‘Tem que taxar os bilionários’: Marcha pelo Clima leva debate sobre mudanças climáticas e eleições às ruas de Brasília

Por Camila Araujo20/09/2026 às 23:5094 visualizações
Marcha pelo Clima DF
Marcha pelo Clima DF
Brasil de Fato

Sob um pé de mangueira e com temperatura de 29ºC, ativistas, movimentos sociais, servidores públicos e candidaturas distritais e federais participaram neste domingo (20) da Marcha pelo Clima, realizada no Eixão do Lazer, na altura da 102 Sul, em Brasília (DF). O encontro começou às 10h e terminou por volta das 13h, após os manifestantes percorrerem o Eixão por cerca de 15 minutos e interromperem a marcha por conta do calor.

Durante o ato, os participantes entoaram o coro: “Tem que taxar os bilionários; É culpa deles que tá quente pra caralho”.

A manifestação abordou mudanças climáticas, modelo econômico e eleições. Os participantes também defenderam a inclusão da pauta ambiental no debate eleitoral.

Ian Coelho, do Jovens pelo Clima, uma das organizações que mobilizaram a marcha, relacionou o ato ao debate eleitoral. “É muito bonito ver essa mobilização nesse dia quente que vai ficar mais quente com El Niño”, afirmou.

Segundo ele, o movimento fez um chamado “contra o capitalismo” e pela inclusão da pauta climática nas eleições. “É um chamado pra mobilização, pra lutar contra os pecuaristas, lutar por um novo mundo que é possível”, disse.

Lúcia Mendes, do Fórum de Defesa das Águas, do Clima e Meio Ambiente do Distrito Federal, organização que liderou a mobilização pela proteção da Serrinha do Paranoá, afirmou que o planeta vive “o limiar da maior crise climática que esse planeta já viu”.

A área da Serrinha do Paranoá foi incluída pelo Governo do Distrito Federal (GDF) entre imóveis públicos cogitados para capitalizar o Banco de Brasília (BRB) e cobrir prejuízos associados a negociações com o Banco Master.

Ela também comparou a crise climática a uma nova pandemia. “O mundo está assistindo as eleições no Brasil com atenção, nós já vimos o que custou de vidas colocar um aventureiro bandido na presidência do Brasil. Agora mais uma pandemia, a pandemia climática”, declarou.

Ao falar sobre o modelo econômico, afirmou: “Não dá mais para ser refém do sistema capitalista, que só pensa em acúmulo de riqueza”.

Marcha pelo Clima foi realizada em 16 cidades brasileiras durante o final de semana. A mobilização reuniu organizações, movimentos populares e trabalhadores em defesa da justiça climática, meio ambiente, da vida e dos povos, e também como uma forma de chamar a atenção para a importância do tema no debate eleitoral.

A Campanha Vote Pelo Cerrado, representada pelas organizações Rede Cerrado, Instituto Sociedade População e Natureza (ISPN), Funatura e Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, esteve presente cobrando o compromisso de candidatos e candidatas do DF para a defesa do bioma.

“Cobramos o compromisso com pautas muito específicas, que vão desde a questão hídrica, passando pelo desmatamento até a garantia de direitos”, explicou Ingrid Silveira, secretária executiva da Rede Cerrado.

Defesa do Cerrado foi uma das pautas da marcha |
Defesa do Cerrado foi uma das pautas da marcha | — Camila Araujo
Defesa do Cerrado foi uma das pautas da marcha | Crédito: Camila Araujo

Política ambiental e eleições

Joana Tanure, servidora do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), relatou mudanças ocorridas na estrutura do ministério durante a gestão de Jair Bolsonaro.

“A gestão passada extinguiu a secretaria do clima do MMA no segundo dia, colocou todos os servidores numa sala sem computador, sem trabalho, deixou de lado um monte de servidores que atuavam na questão climática”, afirmou.

Joana classificou a situação como “perseguição institucional” e disse que foi “muito difícil atuar com a questão climática no governo passado”.

Bruno Ferreira Farias, candidato aprovado no concurso do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) de 2024 e representante da comissão de aprovados que reivindica a convocação dos novos servidores, falou sobre a composição do Congresso Nacional. “Além do Lula, é necessário que se eleja um congresso de esquerda também. Executivo e legislativo fundamental”, afirmou.

Claudia Trindade, profissional com 33 anos de carreira e especialista em meio ambiente, com passagem pelo ICMBio e pelo Ibama e integrante da Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Ascema) e da Asibama-DF, falou sobre a falta de servidores na área ambiental. “Temos pouquíssimos servidores para unidades de conservação. Todos os governos têm uma grande dificuldade de fazer concurso para esse trabalho”, afirmou.

Servidores do Ministério do Meio Ambiente |
Servidores do Ministério do Meio Ambiente | — Camila Araujo
Servidores do Ministério do Meio Ambiente | Crédito: Camila Araujo

Matheus Adugo, da Associação Indígena Areme Eda, do povo Bororo, que vive no Setor Noroeste de Brasília, defendeu a retomada da cosmovisão dos antepassados indígenas.

“A gente precisa trazer de volta a cosmovisão dos nossos antepassados, que não pensavam só no agora”, afirmou.

Adugo também falou sobre a participação política nas eleições. “Uma das ferramentas, e não é a única solução, é o voto consciente. É votar pelo clima”, disse. “Se a gente não pensar no clima, não será possível pautar outras coisas”, afirmou.

Segundo ele, a falta de atenção à questão climática pode levar a consequências ambientais futuras. “Daqui a um tempo vai sobrar poeira, cinza, queimada, fumaça”, declarou.

Maktus Fabiano, militante do Juntos e diretor do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade de Brasília (UnB), também relacionou as eleições à pauta climática.

“É fundamental que, nesse momento das eleições, a gente não deixe de lado a questão climática”, afirmou.

Maktus reforçou que o fenômeno climático do “super El Niño” deixa mais evidentes os efeitos das mudanças climáticas. Ele defendeu a superação do sistema capitalista e afirmou que, em sua avaliação, o sistema é responsável pelas mudanças climáticas e pela violência contra povos indígenas e quilombolas.

“Apenas uma revolução ecossocialista está à altura dos desafios que temos que enfrentar”, declarou.

“Nessa etapa do capitalismo, do império capitalista que tá em crise, nossa aposta é mobilização das ruas”, afirmou.

Maktus comparou o capitalismo a “uma locomotiva rumando ao fim do planeta” e disse que a organização popular é necessária para “puxar o freio de mão”.

Mila Monteiro, ativista da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), falou sobre a relação entre pecuária e desmatamento.

“A pecuária é a maior responsável pelo desmatamento”, afirmou, lembrando que a maior parte “de tudo que é plantado nesse país é pra alimentar gado”.

“Se a gente quer floresta de pé, é preciso tirar animal do prato”, disse.

Durante a marcha, também houve uma intervenção de apoiadores de candidaturas de direita. No início do ato, um bloco de apoiadores de Flávio Bolsonaro passou pelo local da concentração. Houve troca de provocações entre os grupos. Na ocasião, manifestantes entoaram: “Flávio ladrão, seu pai tá na prisão”.

Candidatos a deputado federal, distritais e organizações da sociedade civil como Instituto Arayara, Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), Diretório Central Acadêmico da UnDF, bloco de Maracatu do Boiadeiro Boi Brilhante, também participaram da atividade.


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Fonte
Brasil de Fato
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