Coletivo Katihirene lança mapeamento do cinema das mulheres indígenas no Festival de Brasília

Di Júlio Camargo18/09/2026 às 22:5056 visualizzazioni
Larissa Tukano, Barbara Matias Kariri e Moiara Kaxuyana no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Larissa Tukano, Barbara Matias Kariri e Moiara Kaxuyana no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Brasil de Fato

Quantas línguas cabem no cinema brasileiro? Essa provocação faz parte da apresentação da rede audiovisual das mulheres indígenas Katahirine e sintetiza a urgência e o pioneirismo do coletivo. O trabalho do grupo e o levantamento de informações foram sintetizados no livro “Ler o vento, filmar o mundo: Pesquisa-mapeamento do cinema das mulheres indígenas no Brasil”, lançado durante o 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, sediado no Cine Brasília.

A pesquisa ouviu 60 realizadoras de 40 povos indígenas, falantes de 35 línguas originárias e procedentes de todas as regiões do país. O resultado traz um diagnóstico aprofundado sobre a presença e a circulação dessas cineastas, que são ao mesmo tempo uma realidade vibrante nas telas nacionais e internacionais, mas encontram gargalos estruturais, linguagens excludentes e barreiras burocráticas no acesso a financiamento.

Katahirine: a rede, a pesquisa e o livro

Na língua do povo Manchineri, Katahirine significa “constelação”. A metáfora traduz a essência da Rede e sua articulação plural voltada ao apoio mútuo, à visibilidade e à autonomia de realizadoras originárias em todo o país. Mais do que uma organização coletiva, a rede constitui um território de acolhimento e fortalecimento de narrativas, integrando a força do coletivo com a singularidade e o protagonismo de cada cineasta.

A agrupação é formada por mulheres do audiovisual com raízes fincadas em seus territórios ancestrais. Hoje, a Rede Katahirine reúne 92 cineastas, falantes de 30 línguas indígenas, abrangendo 48 povos do Brasil e três de nações vizinhas — Bolívia, Chile e Equador. Essa constelação atravessa a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica, a Caatinga e o Pampa, levando narrativas e presenças que atuam nas próprias comunidades e ecoam no mundo não indígena.

Esse movimento nasceu de pé no chão, durante um encontro de realizadoras indígenas no Acre, em 2022. Na ocasião, o Instituto Catitu — instituição pioneira na formação e no estímulo à produção audiovisual feminina indígena — compartilhou a semente da criação de uma rede própria. A partir dali, gerida e construída a muitas mãos, a constelação ganhou corpo.

Larissa Tukano apresenta o livro “Ler o vento, filmar o mundo: Pesquisa-mapeamento do cinema das mulheres indígenas no Brasil” |
Larissa Tukano apresenta o livro “Ler o vento, filmar o mundo: Pesquisa-mapeamento do cinema das mulheres indígenas no Brasil” | — Júlio Camargo/Brasil de Fato DF
Larissa Tukano apresenta o livro “Ler o vento, filmar o mundo: Pesquisa-mapeamento do cinema das mulheres indígenas no Brasil” | Crédito: Júlio Camargo/Brasil de Fato DF

De acordo com a cineasta e comunicadora Moiara Kaxuyana, a elaboração do livro “Ler o vento” partiu de um amplo processo de pesquisa-mapeamento voltado a identificar a realidade e a pluralidade das realizadoras originárias no Brasil. Moiara é oriunda dos povos Kaxuyana e Tiriyó, do Território Indígena Parque do Tumucumaque e natural de Macapá (AP). Ela reside em Brasília desde 2009 e dirigiu o curta “Eu sou Kaxuyana” (2021).

Ela ressalta que o estudo nasce com o compromisso de não reduzir as entrevistadas a estatísticas frias. “Afinal de contas, a gente não está falando de números. A gente está falando de mulheres, de mães, de benzedeiras, de líderes comunitárias, que se encontram nessa pluralidade de etnias, de territórios, de povos, de línguas, uma prática em comum. E essa prática é o cinema”, resume.

