Os amigos mortos

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14/09/2026 às 23:040 조회
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Jornal da USP

Por Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da USP

 Publicado: 14/09/2026 às 20:04

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Há vários anos, percebi que convivo diariamente com pessoas que já morreram. Algumas delas desapareceram há séculos. Outras, há poucas décadas. Ainda assim, continuam presentes no meu cotidiano de maneira surpreendentemente concreta. Converso com elas quase todos os dias.

Não me refiro a nenhuma experiência sobrenatural. Refiro-me aos livros. Entre meus amigos mortos estão, por exemplo, Umberto Eco, Jorge Luis Borges, Sigmund Freud e, mais recentemente, Edgar Morin. Nunca os conheci pessoalmente. Em alguns casos, nasci quando eles já eram figuras consagradas; em outros, sequer compartilhamos o mesmo tempo histórico. Ainda assim, suas ideias passaram a habitar meu modo de pensar. Quando escrevo um artigo, preparo uma aula ou tento compreender um problema novo, frequentemente me pergunto como cada um o veria. Nem sempre concordo com suas respostas. Às vezes, passo meses discordando delas. Mas, justamente por isso, continuo voltando a conversar com eles.

Talvez amizade seja exatamente isso. Não a concordância permanente, mas a disposição para manter um diálogo ao longo do tempo.

Durante muito tempo, imaginei que a morte representasse uma interrupção definitiva. A biologia continua a afirmar que a morte encerra o funcionamento de um organismo. O cérebro deixa de operar. As células perdem a capacidade de manter sua organização. O indivíduo desaparece.

Entretanto, algo curioso acontece quando olhamos para a cultura. As ideias sobrevivem aos organismos que as produziram. Mais do que isso: continuam a gerar novas ideias. Umberto Eco jamais leu os artigos que escrevo hoje (e talvez nunca os lesse se estivesse vivo), mas parte das perguntas que faço nasceu de perguntas que ele formulou décadas atrás. Borges não conheceu a biologia molecular moderna, mas sua maneira de pensar o infinito e as possibilidades continua reorganizando meu pensamento. Freud permanece presente muito além da psicanálise. Morin continua ensinando novas gerações a pensar em sistemas complexos. Nesse sentido, eles ainda trabalham. Talvez isso pareça apenas uma metáfora. Mas, de fato, não estou certo de que seja.

Quando lemos um livro, não apenas absorvemos informações. Incorporamos formas de organizar o pensamento. As redes neurais de alguém que já morreu, mas deixou suas expressões por escrito, passam a habitar nossas redes. Aí começamos a enxergar determinados problemas de maneira diferente. Aos poucos, essas redes neurais se tornam tão entronizadas em nós que já não percebemos que vieram de fora. Elas se tornam parte da nossa própria identidade intelectual. O autor deixa de estar apenas na estante e passa a influenciar, discretamente, nossa maneira de interpretar o mundo. De certa forma, é como se aquele amigo morto continuasse a ver o mundo através de nós.

Curiosamente, esse processo se assemelha muito ao funcionamento da própria evolução. Cada geração recebe uma herança genética construída ao longo de inúmeras gerações anteriores. Nenhum organismo começa do zero. Cada um nasce apoiado sobre uma história biológica muito mais antiga do que ele próprio. A cultura faz algo semelhante. Recebemos uma herança intelectual produzida por pessoas que jamais conheceremos. Cada livro importante representa uma forma de memória que atravessa o tempo e continua a reorganizar cérebros muito depois da morte de seu autor.

Essa talvez seja uma das formas mais profundas de transcendência.

Como reiterado nesta série, não há permanência de um indivíduo como consciência separada do mundo. Tampouco uma negação da morte biológica. O que atravessa o tempo não é o organismo, mas sim certos padrões de organização capazes de continuar produzindo efeitos em outros organismos.

