Aracy Amaral: quando morre uma referência

18/09/2026 às 21:0028 visualizações
Pedro Mastrobuono - Foto: arquivo pessoal
Pedro Mastrobuono - Foto: arquivo pessoal
Jornal da USP

Por Pedro Mastrobuono, membro da Associação dos Amigos do Museu de Arte Contemporânea da USP

 Publicado: 18/09/2026 às 18:00
Pedro Mastrobuono –
Pedro Mastrobuono – — arquivo pessoal
Pedro Mastrobuono – Foto: arquivo pessoal

Imagem do artigo

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À amiga, à crítica e à mulher que ajudou o Brasil a reconhecer sua própria arte

Não sei dizer quando conheci Aracy Amaral.

Algumas amizades possuem uma data. Lembramos do primeiro encontro, de quem apresentou quem, da circunstância em que duas vidas até então separadas passaram a se reconhecer.

Com Aracy, não.

Quando comecei a organizar minhas próprias lembranças, ela já estava nelas.

Era amiga de meu pai. Pertencia àquele universo de artistas, críticos, colecionadores e estudiosos para quem a arte moderna brasileira não era ainda apenas um capítulo consolidado nos livros de história. Era uma experiência próxima, muitas vezes pessoal. Alfredo Volpi não era somente um nome consagrado. Era alguém cuja obra se acompanhava, discutia, colecionava, estudava e, progressivamente, aprendia-se a compreender.

Talvez por isso a morte de Aracy Amaral produza em mim uma sensação difícil de decompor.

Perco uma amiga.

Mas o Brasil perde também uma referência.

E referência é uma palavra que merece cuidado. Há pessoas importantes porque ocuparam cargos. Outras porque escreveram livros. Algumas porque descobriram artistas, organizaram exposições, formaram pesquisadores ou dirigiram instituições.

Aracy fez tudo isso.

Mas tornou-se referência porque, ao longo de décadas, ajudou a estabelecer critérios através dos quais o Brasil aprendeu a olhar para sua própria produção artística.

Sua trajetória intelectual está profundamente ligada ao estudo do Modernismo brasileiro. Tarsila do Amaral ocupou lugar central nessa investigação, assim como as relações entre modernidade, identidade, arquitetura e artes visuais no Brasil e na América Latina. Aracy não se limitou a comentar um cânone já estabelecido. Participou de sua construção crítica.

E isso significa assumir riscos.

Hoje determinadas obras parecem inevitavelmente importantes porque décadas de museus, exposições, pesquisas, livros e universidades nos ensinaram a reconhecê-las dessa maneira. Mas aquilo que depois se torna consenso um dia foi escolha.

Alguém precisou olhar antes.

Alguém precisou estudar.

Comparar.

Documentar.

Defender.

Discordar.

Selecionar.

Expor.

Escrever.

Talvez seja esse um dos trabalhos menos visíveis da crítica de arte: não simplesmente dizer ao público aquilo de que deve gostar, mas construir condições intelectuais para que uma obra possa ser verdadeiramente vista.

Aracy sabia olhar.

Volpi

Essa capacidade tornou-se particularmente próxima de minha própria trajetória através de Alfredo Volpi.

Aracy conhecia profundamente sua obra. Em 1972, foi responsável pela grande retrospectiva Alfredo Volpi: pintura (1914–1972), no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Décadas depois, a documentação produzida por ela naquele processo ainda teria utilidade para os trabalhos de reconstrução documental do universo volpiano e para o catálogo raisonné.

Isso diz muito sobre aquilo que considero pesquisa séria.

Uma pesquisa não termina necessariamente quando o pesquisador publica suas conclusões.

Às vezes deixa rastros que permitem que outra geração continue.

Fotografias.

Anotações.

Correspondências.

Listagens.

Procedências.

Dúvidas.

Hipóteses.

Uma informação aparentemente lateral pode, cinquenta anos depois, ajudar alguém a reconstruir a história de uma obra.

Talvez por minha própria experiência com catálogos raisonné, eu tenha aprendido a admirar especialmente esse tipo de pesquisador: aquele que não deixa apenas interpretações, mas também condições para que outros possam continuar interpretando.

Aracy pertenceu a essa linhagem.

