Antes dos farroupilhas pelearam os guarani

Di Vicente Rauber17/09/2026 às 15:428 visualizzazioni
Portal das Missões
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Brasil de Fato

Vicente Rauber*

Claudio Knierim**

Precisamos falar mais sobre as principais conquistas dos Guarani e da Revolução Farroupilha incorporadas como qualidades, conhecimentos e costumes do(a) gaúcho(a), complementando nosso artigo anterior “O gaúcho vem dos Guaranis”. As qualidades de dignidade, justiça, bravura, resistência, altivez e pertencimento ao solo habitado pelos(as) gaúchos(as) como legado fundamental de um longo processo histórico que principia com a chegada de indígenas Guarani e Charrua nesse território pampeano, com a chegada de negros juntamente com espanhóis e portugueses, além do episódio da  Revolução Farroupilha.

O Acampamento Farroupilha de Porto Alegre deste ano, muito justificadamente, adotou o tema: “Herança Jesuítica e Guarani no RS: 400 anos de cultura e tradição”, tendo como referência o ano de 1626, quando foi constituída a primeira redução Guarani chamada de São Nicolau.

As Missões Jesuíticas foi a única tentativa relevante de desenvolvimento conjunto entre europeus e povos originários.

Autor: Frederico Reilly – El Pueblo de Missiones
Autor: Frederico Reilly – El Pueblo de Missiones
Autor: Frederico Reilly – El Pueblo de Missiones

Essa foi a única tentativa relevante de desenvolvimento conjunto entre europeus e povos originários. Poderia ter construído uma sociedade justa e evoluída para sempre. Era um sistema avançado de saberes milenares indígenas e técnicas trazidas pelos padres jesuítas, com uma gestão organizada coletivamente. As Aldeias ou Tekoas foram unificadas e “reduzidas” a um espaço delimitado, adotando um modelo de gestão que unificava as práticas Guarani a um modelo de governo espanhol chamado de “Cabildo”. O seu desenvolvimento era muito superior ao de outras regiões ocupadas por portugueses e espanhóis.

O Brasil não foi descoberto, foi ocupado para ser explorado

O Brasil não foi descoberto; foi ocupado para ser explorado. Os povos indígenas, que já habitavam esta terra com seus conhecimentos milenares, vivendo em na natureza, foram estupidamente destruídos.

Os Guarani, vindos inicialmente da Amazônia, há milhares de anos já cultivavam vegetais que hoje fazem parte da alimentação do povo brasileiro. Entre esses estão o milho (avati), batata doce (jeti), mandioca ou aipim, abóbora ou jerimum, feijão e batata. Já usavam o plantio direto (saraquá) ou coivara. Cozinhavam em panelas de pedra ou cerâmica, além de fazer assados. Colocavam a carne ou pescado num “jirau”, uma armação feita de taquara, colocando-a sob brasas, técnica chamada de “barbaquá”, que originou o churrasco.

Além das qualidades pessoais, os Guarani das Missões nos legaram a gestão coletiva, a agricultura, a pecuária, a cozinha, construções, oficinas, a estocagem, o comércio, churrasco e chimarrão.

Sino missioneiro
Sino missioneiro
Sino missioneiro

Também usavam o pilão (monjolo) para triturar alimentos e facilitar o cozimento. Usavam-no também para produzir farinha e fazer o mingau para os idosos e crianças (curumins). Já tomavam o mate ou chimarrão, feito com a erva “ilex paraguaienses”, hoje identidade do gaúcho brasileiro, uruguaio, argentino e paraguaio.

Há muito tempo, os Guarani faziam panelas e outros objetos com argila, técnica que dominavam. Nas reduções, tijolos, lajotas e telhas em olarias. 

Os jesuítas descobriram jazidas de cal e, com os Guarani, fizeram a argamassa. Assim, os missioneiros construíram residências, colégios, igrejas, ruas e calçamentos. Instalaram sistemas de captação de água, canaletas, esgotos e moinhos hidráulicos. 

Desenvolveram oficinas para carpintaria, tecelagem e metalurgia, entre outras. Produziam instrumentos musicais, esculturas de madeira e pedra, roupas, instrumentos de trabalho como enxadas, martelos, foices, pregos e, inclusive, armas rudimentares.