Circulação do cinema originário

Os dados levantados também expõem a forma como o audiovisual se insere nas dinâmicas territoriais e as barreiras que cercam sua difusão. Moiara afirma que “mais de 73% dessas mulheres atuam profissionalmente no setor, mas sem desvincular a câmera de suas responsabilidades comunitárias e da urgência de registrar saberes ancestrais”.

Segundo Moiara, o estudo revela um paradoxo no eixo dedicado à circulação, pois, embora cerca de 81% das realizadoras já tenham exibido suas produções em festivais e mostras, 61% relatam não dominar os trâmites de inscrição em editais e eventos competitivos, “em grande parte pela barreira da língua portuguesa, pela falta de internet e pela burocracia documental”.

Para ela, esse descompasso reafirma que a circulação do cinema originário obedece a outra lógica. As exibições nas próprias aldeias caminham lado a lado com os grandes festivais, consolidando um cinema que, longe de visar apenas ao mercado, busca quebrar preconceitos históricos e fortalecer a memória viva de seus povos.

“O compartilhar no território, devolver as imagens para o povo que fez com que esse filme fosse possível de ser feito é a nossa prioridade máxima. Enquanto cineasta, é ter essa devolutiva”, afirma.

Cinema indígena feito por mulheres emerge de diferentes territórios, ecologias, histórias e contextos |
Cinema indígena feito por mulheres emerge de diferentes territórios, ecologias, histórias e contextos | — Júlio Camargo/Brasil de Fato DF
Cinema indígena feito por mulheres emerge de diferentes territórios, ecologias, histórias e contextos | Crédito: Júlio Camargo/Brasil de Fato DF

A fundadora do Instituto Catitu e única não-indígena idealizadora da Rede Katahirine, Mari Corrêa é educadora com trajetória no audiovisual desde 1988 e atuação junto a comunidades indígenas iniciada em 1992. Ela informa que o coletivo abriu espaço para a inclusão das cineastas no grupo com “entrevistas aprofundadas conduzidas pelas próprias mulheres da rede e com duração média de duas a três horas cada. O roteiro abordou desde a caracterização de perfil até eixos críticos como formação artística, modos de criação, circulação das obras, gargalos de fomento e a salvaguarda de acervos”.

As cineastas indígenas estão presentes em diferentes biomas, com maior concentração na Mata Atlântica (35%) e na Amazônia (31,7%), seguidas pelo Cerrado (18,3%), Caatinga (13,3%) e Pampa (1,7%). Quanto à moradia, 53,3% vivem em aldeias, 40% em cidades e 6,7% transitam entre os dois espaços, evidenciando a diversidade territorial e os diferentes contextos de produção audiovisual indígena.

Segundo o livro, esses dados ressaltam o fato de que “a distribuição territorial desfaz outra imagem simplificadora: a de que as cineastas indígenas viveriam em territórios remotos ou, ao contrário, seriam todas urbanizadas, a partir de um entendimento equivocado de que, para acessar equipamentos audiovisuais, seria preciso viver em grandes centros urbanos. A realidade territorial das cineastas indígenas é mais complexa e mais viva, pois o fato de morar na aldeia não significa estar apartada, e morar na cidade não implica, necessariamente, afastamento da comunidade”.

Rompendo barreiras

Para Mari Corrêa, a produção sistemática de indicadores é o único caminho viável para romper a barreira da invisibilidade e exigir transformações reais no setor cinematográfico, pois a sistematização das respostas permitiu mensurar a realidade de um setor historicamente subnotificado. A iniciativa foi desenvolvida pelas mulheres indígenas em conjunto com profissionais não indígenas parceiras. 

“E a gente sabe a pouca visibilidade que têm essas produções dos cineastas e das cineastas indígenas, e é preciso que o Estado enxergue esse grupo do cinema brasileiro, não há políticas públicas sem dados”, aponta. Ao fundamentar as demandas em estatísticas sólidas, o mapeamento busca subsidiar tomadores de decisão, comissões de seleção e gestores públicos com diagnósticos precisos sobre onde e como investir, indo além de mecanismos paliativos.