E há uma coincidência institucional significativa. O Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), que ela viria a dirigir, conserva um conjunto público extraordinário da obra de Volpi. Sua história pessoal, portanto, cruzou sucessivamente pesquisa, crítica, curadoria, documentação e instituição.

Essas coisas nunca estiveram inteiramente separadas nela.

Theon Spanudis e a coragem de receber

Outro personagem ajuda a compreender esse universo.

Theon Spanudis foi crítico, poeta, colecionador, interlocutor de artistas e um dos signatários do Manifesto Neoconcreto. Colecionou Volpi, José Antônio da Silva e artistas ligados às vertentes construtivas brasileiras, formando um conjunto de enorme singularidade.

Sua relação com o MAC-USP constitui um capítulo fascinante da história do colecionismo brasileiro.

Spanudis destinou ao museu centenas de obras, incorporadas em etapas. Parte importante desse processo antecedeu a chegada de Aracy à direção do MAC, e outra etapa ocorreu durante o período em que ela dirigia a instituição.

Essa cronologia é importante porque a memória precisa ser tão cuidadosa quanto o afeto.

Aracy não “criou” a coleção Spanudis do MAC.

Mas coube à instituição durante sua gestão algo igualmente relevante: conviver criticamente com aquele legado, pesquisá-lo, expô-lo e participar de sua progressiva incorporação à história do museu.

Em 1983, já sob sua direção, o MAC realizou uma exposição dedicada à Coleção Theon Spanudis.

Hoje podemos olhar retrospectivamente para aquele conjunto e reconhecer sua importância.

Mas museus não vivem retrospectivamente.

Precisam decidir no presente.

E decidir sobre arte contemporânea ou recente é sempre mais difícil do que conservar aquilo que o tempo já consagrou.

Essa talvez seja uma dimensão importante da coragem museológica: receber aquilo cujo futuro ainda não está inteiramente decidido.

Theon e Aracy também mantiveram interlocução pessoal. Sobrevive documentação dessa relação. Uma dedicatória de Aracy a Spanudis, de 1971, registra sua admiração pela sensibilidade do crítico.

Esses pequenos documentos me interessam cada vez mais.

Porque instituições possuem organogramas, mas a cultura também possui relações.

Antes de determinadas obras entrarem num museu, existiram conversas.

Amizades.

Discordâncias.

Cartas.

Visitas a ateliês.

Colecionadores.

Críticos.

Artistas.

Talvez uma história da arte que ignore essas relações consiga preservar os objetos e, ainda assim, perder parte do mundo que os tornou possíveis.

Uma mulher ocupando o lugar da autoridade

Há outra dimensão da trajetória de Aracy que não pode ser tratada como nota biográfica.

Ela ocupou posições de autoridade intelectual e institucional numa época em que esses espaços permaneciam fortemente masculinos.

Foi a primeira mulher a dirigir a Pinacoteca de São Paulo e, posteriormente, a primeira mulher a assumir a direção do MAC-USP.

É fácil olhar para essas informações hoje e transformá-las em efeméride.

Não eram.

Dirigir um museu significa decidir.

Decidir significa contrariar.

Escolher uma exposição significa deixar outra para depois.

Adquirir uma obra significa assumir responsabilidade por uma escolha.

Defender patrimônio significa algumas vezes enfrentar conveniências.

Administrar uma instituição universitária significa conviver com forças acadêmicas, políticas, administrativas e intelectuais que nem sempre apontam na mesma direção.

Aracy tinha personalidade.

Tinha posição.

E tinha aquilo que talvez seja ainda mais raro: critério.

Não precisamos concordar com todas as escolhas de uma grande crítica para reconhecer sua grandeza. Talvez seja justamente o contrário. Uma vida intelectual que jamais produz discordância provavelmente não exerceu inteiramente sua liberdade.

Aracy exerceu a dela.

Na Pinacoteca, participou de um período de transformação institucional, ampliando a presença da arte contemporânea e das atividades educativas. Em sua gestão foi encaminhada a proposta de proteção patrimonial do edifício da instituição.

Depois, no MAC-USP, sua trajetória se confundiu com um momento decisivo da história do museu.

Museus não são apenas edifícios que guardam obras.

São escolhas acumuladas.

