‘Necessidade de caos’: fenômeno que estimula desinformação política também está relacionado à misoginia

Por Marina Petric, Doutora em mídia e comunicação, Texas Tech University18/09/2026 às 11:2324 visualizações
A invasão do Congresso Nacional, em 8 de janeiro de 2023: o sentimento de frustração e falta de pertencimento que estimula esse comportamento é semelhante ao que motiva atitudes misóginas.
          AP Photo/Eraldo Peres
A invasão do Congresso Nacional, em 8 de janeiro de 2023: o sentimento de frustração e falta de pertencimento que estimula esse comportamento é semelhante ao que motiva atitudes misóginas. AP Photo/Eraldo Peres
Foto: CC BY-ND / The Conversation Brasil

Nas últimas semanas, à medida que a campanha eleitoral ganha corpo no Brasil, o roteiro de outras eleições se repete nos grupos de WhatsApp e nas redes sociais: vídeos manipulados, boatos sobre urnas eletrônicas, “vazamentos” fabricados, memes que distorcem falas de candidatos. O impulso natural é perguntar por que tanta gente acredita nesse tipo de conteúdo. Mas a pergunta que orienta minha pesquisa acadêmica é outra: por que as pessoas compartilham notícias falsas mesmo quando não acreditam nelas?

Na minha tese de doutorado, comparei o compartilhamento de conteúdo que promove desestabilização política nos Estados Unidos e no Brasil e encontrei um padrão que ajuda a explicar esse fenômeno: a “necessidade de caos”, que se mostrou o melhor indicador de quem compartilha informação hostil sem embasamento.

A ‘necessidade de caos" é uma disposição psicológica identificada por pesquisadores dinamarqueses em 2023, que descreve a inclinação de alguns indivíduos a apoiar a destruição da ordem política e social existente — não porque acreditam profundamente em uma ideologia específica, mas porque se sentem alienados, marginalizados ou prestes a ser destituídos de status social.

Para essas pessoas, desinformação não é um erro de julgamento; é uma ferramenta.

O que meus dados mostram, tanto em amostras americanas quanto brasileiras, é que a necessidade de caos prediz esse compartilhamento de forma consistente, independentemente da posição ideológica e do status social de quem compartilha. Não é uma característica exclusiva da direita ou da esquerda. É uma disposição que se ativa quando o indivíduo entende que não tem voz nem lugar dentro das instituições — o governo, a mídia, os partidos — ou quando sente que pode perder a voz que tem.

Por que isso importa neste momento?

A Agência Brasileira de Inteligência aponta tentativas de deslegitimar o processo eleitoral e aprofundar a polarização entre as principais ameaças de 2026, ao lado de desinformação com uso de IA. O TSE proíbiu o uso eleitoral de deepfakes com realismo suficiente para enganar o eleitor, mas já liberou o avatar de Jair Bolsonaro que apareceu no no lançamento da campanha do seu filho Flávio.

Além disso, a fiscalização é limitada se comparada à quantidade de conteúdo produzido online e à velocidade de espalhamento. Se as estratégias de combate à desinformação continuarem tratando o problema apenas como “letramento midiático”, corremos o risco de atacar apenas metade do problema. Uma parcela significativa de quem propaga esse conteúdo já sabe que ele é falso. Compartilhar é o objetivo, não um efeito colateral.

Isso não significa que a verificação de fatos seja inútil — ela continua indispensável. Mas sugere que precisamos de uma segunda frente de resposta, voltada não para a crença, e sim para o pertencimento.

Quando alguém compartilha uma fake news para “ver o mundo pegar fogo”, nenhuma checagem de fatos vai dissuadi-la, porque responde à pergunta errada. A pergunta mais adequada é: por que essa pessoa sente que ganha algo ao incendiar o debate público? Pela teoria da identidade social, o indivíduo ganha status no grupo ao compartilhar suas crenças, ou seja, as pessoas espalham informações falsas também porque querem pertencer.

Vi o mesmo padrão ao analisar vídeos dos próprios invasores durante o 8 de janeiro em Brasília: conforme o grupo avançava, sua comunicação não verbal se tornava cada vez mais homogênea, sinalizando a emergência de uma identidade coletiva. Quando a necessidade de caos motiva os marginalizados e os ameaçados, ela parte de um sentimento comum de exclusão.

O que a misoginia tem a ver com isso?

Minha pesquisa aponta ainda um dado raro nas discussões sobre desinformação: atitudes misóginas aumentam o compartilhamento de conteúdo hostil. Além disso, a privação relativa — a percepção de estar em desvantagem em relação ao que se acredita merecer, ou a outros grupos — prevê essas mesmas atitudes, particularmente entre homens.

Ou seja, para parte dos homens deslocados no cenário político e econômico atual, a hostilidade de gênero funciona como linguagem por meio da qual essa frustração é expressa e, às vezes, mobilizada politicamente. Este fio conecta radicalização online, precariedade masculina e discursos misóginos e autoritários, no Brasil e EUA.

Essa desorientação — sentir-se sem voz, sem status, sem lugar — não é um mal-estar abstrato: ela produz efeitos devastadores quando não encontra um canal político legítimo para se expressar. Parte da confusão masculina que busco entender na minha pesquisa não se resolve em debate público. Ela se converte em apoio a discursos que prometem restaurar à força aquilo que se sente perdido, em disposição para ver o circo pegar fogo mesmo que o incêndio consuma junto quem está mais perto.

É por isso que a “necessidade de caos” não pode ser tratada apenas como um problema de desinformação: ela é sintoma de uma crise de pertencimento com consequências que vão muito além das urnas.

Como pesquisadora, o que mais me preocupa não são as pessoas dispostas a mentir por vantagem política — isso sempre existiu. É que a arquitetura das redes sociais recompensa quem já estava disposto a incendiar tudo. Entender a necessidade de caos não é, de forma alguma, desculpar esse comportamento; é reconhecer que, para desarmá-lo, será preciso ir além da verdade dos fatos e chegar à raiz do sentimento de exclusão que o alimenta.

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Marina Petric não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Fonte
The Conversation Brasil
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