Por Júlio Camargo20/09/2026 às 23:1329 visualizações
Festival de Cinema de Brasília
Brasil de Fato
A 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro encerrou sua programação neste sábado (19) com “Se eu fosse vivo… vivia”, consagrado como melhor longa-metragem pelo Júri Oficial. Ao todo, o festival reuniu cerca de 35 mil pessoas ao longo dos nove dias de exibição, além das atividades de oficinas, debates sobre políticas públicas e discotecagem.
Dirigido pelo mineiro André Novais Oliveira, o filme conta a história do casal Jacira (interpretada pela linguista e escritora Maria da Conceição Evaristo) e Gilberto (Norberto Novais Oliveira, pai do diretor), que vivem cinco décadas juntos em Contagem (MG), onde construíram sua história desde os anos 1970. Cinquenta anos depois, com Jacira internada, Gilberto passa a vivenciar experiências perturbadoras que o conduzem ao desconhecido. O diretor já havia recebido o Candango pela mesma categoria em 2018, com “Temporada”.
“Se eu fosse vivo… vivia” também recebeu menção honrosa do júri dada aos protagonistas. O prêmio recebido presencialmente por Norberto e Tainá Evaristo, sobrinha de Conceição, que interpreta Jacira na juventude.
Conceição Evaristo, que participou via telefone, agradeceu pela “confiança, que me fez atuar” e destacou que foi “um aprendizado muito grande, inclusive do ponto de vista emocional, viver essa personagem em uma relação amorosa que representa a fidelidade de uma família negra. Foi um aprendizado muito grande e, sem sombra de dúvidas, vai influir na minha literatura daqui pra frente”. O longa recebeu também o Prêmio Like, de R$ 50 mil em apoio de mídia.
André Novais Oliveira recebe o prêmio de melhor longa-metragem pelo Júri Oficial | — Júlio Camargo | BdF DFAndré Novais Oliveira recebe o prêmio de melhor longa-metragem pelo Júri Oficial |Crédito: Júlio Camargo | BdF DF
O destaque da premiação entre os prêmios técnicos foi “Pequenas tragédias”, de Daniel Nolasco (GO), que recebeu cinco Candangos: melhor direção, melhor montagem, melhor trilha sonora e melhor ator, para Guilherme Théo, e melhor atriz coadjuvante, para Aivan. O filme também recebeu o Prêmio Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) de melhor longa-metragem.
O filme revisita a trajetória do próprio diretor após sua mudança para o Rio de Janeiro, em 2011, para cursar a faculdade. Dez anos depois, ao retornar a Catalão (GO), sua cidade natal, ele descobre que nenhum dos amigos LGBTQIAN+ com quem cresceu ainda vive ali. Alguns morreram, enquanto outros precisaram partir, revelando as marcas do tempo e das transformações vividas pelo grupo. Nolasco já havia lançado “Vento seco” em 2020, já considerado um clássico da arte queer recente.
Ao receber o troféu de melhor direção, Nolasco destacou que é resultado de políticas públicas, principalmente as de descentralização da produção. É isso, segundo ele, que tornou possível uma pessoa que nasceu na região rural de Catalão (GO), filho de uma costureira, trabalhar com cinema.
“É necessário e é um direito, para nós que estamos fora do eixo, em Goiás e no Centro-Oeste, acessar as condições financeiras para poder produzir filmes. Porque temos o direito de conseguir contar as nossas próprias narrativas e construir as nossas próprias imagens”, ressaltou Nolasco.
Daniel Nolasco diretor de “Pequenas tragédias”, filme principal vencedor de prêmios técnicos | — Júlio Camargo | BdF DFDaniel Nolasco diretor de “Pequenas tragédias”, filme principal vencedor de prêmios técnicos |Crédito: Júlio Camargo | BdF DF
O músico e diretor do underground escatológico Gurcius Gewdner, nascido em Brasília e radicado em Joinville (SC) participou com o longa “Privadas de suas vidas”, co-dirigido por Gustavo Vinagre. Este gore levou melhor direção de arte, melhor atriz, para Martha Nowill, e melhor atriz coadjuvante, dividida entre Olivia Torres e Aivan, de “Pequenas Tragédias”.