Cada direção recebe escolhas anteriores e acrescenta as suas.

Algumas envelhecem.

Outras são revistas.

Algumas se revelam extraordinariamente lúcidas.

E é precisamente por isso que a história de um museu também pode ser lida através daqueles que tiveram coragem de decidir dentro dele.

A crítica que se tornou arquivo

Existe algo particularmente comovente em saber que o arquivo pessoal de Aracy Amaral, hoje preservado no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, reúne milhares de documentos.

Quem passou a vida interrogando arquivos tornou-se arquivo.

Cartas.

Anotações.

Rascunhos.

Documentos.

Vestígios de trabalho.

Aquilo que uma pessoa guardou sem necessariamente imaginar todas as perguntas que alguém formularia no futuro.

Isso me toca profundamente porque passei parte considerável de minha vida profissional tentando compreender o que significa preservar.

Preservar não é simplesmente impedir que uma folha amarele.

É conservar possibilidades de pergunta.

Um documento que hoje parece secundário pode responder amanhã a uma questão que ainda não sabemos formular.

Foi assim com Volpi.

Foi assim tantas vezes nos museus.

E continuará sendo assim com Aracy.

Ela escreveu sobre história da arte.

Agora também será fonte para a história da arte.

Antonio Henrique

Minha relação com Aracy possuía ainda uma dimensão profundamente pessoal: seu irmão, Antonio Henrique Amaral, foi um grande amigo meu.

Não digo isso retrospectivamente, movido pela emoção da perda de Aracy. Há fotografias, livros, exposições e registros de uma convivência que atravessou anos. Estivemos juntos em lançamentos, em atividades na Pinacoteca, dividimos palestra no MuBE, participamos de programas de televisão e, sobretudo, conversamos muito sobre arte.

Colecionei Antonio Henrique. Admirei profundamente sua pintura. Mas nossa relação ultrapassava aquela que pode existir entre colecionador e artista.

Éramos amigos.

Hoje, quando olho fotografias nossas em momentos tão diferentes, percebo novamente aquilo que a memória faz com as imagens. No instante em que foram tiradas, registravam encontros. Com o passar do tempo, começaram a registrar uma relação.

Uma fotografia guarda um instante. Uma sequência de fotografias pode acabar revelando uma amizade.

Talvez por isso Aracy nunca tenha pertencido, para mim, apenas ao mundo institucional da crítica de arte. Havia entre nós uma proximidade anterior e maior, construída também por relações familiares, por meu pai, por Volpi, por Antonio Henrique e por uma geração de artistas, críticos e colecionadores que durante décadas se encontrou, discutiu, discordou e ajudou a construir parte importante da história da arte brasileira.

Aracy não era para mim apenas a pesquisadora que eu encontrava em congressos ou a ex-diretora de um museu com o qual eu mantinha relações institucionais.

Pertencia a uma geografia afetiva muito anterior.

Conheceu meu pai.

Conheceu pessoas que formaram meu olhar.

Conheceu artistas que depois se tornariam parte importante de minha própria trajetória.

Há pessoas que conhecemos.

E há pessoas que já estavam no mundo quando começamos a reconhecê-lo.

Aracy pertencia, para mim, a essa segunda categoria.

E talvez a perda de Aracy alcance também esse território. Com ela desaparece mais uma testemunha de um mundo de relações humanas que existia por trás das obras, das exposições, dos museus e dos livros que hoje chamamos simplesmente de história da arte.

24 de abril de 2019

Guardo uma fotografia.

É 24 de abril de 2019.

Estamos na Pinakotheke Cultural, em São Paulo, no preview de Estética de uma amizade — Alfredo Volpi e Bruno Giorgi, exposição com curadoria de Max Perlingeiro e minha.

A fotografia não é extraordinária como fotografia.

Talvez justamente por isso seja extraordinária como memória.

Há cadeiras.

Pessoas sentadas.

Obras nas paredes.

Gente ouvindo.

Um instante comum de uma atividade cultural.

Aracy está ali.

Compareceu.

Hoje, olhando novamente para aquela imagem, percebo que talvez esse verbo diga alguma coisa sobre nossa relação que os currículos não conseguem registrar.

Aracy comparecia.