Autor: Frederico Reilly – El changador y el Tape
Autor: Frederico Reilly – El changador y el Tape
Autor: Frederico Reilly – El changador y el Tape

Plantavam trigo, algodão, videiras e pomares de frutas até então inexistentes na América. O trabalho era dividido em Abambaé, para o cultivo das famílias, e Tupambaé, um mutirão para a produção coletiva com o objetivo de sustentar órfãos e viúvas. Essa produção servia ainda para trocas e comércio.

Fora do espaço urbano das Reduções Missioneiras, existiam as estâncias de criação de gado bovino, ovino e equino para tração de carretas, arados e moinhos, bem como produção de carne e couro.

As Reduções Guarani tinham autossustentação e possuíam depósitos em paióis para os excedentes, os quais eram trocados (escambo) com outros povoados. Também eram realizadas vendas para outras províncias e, até, para Buenos Aires. 

Os Charrua nos legaram vestimentas, boleadeiras, a doma dócil do cavalo. Também foram chacinados.

Autor: Jean-Baptiste Debret – Chefe Charrua 1834
Autor: Jean-Baptiste Debret – Chefe Charrua 1834
Autor: Jean-Baptiste Debret – Chefe Charrua 1834

Outro grupo indígena importante em nosso legado foram os Charrua, possivelmente originários dos Andes. Eram nômades e viviam da caça, pesca e coleta de frutas, fundamentalmente. Não aceitaram ser catequizados pelos padres jesuítas e nem serem reduzidos dentro de um espaço urbano. No vestuário, herdamos deles o chiripá – antecessor da bombacha –, a vincha – fita de tecido ou couro amarrada no cabelo – e do toropi, uma manta de lã ou couro para proteger as costas do frio.

Das lides campeiras, recebemos as boleadeiras, usadas para caçar avestruzes (inhandu). Hoje, são encontradas em museus e na dança folclórica do RS e da Argentina, o Malambo. 

Enquanto outros realizavam a doma dos cavalos com brutalidade, os Charrua tratavam os animais com estima. Com o filhote (potrilho), desenvolviam uma doma dócil, método que vem sendo reaprendido atualmente. Sequer usavam o freio (peça de metal colocada na boca do cavalo para guiá-lo). 

Autor:Jean-Baptiste Debret – Charrua peões
Autor:Jean-Baptiste Debret – Charrua peões
Autor:Jean-Baptiste Debret – Charrua peões

Vestem calças de crivo e chiripá-saia e mostram guasca de couro e boleadeiras

Em 1831, o Presidente do Uruguai, Frutuoso Rivera, pressionado por estancieiros brasileiros e uruguaios, atacou os Charruas. Eles foram massacrados numa emboscada junto ao Arroio Salsipuedes (Uruguai), dando início ao seu extermínio enquanto grupo étnico.

Em terras sul-americanas as línguas portuguesa e espanhola incorporaram 6000 palavras indígenas.

As línguas portuguesa e espanhola, em terras gaúchas, incorporaram cerca de 6000 palavras indígenas do tupi, guarani, quíchua e de outros povos, incluindo nomes de rios, lagoas, montes e outros lugares, das quais destacamos:

– Gua-hi-ba – Gua: encontro; hi: água; ou seja, o encontro das águas; neste caso, dos  dos Rios Jacuí, Caí, Sinos e Gravataí;

– Guri – Menino ou criança;

– Tapejara – o que conhece bem os caminhos, habilidoso;

– Chácara – Espaço de terra para criação de animais;

– China, chinoca – mulher indígena, moça, mulher jovem;

– Chiru – Caboclo ou indígena com a pele morena;

– Guasca – gaúcho, homem caipira. Tira feita de couro cru;

– Guampa – corno, chifre ou vasilha feita com este material;

– Guaiaca – cinto largo de couro com bolsos;

– Cuia – Recipiente feito com o fruto da cuieira utilizado para tomar chimarrão;

– chucro – não domado, bravio, esquivo.

As Reduções Guaraníticas eram uma afronta às metrópoles europeias. Foram chacinadas.

O exemplo das Reduções Guaraníticas era uma afronta às metrópoles europeias. Em 1750, as duas maiores potências mundiais da época, Portugal e Espanha, que disputavam as terras da América do Sul, acordaram o Tratado de Madri, estabelecendo que a Colônia de Sacramento ficaria com a Espanha e o território das Reduções Jesuíticas, com Portugal. Mais: que todos os indígenas e os padres jesuítas deveriam abandonar as reduções e cruzar o Rio Uruguai para as terras da atual Argentina.