Pelo Júri Popular, o escolhido como melhor longa-metragem da Mostra Competitiva Nacional foi o documentário carioca “Tudo é tempo”, de Marcos Guttmann. A produção acompanha quatro eleitores do Rio de Janeiro ao longo de 20 anos, entre 2002 e 2022, e registra mudanças na percepção política e nos afetos dos personagens ao longo do tempo. Também recebeu o Prêmio Especial do Júri e o Troféu Saruê, concedido pela equipe de críticos do jornal Correio Braziliense. O filme foi contemplado ainda com o prêmio de R$ 30 mil oferecido pela Petrobras ao longa escolhido pelo público.
“Ana, en passant”, de Fernanda Salgado (MG), recebeu o Prêmio Zózimo Bulbul de melhor longa-metragem. Este, que talvez seja o primeiro longa de animação dirigido por uma mulher negra no Brasil, retrata uma jovem negra francesa que viaja de Paris a Belo Horizonte após a morte da avó, onde passa a reconstruir histórias de sua família e encontra Alice, personagem que reflete essa busca. A animação combina 2D, rotoscopia, colagem e stop motion, com trilha do Metá Metá e vozes de Jéssica Pierina, Zezé Motta e Carlos Francisco.
A diretora mineira Fernanda Salgado, recebeu o Prêmio Zózimo Bulbul de melhor longa-metragem | — Júlio Camargo | BdF DFA diretora mineira Fernanda Salgado, recebeu o Prêmio Zózimo Bulbul de melhor longa-metragem |Crédito: Júlio Camargo | BdF DF
“Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha”, de Luis Abramo e Pedro Rossi, venceu o Prêmio Marco Antônio Guimarães, do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro.
Curtas-metragens da mostra nacional
“Cana” marca a estreia na direção audiovisual do rapper Daniel Rone, que divide a autoria com o roteirista e produtor da Oeste Cinema, Guilherme Xavier Ribeiro. O curta-metragem acompanha dois jovens periféricos que conduzem uma caminhonete gigante por uma rodovia cercada por plantações de cana-de-açúcar, enquanto enfrentam desejos, expectativas e receios sobre o que pode acontecer no caminho. Além do prêmio de melhor curta pelo júri oficial, a produção recebeu os troféus de melhor trilha sonora e melhor ator, para Gerin Black, além do Prêmio Abraccine de melhor curta-metragem e do Prêmio Canal Brasil.
Outros filmes também concentraram premiações. “Fundura”, dirigido por Catapreta, venceu melhor direção, melhor edição de som e melhor direção de arte. “Gastronomia do olho”, de Nicolau (DF), foi premiado por melhor fotografia e melhor roteiro.
“Tiró e a onça”, de Wera Poty, sobre o ancião Mbya Guarani, protagonista que relembra o encontro que teve com uma onça na juventude. Anos depois, moradores da aldeia Tekoa Mirim, em Praia Grande (SP), recriam a história. O curta foi escolhido pelo Conselho Distrital de Políticas de Igualdade Racial (Codipir) como melhor filme de Temática Afirmativa, recebendo também prêmio de R$ 10 mil em parceria com a Aicon.
Atores e produção do curta “Tiró e a onça”, dirigido por Wera Poty | — Júlio Camargo | BdF DFAtores e produção do curta “Tiró e a onça”, dirigido por Wera Poty |Crédito: Júlio Camargo | BdF DF
O público escolheu “Lagoa do abandono”, de Diego Maia (CE), como melhor curta-metragem da Competitiva Nacional. “Mariposa”, de Alexandre Américo e Pedro Vitor (RN), recebeu menção honrosa e o Prêmio Zózimo Bulbul de melhor curta-metragem. “Futuro decadance“, dirigido pela DJ e drag queen alagoana Leviathan, recebeu os prêmios de melhor montagem, melhor figurino e melhor atriz.
Mostra Brasília
Na Mostra Brasília, que nesta edição correspondeu à 29ª edição do Troféu Câmara Legislativa do Distrito Federal e distribuiu R$ 298 mil em prêmios, “Onde moram os irmãos”, de Marisa Mendonça, teve uma das principais consagrações da mostra. O drama conta a história de Lívia, que, após a morte do irmão e o luto do pai, assume os negócios imobiliários da família, apesar de ser a última pessoa indicada para a função. Ao se envolver cada vez mais na vida dos inquilinos, ela ultrapassa os limites de sua atuação. Também foi escolhido como melhor longa-metragem tanto pelo Júri Oficial quanto pelo Júri Popular.
