagem e a masterização ficaram a cargo de Leo D.

O lançamento também ganhou um visualizer com imagens e edição de Thiago Barros, responsável ainda pela fotografia da capa. A produção e direção são de Alê Maia e Hamilton Tenório, com participação de Anderson Miguel nas imagens.

Formado a partir do encontro de Alê Maia e Hamilton Tenório durante o curso de produção fonográfica da Associação de Ensino Superior de Olinda (AESO), o Caboclo Mestiço iniciou sua trajetória fonográfica em 2019, com um EP homônimo. Em 2023, lançou o álbum “Sistema Sonoro”, com dez faixas.

Desde então, o grupo também lançou músicas como “Rua do Amanhecer” e “Maria Índia”, em 2024; “Brilho no Rosto” e “Preto Sem Rei”, em 2025; e “Pela Brisa do Mar”, em 2026, que antecedeu “De Corpo Inteiro”.

A dupla responsável pelo projeto reúne referências da cultura popular e da música contemporânea na criação das obras. Hamilton também traz para a pesquisa do grupo experiências relacionadas ao Lamento Negro, movimento e grupo cultural de Peixinhos, em Olinda, e ao Daruê Malungo, espaço dedicado à arte e à cultura afro-indígena na Zona Norte do Recife.

Ao longo da trajetória, o Caboclo Mestiço já passou por eventos e espaços culturais de Pernambuco, incluindo o Festival de Inverno de Garanhuns, a Fenearte e programações do Carnaval do Recife e de Olinda.

Para Alê Maia, a relação com as tradições populares é parte central da identidade do projeto. “O respeito à tradição dos ritmos da cultura popular está no conceito artístico da produção fonográfica da banda Caboclo Mestiço. Isso porque acreditamos nos elementos tradicionais e suas representatividades que definem a estrutura histórica da música brasileira, sobretudo no Nordeste, onde encontramos as referências que levamos como essência e identidade das obras”, afirma.

Fonte
Brasil de Fato
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