Mari Corrêa, cineasta e educadora |
Mari Corrêa, cineasta e educadora | — Júlio Camargo/Brasil de Fato DF
Mari Corrêa, cineasta e educadora | Crédito: Júlio Camargo/Brasil de Fato DF

“Olhem aqui como está essa questão da formação, olhem aqui como está a questão da produção, ou seja, deixar mais claro como é pensado e feito esse cinema, para as pessoas entenderem que precisa de políticas públicas que funcionem para esse cinema. A gente fala muito dessa questão de cotas, mas não é o suficiente, tem questões que vêm antes”, enfatiza a fundadora do Catitu.

Segundo o livro, entre as cineastas entrevistadas, 58,3% são mães, enquanto 28,33% afirmam não viajar sozinhas, dependendo da companhia de familiares, especialmente filhos e netos, para sair de seus territórios. Em relação ao estado civil, 48,3% são solteiras e 41,7% são casadas ou vivem em união estável. Os dados evidenciam como responsabilidades familiares e redes de parentesco influenciam as condições de produção e circulação dessas mulheres no audiovisual.

Quanto à faixa etária, 46,7% das cineastas têm entre 30 e 39 anos, e 65% têm 30 anos ou mais. Segundo a pesquisa, essa concentração está relacionada à trajetória do cinema indígena brasileiro e às oficinas de formação audiovisual realizadas nas últimas três décadas, que contribuíram para a formação das primeiras gerações de mulheres indígenas produtoras de suas próprias imagens.

Cinema indígena feminino

O trabalho da Rede Katahirine também envolve a elaboração de diretrizes para um audiovisual ético com povos indígenas para propor relações mais justas e respeitosas entre as aldeias e instituições, festivais, curadorias, produtoras e profissionais do setor audiovisual. Essa parte da publicação nasce das experiências vividas por mulheres indígenas em produções, festivais e curadorias.

Segundo Mari, “o documento reúne orientações direcionadas para profissionais e organizações do setor audiovisual com a proposta de prevenir práticas discriminatórias, exploratórias e desiguais e estimular parcerias baseadas na escuta, no cuidado, na reciprocidade, no consentimento, na remuneração justa e no reconhecimento dos modos indígenas de fazer e pensar o cinema nas suas formas de viver”.

Mari Corrêa parafraseia a antropóloga e fotógrafa Francy Baniwa para descrever a particularidade indígena produzir cinema:

“Crescemos aprendendo a ler o vento antes de ler livros. Aprendemos a ler as constelações antes de conhecer o calendário. A decifrar o canto dos pássaros antes de decifrar o alfabeto. Nosso cinema nasce dessa percepção ancestral e vítima do Brasil. As mulheres dos territórios indígenas têm olhares diferentes e únicos. O que vemos com os olhos de quem cuida, de quem preserva, de quem guarda, de quem transmite. E esse olhar levado para as telas transforma o próprio cinema. Para nós, o cinema raramente pertence a uma só pessoa. Ele pertence à comunidade que o viveu e ao território que o inspirou. Nós somos como as famílias, somos muitas e sempre andamos juntas. O que nossas avós faziam com a palavra o canto, com o canto, nós também fazemos com a imagem.”

A multiartista Barbara Matias Kariri é diretora de filmes documentais e ficcionais como “Santa Pedra” (2020), Corpo Memória Submersa” (2021), “O que me leva não é mercadoria de bolso” (2022). Para ela, a relação com o cinema produzido na perspectiva indígena é uma forma de apropriação e “passa a ser um instrumento para documentar, para expor as violências, além de servir como um exercício de autoestima e também provocação à linguagem cinematográfica”.

Barbara Matias Kariri é coordenadora e conselheira da Rede Katahirine |
Barbara Matias Kariri é coordenadora e conselheira da Rede Katahirine | — Júlio Camargo/Brasil de Fato DF
Barbara Matias Kariri é coordenadora e conselheira da Rede Katahirine | Crédito: Júlio Camargo/Brasil de Fato DF

“A câmera, ao contrário do milho, não faz parte do nosso terreiro e da nossa estrutura enquanto realidade de vida. Mas a câmera, assim como o cavalo para os Mapuche, que é uma etnia indígena do Chile, entra nas nossas aldeias. A gente luta com a câmera, assim como os mapuches fizeram com os cavalos”, destaca Barbara, oriunda do povo Kariri, nascida na comunidade do Marreco, no Ceará, doutora em Artes pela UFMG e coordenadora e conselheira da Rede Katahirine.