Produção do “Onde moram os irmãos”, recebendo o filme em nome da diretora Marisa Mendonça | — Júlio Camargo | BdF DFProdução do “Onde moram os irmãos”, recebendo o filme em nome da diretora Marisa Mendonça |Crédito: Júlio Camargo | BdF DF
Entre os curtas, “Dora”, de Murilo Abreu, recebeu a láurea da CLDF de melhor filme pelo Júri Oficial, além do prêmio de melhor atriz para Micheli Santini. Conta a história de Dora, mãe solo de Bernardo, que espera ansiosamente passar o aniversário com o pai, frequentemente ausente. Quando o homem se atrasa, ela precisa encontrar uma solução para garantir a segurança do filho em casa.
O Júri Popular escolheu como seu curta favorito Hacker Leonilia, curta futurista sobre uma hacker idosa e bordadeira que precisa lidar com problemas e usar suas habilidades para escapar de uma realidade virtual.
Ao receber o prêmio, o diretor Gustavo Fontele Dourado declarou apoio à entrada de regulação do uso da inteligência artificial na pauta das políticas públicas e do direito.
“As IAs, os metaversos e as redes sociais descontroladas e sem regulação nos levarão para o caminho do tecnofascismo, e não podemos permitir o retorno dos ministros da morte e da gestão da Covid-19. Não precisamos de Elon Musk e de Big Tech sugando a nossa inteligência e criatividade para depois nos vender inteligências artificiais e AI slop”, enfatizou.
Gustavo Fontele Dourado recebeu o prêmio de Júri Popular por “Hacker Leonilia”, além de ter trabalhado na produção executiva de “Nem todos sabem”, vencedor de melhor trilha sonora | — Júlio Camargo | BdF DFGustavo Fontele Dourado recebeu o prêmio de Júri Popular por “Hacker Leonilia”, além de ter trabalhado na produção executiva de “Nem todos sabem”, vencedor de melhor trilha sonora |Crédito: Júlio Camargo | BdF DF
A mostra também premiou “Mapas”, de Rafael Lobo, em melhor direção e melhor direção de arte; “Ar-dor”, de Mike Peixoto, em melhor edição de som e melhor fotografia; “A arte perdida da lombada”, de Arthur Gonzaga e Helena Sarmento, em melhor montagem; “Nem todos sabem”, de João Tomé, em melhor trilha sonora; “Impostor”, de Lupe Leal, em melhor ator; e “Madre“, de Talita Carvalho, em melhor roteiro.
Caleidoscópio
A Mostra Caleidoscópio é dedicada a obras de forte caráter autoral e funciona como complemento às mostras competitivas do Festival de Brasília. Criada diante do crescimento da produção audiovisual brasileira, a mostra amplia o espaço para filmes marcados pela inventividade e por propostas estéticas e narrativas particulares, valorizando o que se aproxima da tradição do chamado “cinema de invenção”.
O Júri Internacional, em parceria com a Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci), escolheu “Os fantasmas gentis” como melhor filme. Dirigido por Caetano Gotardo, narra o dia de Inês, que, após o expediente no banco, costuma ir ao karaokê, onde sobe ao palco uma única vez por noite. É assim que Hélio, um ornitólogo, a conhece e se encanta por ela. Depois do encontro entre os dois, Inês passa a ouvir, de forma incessante, o canto dos pássaros.
Já o Júri Jovem da Universidade de Brasília concedeu o Prêmio Jean-Claude Bernardet a “Mulheres do bando”, de Thamires Vieira, que registra no coração de Salvador mulheres do histórico Bando de Teatro Olodum que retornam às próprias memórias enquanto ensaiam um novo gesto em cena.