Na série anterior, procurei mostrar que as instituições funcionam como sistemas de memória coletiva. Conservam experiências acumuladas e permitem que as sociedades aprendam ao longo das gerações. Os livros talvez sejam a manifestação mais íntima desse mesmo fenômeno. Eles permitem que uma conversa continue mesmo depois que um dos interlocutores já não está presente. Da mesma forma, as instituições são permeadas por indivíduos, baseadas em livros e cuja estrutura vai mudando numa dinâmica influenciada pelo contexto da sociedade.

O escritor argentino Jorge Luis Borges, em um de seus contos, concebeu uma biblioteca que contivesse todos os livros possíveis: a Biblioteca de Babel. Naquele universo imaginário, existem todos os textos possíveis, inclusive este que você está lendo agora. Cada combinação de letras já está escrita em algum lugar. Em outro conto, chamado O jardim dos caminhos que se bifurcam, Borges imagina um labirinto em que cada decisão abre novos caminhos, e todos continuam coexistindo. Durante muito tempo, li esses contos (ou ensaios ficcionais) como exercícios de imaginação literária.

Hoje começo a suspeitar que também descrevem algo sobre a própria cultura. Vivemos cercados por um número quase infinito de ideias possíveis, mas apenas algumas são efetivamente escolhidas, desenvolvidas e transmitidas. Cada autor que lemos representa um caminho que alguém percorreu nesse imenso labirinto.

Talvez seja por isso que chamamos alguns deles de clássicos. Não porque tenham encerrado uma discussão, mas porque continuam a gerar novas bifurcações.

Começo então a desconfiar de que a transcendência talvez não seja um acontecimento extraordinário reservado a poucos momentos da existência. Talvez ela esteja presente sempre que uma organização consegue sobreviver ao organismo que a produziu. A linguagem faz isso. A ciência faz isso. A arte faz isso. As instituições fazem isso. E, às vezes, uma amizade também.

No fim das contas, talvez todos nós tenhamos alguns amigos mortos. Eles não respondem diretamente quando fazemos uma pergunta. Muitas vezes, a resposta já está nos seus textos. É uma questão de achá-la. É como começar a olhar livros na Biblioteca de Babel, lê-los e decidir qual o próximo a ler, como se estivéssemos num dos caminhos bifurcantes de Borges.

Caleidoscópio

Ao terminar a série, deixo mais um texto sobre a morte. Mais pessoal, mas, ao mesmo tempo, parte da história de cada um de nós. Aqui há um grau a mais. É como girar o caleidoscópio e olhar para o aprendizado coletivo sob outra perspectiva. Grato por ler a série.

Micro-história

Quando cheguei, cumprimentei vários amigos. Conversavam alegremente, contando histórias antigas e recentes. Ouviam-se risos, às vezes gargalhadas. Fui direto até a sala onde ele estava.

Lá estava, deitado. O nariz, sempre adunco e afilado, parecia ainda mais fino. As bochechas haviam emagrecido. As mãos repousavam sobre o peito, os dedos entrelaçados. Toquei sua mão. Estava fria, gelada. Já não havia mais ninguém ali.

Permaneci alguns instantes em silêncio. Vieram-me à memória as inúmeras conversas que tivemos ao longo da vida. Quantas vezes concordamos. Quantas vezes discutimos. Quantas vezes um convenceu o outro, ou talvez nenhum dos dois tenha convencido, mas ambos tenham saído da conversa diferentes.

Foi então que percebi que ele não estava, de fato, ausente. As ideias que havia deixado em mim continuavam vivas. Eram como cicatrizes: marcas permanentes de encontros que transformam quem somos. Eu as levaria comigo pelo resto da vida.

Talvez um dia alguém entre em uma sala semelhante para se despedir de mim. Talvez segure minha mão já fria e, sem perceber, carregue consigo algumas das marcas que deixei. Se isso acontecer, parte de mim continuará caminhando pelo mundo. E eu compreenderei, finalmente, que a transcendência não pertence aos indivíduos. Ela pertence às ideias, aos afetos e às transformações que transmitimos adiante, de pessoa em pessoa, ao longo das gerações.

Esta é uma homenagem ao meu querido amigo José Teixeira Coelho Netto, Professor Emérito da Escola de Comunicações e Artes da USP e um dos mais importantes pensadores brasileiros da cultura.

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