Ela aponta que o cinema indígena não constitui uma categoria homogênea, mas reúne diferentes formas de criação vinculadas aos modos de vida e aos territórios de cada povo. Para ela, uma das características desse audiovisual está no processo de adaptação de práticas culturais para a linguagem cinematográfica. Essa perspectiva também se manifesta na escolha das narrativas, na valorização da oralidade e na construção coletiva dos filmes, que podem envolver diversas pessoas na direção e na criação. “Os povos indígenas também vão artesanando o seu modo de criar também cinema”, afirma.

Esse modo de produção também está relacionado à temporalidade, à espiritualidade e à relação com os territórios. Barbara explica que as realizadoras trabalham respeitando o ritmo das comunidades, que inclui atividades como roça, pesca e convivência familiar, e não segue necessariamente o tempo acelerado da produção cinematográfica convencional. Em alguns casos, o processo começa com práticas espirituais: “Antes de começar com algum trabalho, temos que fazer uma reza que limpa a nossa alma”, relata.

Para a cineasta, essas dimensões também produzem uma estética própria, presente no enquadramento, na oralidade e na maneira de contar histórias. “A oralidade é um recurso estético que é muito da natureza das comunidades indígenas”, afirma.

Cineastas refletem sobre modo próprio de fazer cinema indígena durante Festival de Brasília |
Cineastas refletem sobre modo próprio de fazer cinema indígena durante Festival de Brasília | — Júlio Camargo/Brasil de Fato DF
Cineastas refletem sobre modo próprio de fazer cinema indígena durante Festival de Brasília | Crédito: Júlio Camargo/Brasil de Fato DF

Larissa Tukano , é cineasta, artista visual, artesã e articuladora do povo Ye’pa Mahsã, originária da comunidade de Taracuá, na Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas. Em entrevista ao Brasil de Fato DF, a diretora de “Wehsé Darase – Trabalho da Roça” (2017) explica que o cinema produzido por indígenas parte de uma relação direta com o cotidiano e com aquilo que faz sentido para cada comunidade, em contraste com representações externas que frequentemente privilegiam paisagens e imagens estereotipadas.

Segundo ela, enquanto produções não indígenas podem apresentar uma visão mais enquadrada e distante, os filmes realizados pelos próprios povos incorporam a participação de quem está diante das câmeras, inclusive na tradução e na explicação de práticas culturais. “Pode ser a mulher torrando farinha, pode ser eles comendo, ou eles trabalhando”, explica. Para a cineasta, essa diferença está relacionada ao lugar de quem filma: “são olhares diferentes”, porque uma pessoa que não pertence àquela realidade pode tentar retratá-la, mas dificilmente conseguirá transmiti-la da mesma maneira.

Essa produção também é marcada pela construção coletiva e pelo respeito às especificidades culturais de cada povo. Larissa afirma que cada comunidade possui “seu próprio sistema de como fazer um documentário”, definindo o que pode ou não ser filmado e divulgado.

Esse processo envolve consultar a comunidade sobre a representação de grafismos, adornos, rituais e outros elementos culturais, evitando transformar essas manifestações em imagens estereotipadas. Para ela, os filmes também cumprem uma função de preservação da memória, especialmente diante da perda de anciãos e outros membros das comunidades: “Muitos daqueles que foram filmados já não existem mais”. Assim, o cinema indígena registra narrativas e modos de vida que podem permanecer como memória para as gerações seguintes.

Larissa também destaca o retorno que as produções de cinema e vídeo oferecem para as aldeias: “O documentário que fiz é um dos filmes que contribuiu para que reconhecesse o sistema agrícola do Rio Negro como um dos patrimônios dos 23 povos indígenas lá. Então tem o meu, tem o dos outros, que fazem parte dessa documentação pra que reconheçam que esse conhecimento, tanto material e imaterial”, é patrimônio dos 23 povos indígenas”, conclui.


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