Parte dos indígenas, aconselhados por padres jesuítas, obedeceram às ordens. No entanto, outra parte dos Guarani, liderados por Sepé Tiaraju as ordens vindas da Espanha através do Tratado de Madri e se opuseram à demarcação das terras. Para fazer cumprir o Tratado, Portugal e Espanha enviaram seus maiores exércitos, o português comandado por Gomes Freire de Andrade e o espanhol pelo Governador de Buenos Aires José de Andonaegui. 

Sepé Tiaraju manda o exército português parar em Santa Tecla (atual Bagé), onde teria exclamado: “Esta terra tem dono”. Depois de muitas tentativas de negociação, todas frustradas, em 1756 – os exércitos de Espanha e Portugal, avançam sobre a região e Inicia a Guerra Guaranítica, não resolvida em negociações. Em 7 de fevereiro de 1756, os exércitos matam Sepé Tiaraju. Em 10 de fevereiro, na Batalha da Caiboaté, eliminam mais de 1500 indígenas. Na sequência, tanto Portugal como Espanha expulsam todos os padres jesuítas e confiscam seus bens. Desse modo, liquidam em definitivo com a excepcional experiência missioneira, ocorrendo a dispersão dos Guaranis sobreviventes.

O gado das estâncias missioneiras ficou vagando. Foi caçado pelos gaúchos para a sua sobrevivência, sendo considerados ladrões de gado, malfeitores. A Revolução Farroupilha recuperou a sua dignidade.

O gado das estâncias missioneiras ficou vagando livremente e se reproduzindo pelos campos. Esses rebanhos passaram a ser caçados pelos gaúchos ou gauchos, um bando de homens constituído por indígenas, negros, mestiços, soldados espanhóis e portugueses desertores dos seus exércitos. Esse gaúcho ou gaudério que vivia na pampa do sul do Brasil, Uruguai e Argentina, era tido como malfeitor, “ladrão de gado”. Após a ocupação desse território pelas estâncias ou haciendas e após o cercamento dos campos, os gaúchos acabam sendo incorporados às estâncias como peões e desaparecem enquanto um grupo social que caçava o gado para retirar e vender o couro, assegurando assim sua sobrevivência. 

Através de pesquisas e compilações históricas, os saberes e as técnicas dos indígenas, e em especial das Reduções Missioneiras, felizmente foram recuperados e hoje possuem amplo uso entre o povo gaúcho da região platina.

Os negros, mesmo escravizados e discriminados, somaram costumes e valores fundamentais.

Ainda na formação do gaúcho cabe citar o importante legado dos negros. Mesmo trazidos como escravos, e ainda discriminados depois de libertos, deixaram contribuições no trabalho, na culinária e em diversos costumes gaúchos. A sua valentia e resistência fazem parte da História, como ocorreu com o Corpo de Lanceiros Negros da Revolução Farroupilha.

Os imigrantes europeus e asiáticos trouxeram mais conhecimentos e técnicas e incorporaram as experiências indígenas e negras.

Com a vinda ao Brasil de outros povos europeus e asiáticos, chegaram mais conhecimentos e técnicas, que foram agregados ao que indígenas e negros nos legaram. Acaso existe alguma região onde o chimarrão não é sorvido e a carne assada para um bom churrasco? E, no dia seguinte, aparece um carreteiro com a carne que sobrou do churrasco!

Este é um momento fundamental de recuperar as qualidades do gaúcho no RS e avançá-las no Brasil.

Mas há o que se recuperar e há o que avançar! A construção de uma sociedade mais digna e justa, com evolução permanente, precisa ser retomada em nosso Estado. Um país que busca a sua soberania, com justiça social e reconhecimento internacional, precisa dar continuidade às conquistas herdadas e àquelas construídas no tempo presente. Que em 4 de outubro saibamos honrar as qualidades de dignidade, justiça, altivez e resistência, praticadas nas Reduções Guaraníticas Missioneiras e na Revolução Farroupilha, acrescidas do mais que nunca necessário desenvolvimento com sustentabilidade ambiental!

*Vicente Rauber é engenheiro Especialista em Planejamento Energético e Ambiental.                                                                                    

**Claudio Knierim é historiador.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Fonte
Brasil de Fato
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