O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixou de lado a moderação no discurso feito nesta terça-feira (22) durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. O republicano foi a segunda liderança internacional a discursar no evento, logo após o presidente Lula (PT), e dedicou a maior parte do tempo na tribuna para falar do próprio governo, tecendo críticas às principais instituições do multilateralismo. O aspecto geral da fala, como de hábito, foi de desalinhamento dos argumentos de Trump com a realidade concreta do mundo.
O discurso foi marcado por ameaças ao Irã, ao que Trump disse que poderia “aniquilar para o inferno”; negação da crise climática, afirmando que o mundo “está mais frio e ninguém morreu”; e rechaço às tentativas de regulamentação sobre a inteligência artificial, dizendo que “os Estados Unidos abraçam o mundo da superinteligência”.
Críticas ao Irã
Trump voltou a dizer que o Irã “nunca terá uma arma nuclear”, afirmando que seu governo teria “uma grande decisão pela frente”, mas não anunciou o que exatamente seria decidido. “Um acordo será feito com o Irã para que eles consigam reconstruir um grande país, como já foi antes, talvez um dos maiores países no Oriente Médio, ou será que eu tenho que aniquilar a República Islâmica para o inferno rapidamente? Vamos tentar fazer um acordo logo após as eleições”, falando do pleito de meio de mandato nos EUA, marcado para o dia 3 de novembro.
O discurso serviu para conformar a política externa estadunidense, marcada pela pressão constante a aliados históricos, tentativas de contenção da expansão econômica e geopolítica da China e farto uso de tarifas alfandegárias. Segundo Trump, a prática é baseada em ação direta. “Enquanto outros falavam, eu agi. Enquanto outros falavam de paz, eu fiz a paz”, disse o republicano. Os EUA, entretanto, continuam em guerra com o Irã.
Apesar de citar uma hipotética calmaria na relação entre os países, o discurso de Trump foi marcado pelo tom bélico. O mandatário não hesitou ao celebrar o uso do poderio militar estadunidense no hemisfério ocidental. “Nossas ações na Venezuela são uma prova de que os Estados Unidos não permitirão mais que ameaças contra a América criem uma base de apoio em qualquer lugar do Hemisfério Ocidental e, se necessário, usaremos nosso poderio militar incomparável para proteger nossos interesses nacionais vitais”, mencionou. Ao falar sobre o país latino-americano, Trump lançou mão de uma frase de efeito: “Aos vencedores, os despojos”. No discurso, o republicano negou que a guerra no Oriente Médio tenha esgotado as reservas de munições estratégicas dos EUA.
“Lançamos o poder das Forças Armadas dos EUA para eliminar gangues e cartéis de drogas sangrentos. Os cartéis são o Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental”, afirmou. Lula, por sua vez, disse que o governo brasileiro tem agido para combater o crime organizado e rechaçou qualquer tentativa de interferência estrangeira nesse sentido.
Apesar da abordagem conflituosa, Trump, desta vez, não fez tantas críticas à Europa, como vinha fazendo nos últimos meses. Entretanto, o estadunidense falou sobre uma “fronteira norte”, criando uma nova expressão para se referir à Groenlândia. Sem apresentar qualquer detalhe, o mandatário disse que os EUA chegaram a um “acordo sem precedentes” com a Dinamarca, e que assinaria o acerto em breve. Nas palavras de Trump, o acordo “dá aos EUA controle permanente sobre a segurança e todas as necessidades naquele território”.
Inteligência artificial
Trump, que chegou a abrir uma enquete nas redes sociais para mudar o nome da inteligência artificial, aproveitou o tempo na Assembleia da ONU para dizer que haveria um temor desnecessário sobre a tecnologia. Ele comparou, sem apresentar fundamentos, com o debate sobre meio ambiente.
“As mesmas pessoas que disseram que todos morreríamos em 12 anos por causa do aquecimento global, um nome que renasceu para mudança climática porque o planeta estava esfriando, não aquecendo, e ninguém havia morrido”, afirmou. “Não vou sufocar o crescimento de algo que será maior do que a revolução industrial, muitos dizem que maior do que a revolução industrial ou a própria internet”, explicou. Nesta semana, o republicano recebe o presidente da China, Xi Jinping, em Washington, e a IA deve estar no centro da pauta.