Quando eu tomava alguma iniciativa em que acreditava, muitas vezes ela aparecia.

Olhava.

Conversava.

Perguntava.

Prestigiava.

Naquele dia, foi à exposição. Trouxe pessoas. Participou daquele momento em que procurávamos reconstruir outra relação da história da arte brasileira: a amizade entre Volpi e Bruno Giorgi.

É curioso pensar nisso agora.

Uma exposição sobre amizade tornou-se também documento de uma amizade.

A fotografia que naquele dia registrava um evento hoje registra uma ausência.

Essa transformação talvez seja uma das operações mais misteriosas da memória.

Uma fotografia não muda.

Nós mudamos diante dela.

Em 2019, aquela imagem dizia:

Aracy está aqui.

Hoje ela diz:

Aracy esteve aqui.

Entre uma frase e outra, cabe uma parte inteira da experiência humana.

Três fotografias

Escolhi três imagens para acompanhar estas palavras.

Uma mostra Aracy já reconhecida como aquilo que se tornou para a cultura brasileira: uma intelectual cuja presença carregava autoridade.

Outra pertence a um tempo anterior, aproximando-nos daquela história da arte que ela própria ajudaria a documentar e escrever.

E a terceira vem de meu arquivo pessoal.

Não escolhi esta última porque seja a melhor fotografia de Aracy.

Escolhi porque talvez seja a mais verdadeira para aquilo que tento dizer.

Ela está sentada entre outras pessoas.

Não ocupa o centro da imagem.

Não posa.

Está presente.

Talvez fotografias também tenham vidas que desconhecemos quando são feitas.

Algumas começam como registro.

Depois tornam-se documento.

E um dia, sem que sua superfície tenha mudado, transformam-se em saudade.

Quando morre uma referência

A palavra “referência” é usada com facilidade.

Mas uma referência verdadeira não é apenas alguém que sabemos citar.

É alguém cuja ausência modifica o campo em que permanecemos.

Aracy Amaral deixa uma produção intelectual extraordinária.

Deixa pesquisas fundamentais sobre Modernismo brasileiro.

Deixa Tarsila.

Deixa Volpi.

Deixa exposições.

Deixa sua passagem pela Pinacoteca.

Deixa o MAC-USP.

Deixa alunos.

Deixa pesquisadores.

Deixa escolhas curatoriais.

Deixa documentos.

Deixa um arquivo.

Deixa também discordâncias, porque somente trajetórias intelectuais sem importância conseguem atravessar muitas décadas sem produzi-las.

E deixa uma história particularmente importante para as mulheres brasileiras que vieram depois dela.

Ocupar autoridade quando a autoridade ainda possuía, quase sempre, rosto masculino não foi detalhe de sua biografia.

Foi parte de sua obra pública.

Passei boa parte de minha vida profissional pensando em patrimônio.

Aprendi que preservar não significa apenas conservar objetos.

É também impedir que desapareçam as relações que nos permitem compreender por que determinados objetos importam.

Aracy passou a vida fazendo isso.

Estudou, documentou, escreveu, dirigiu, escolheu, discordou, preservou, formou.

E compareceu.

Esta última palavra talvez pertença apenas à memória do amigo.

Mas hoje é aquela de que mais preciso.

Porque cargos terminam.

Exposições fecham.

Livros envelhecem fisicamente.

Museus mudam.

Gerações críticas substituem outras.

E, no entanto, determinadas presenças continuam agindo depois que a pessoa já não pode estar presente.

Aracy agora pertence também ao patrimônio que passou a vida ajudando o Brasil a compreender.

Seus livros permanecerão.

Seu arquivo permanecerá.

As instituições que dirigiu guardarão alguma coisa de suas escolhas.

As obras que estudou continuarão sendo vistas também através de perguntas que ela ajudou a formular.

E aquela fotografia de abril de 2019 permanecerá comigo.

Algumas pessoas deixam obra.

Outras deixam instituições.

Outras deixam memória.

Aracy Amaral deixa as três.

E para alguns de nós deixa ainda uma quarta coisa, muito mais difícil de catalogar, impossível de tombar e inteiramente resistente a qualquer metodologia de conservação: SAUDADE.

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Fonte
Jornal da USP
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