


Quando se fala em fundos patrimoniais universitários, a imagem que vem à mente é a das gigantes norte-americanas. Os 658 fundos ligados a faculdades e universidades dos Estados Unidos somam quase US$ 874 bilhões, algo próximo de R$ 5 trilhões. Só Harvard concentra cerca de US$ 50 bilhões, mais do que muitos orçamentos nacionais.
Nessa comparação, o Fundo Patrimonial da USP parece modesto. Lançado em 2021, hoje administra um patrimônio da ordem de R$ 23 milhões, com doações imobiliárias recentes que devem mais que dobrar esse valor. Mas o tamanho diz pouco. O que importa é quanto cada real acumulado devolve à sociedade, e nesse ponto o fundo da USP tem um alcance importante.
Para que serve
Um fundo patrimonial complementa o financiamento público, sem substituí-lo. Oferece uma fonte de recursos estável, imune aos ciclos políticos e orçamentários, capaz de sustentar projetos que exigem horizonte longo, justamente aqueles que um orçamento anual tem dificuldade de garantir.
Na USP, o primeiro destino desses recursos é a permanência estudantil. O gargalo do ensino superior brasileiro vai além do acesso e inclui a permanência. A taxa de evasão no País supera 50%, e entre os motivos mais citados por quem abandona os estudos estão as dificuldades financeiras. Na maioria dos casos, são jovens capazes e interessados que, diante da necessidade de trabalhar, de se sustentar ou de sustentar a família, simplesmente não conseguem se manter até a formatura.
Numa universidade gratuita, o ensino já está pago. O Estado custeia professores, laboratórios e infraestrutura, a parte cara da formação. O que falta a muitos estudantes de baixa renda é a última milha, ou seja, moradia, alimentação, transporte e material. Um valor modesto perto do custo total de uma graduação, mas que decide entre concluir e desistir.
É sobre essa ponte que atuam os rendimentos do fundo. Por meio do Programa USP Diversa, seu primeiro subfundo de propósito específico, o Fundo Patrimonial financia bolsas de permanência a estudantes egressos do ensino público e a alunos pretos, pardos e indígenas em situação de vulnerabilidade socioeconômica. O USP Diversa complementa a política de permanência da própria Universidade e alcança estudantes que, de outro modo, ficariam sem apoio. Lançado com um aporte inicial de R$ 5 milhões, já é considerado o maior fundo de bolsas-permanência do País.
No modelo americano, boa parte do esforço filantrópico é destinada a bolsas que precisam cobrir mensalidades de dezenas de milhares de dólares por ano em instituições privadas. Cada dólar doado, por mais bem-intencionado que seja, precisa primeiro pagar o ensino, que é extremamente caro, antes de chegar ao estudante. Doa-se muito para financiar o acesso a um sistema estruturalmente oneroso.
No Brasil, o real doado entra numa engrenagem diferente. Como o ensino público já é gratuito, o recurso filantrópico dispensa o custeio da formação e vai direto ao ponto de estrangulamento social, que é a permanência. O resultado é uma alavancagem social estruturalmente maior. O mesmo montante que, nos Estados Unidos, cobriria a mensalidade de um punhado de estudantes, no Brasil sustenta a permanência de muitos, precisamente porque o Estado já arcou com a parte mais custosa.
Como funciona
No Brasil, os fundos patrimoniais ganharam segurança jurídica com a Lei nº 13.800, de 2019, que regulamentou sua criação e gestão. Desde então, o número de iniciativas ligadas a universidades saltou de oito para quase quatro dezenas. O Fundo Patrimonial da USP nasceu nesse movimento.
Sua governança é independente e transparente. O Conselho de Administração é composto majoritariamente de professores e profissionais que atuam de forma voluntária, sem remuneração. As regras de investimento são estritas e priorizam a preservação do patrimônio no longo prazo.
Na prática, o fundo funciona como uma poupança perpétua da instituição. As doações que recebe formam um patrimônio que não pode ser gasto. Apenas os rendimentos desse patrimônio financiam projetos, aplicados por meio de subfundos de propósito específico, como o Fundo USP Diversa. Preserva-se o principal, gasta-se o fruto. É o que garante que uma doação feita hoje continue beneficiando estudantes daqui a vinte, cinquenta ou cem anos.
O que muda
Em 2024, mais da metade dos ingressantes da USP fez todo o ensino médio em escola pública, e metade desses se declarou preta, parda ou indígena. É entre eles que a evasão mais pesa, sobretudo nos dois primeiros anos de curso, exatamente onde a bolsa de permanência faz diferença.
O USP Diversa nasceu de um piloto que começou em 2018, quando 90 estudantes de escola pública, pretos, pardos ou indígenas, passaram a receber uma bolsa mensal para se manter no curso. Dois anos depois, 1.699 dos 11.035 ingressantes daquela turma já tinham deixado a graduação. Dos 90 bolsistas, apenas dois abandonaram. Além disso, os bolsistas tinham entrado na USP com notas mais baixas no vestibular e, ao longo dos semestres, chegaram ao mesmo nível de desempenho dos demais alunos. A pesquisadora que acompanhou o grupo evita creditar tudo à bolsa, e a cautela é justa. Ainda assim, o número fala por si. O acompanhamento dos mais de 16 mil estudantes que hoje recebem o auxílio de permanência da Universidade aponta na mesma direção, com menos evasão e conclusão de curso em pé de igualdade com os demais.
Muitos desses estudantes são os primeiros da família a cursar o ensino superior. Para eles, concluir o curso e alcançar as oportunidades que a universidade abre é o que separa repetir uma trajetória de desigualdade de romper com ela. Um jovem que se forma em vez de evadir muda a própria vida, e muda mais do que isso. Torna-se referência para irmãos, para os pais, para uma comunidade inteira, para quem a universidade deixa de ser um mundo distante e reservado à elite e passa a ser um caminho possível. Amplia a diversidade nos espaços de decisão do País. E, ao longo de décadas de vida profissional, retribui à sociedade e, muitas vezes, se torna ele próprio um doador.
A USP formou gerações de profissionais que hoje ocupam posições de destaque na sociedade brasileira. O fundo oferece a eles, e a qualquer pessoa ou empresa, um modo de estender a mesma oportunidade, de forma permanente, a quem vem depois.
Pequeno no tamanho, sim. Mas, no alcance social, um gigante em potencial. Cada doação de hoje decide o tamanho que ele terá amanhã.
Visite o site do Fundo Patrimonial da USP e saiba mais.
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