Foram concedidos 44 prêmios no total (incluindo troféus das mostras competitivas, prêmios especiais, menções honrosas e homenagens de conjunto da obra/preservação) | — Júlio Camargo | BdF DFForam concedidos 44 prêmios no total (incluindo troféus das mostras competitivas, prêmios especiais, menções honrosas e homenagens de conjunto da obra/preservação) |Crédito: Júlio Camargo | BdF DF
Lista completa de premiados
Mostra Competitiva Nacional – Troféu Candango
Curta-metragem
Melhor Curta-Metragem – Júri Oficial: Cana, de Daniel Rone e Guilherme Xavier Ribeiro
Melhor Curta-Metragem – Júri Popular: Lagoa do Abandono, de Diego Maia
Melhor Direção: Catapreta, por Fundura
Melhor Roteiro: Nicolau, por Gastronomia do Olho
Melhor Atriz: Leviathan, por Futuro Decadance
Melhor Ator: Gerin Black, por Cana
Melhor Fotografia: Gabriel Lucena, por Gastronomia do Olho
Melhor Direção de Arte: Catapreta, por Fundura
Melhor Figurino: Leviathan, por Futuro Decadance
Melhor Trilha Sonora: Daniel Rone Guilherme Xavier, por Cana
Melhor Edição de Som: Daniel Nunes, por Fundura
Melhor Montagem: Leviathan (AL), por Futuro Decadance
Prêmio Abraccine – Melhor Longa-Metragem: Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco
Longa-metragem
Melhor Longa-Metragem – Júri Oficial: Se Eu Fosse Vivo… Vivia, de André Novais Oliveira (MG)
Melhor Longa-Metragem – Júri Popular: Tudo é Tempo, de Marcos Guttmann (RJ)
Melhor Direção: Daniel Nolasco (GO), por Pequenas Tragédias
Melhor Roteiro: André Novais Oliveira (MG), por Se Eu Fosse Vivo… Vivia
Melhor Atriz: Martha Nowill, por Privadas de Suas Vidas (RS)
Melhor Ator: Guilherme Théo, por Pequenas Tragédias
Melhor Atriz Coadjuvante: Aivan, por Pequenas Tragédias, e Olivia Torres, por Privadas de Suas Vidas
Melhor Ator Coadjuvante: Lucas Leto, por Todo o Sentimento (BA)
Melhor Fotografia: Victor de Melo, por Sabes de Mim, Agora Esqueça (DF)
Melhor Direção de Arte: Juliana Lobo, por Privadas de Suas Vidas (SP)
Melhor Figurino: Diana Moreira, por Se Eu Fosse Vivo… Vivia (MG)
Melhor Trilha Sonora: Daniel Nolasco, por Pequenas Tragédias
Melhor Edição de Som: Lucas Coelho, por Sabes de Mim, Agora Esqueça (DF)
Melhor Montagem: Luciano Carneiro, por Pequenas Tragédias (GO)
Prêmio Abraccine – Melhor Curta-Metragem: Cana, de Daniel Rone e Guilherme Xavier Ribeiro (SP)
Mostra Brasília – 29º Troféu Câmara Legislativa do Distrito Federal
Melhor Longa-Metragem – Júri Oficial: Onde Moram os Irmãos, de Marisa Mendonça
Melhor Curta-Metragem – Júri Oficial: Dora, de Murilo Abreu
Melhor Longa-Metragem- Júri Popular: Onde Moram os Irmãos, de Marisa Mendonça
Melhor Curta-Metragem – Júri Popular: Hacker Leonilia
Melhor Direção: Rafael Lobo, por Mapas
Melhor Roteiro: Talita Carvalho, por Madre
Melhor Atriz: Micheli Santini, por Dora
Melhor Ator: Lupe Leal, por Impostor
Melhor Fotografia: Petrônio Neto e Nicolau, por Ar-Dor
Melhor Direção de Arte: Lucas Gehre e Nadine Diel, por Mapas
Melhor Trilha Sonora: João Tomé, por Nem Todos Sabem
Melhor Edição de Som: Bernardo Paixão, por Ar-Dor
Melhor Montagem: Arthur Gonzaga, por A Arte Perdida da Lombada
Mostra Caleidoscópio
Prêmio Fipresci – Melhor Filme pela Crítica Internacional: Os Fantasmas Gentis, de Caetano Gotardo
Prêmio Jean-Claude Bernardet (Júri Jovem UnB): Mulheres do Bando, de Thamires Vieira
Prêmios Especiais
Prêmio Especial do Júri: Tudo é Tempo, de Marcos Guttmann (RJ)
Troféu Saruê: Tudo é Tempo, de Marcos Guttmann (RJ)
Menção Honrosa – Longa: Conceição Evaristo e Norberto Novais Oliveira, por Se Eu Fosse Vivo… Vivia
Menção Honrosa – Curta: Mariposa
Melhor Filme de Temática Afirmativa (Prêmio Codipir): Tiró e a Onça, de Wera Poty
Prêmio Zózimo Bulbul – Melhor Filme Longa-Metragem: Ana, En Passant, de Fernanda Salgado (MG)
Prêmio Zózimo Bulbul – Melhor Filme Curta-Metragem: Mariposa, de Alexandre Américo e Pedro Vitor (RN)
Prêmio Marco Antônio Guimarães (Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro): Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha
Prêmio Canal Brasil: Cana, de Daniel Rone e Guilherme Xavier
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