‘Defendemos o retorno do Brasil à sua própria cultura alimentar’, diz vereadora do MST

Por Marina Duarte de Souza19/09/2026 às 16:0022 visualizações
Maira Santana, vereadora (PT-RJ) e historiadora, na Câmara Municipal do Rio
Maira Santana, vereadora (PT-RJ) e historiadora, na Câmara Municipal do Rio
Brasil de Fato

Com o Brasil às vésperas de um novo ciclo eleitoral, a disputa por hegemonia também passa pelo prato do brasileiro. Apesar de o país ter saído novamente do Mapa da Fome da ONU durante o governo Lula, em 2025, outro alerta ganha força: o consumo de alimentos ultraprocessados. Um estudo da Fiocruz mostra que uma a cada dez mortes no país pode ser atribuída a esses produtos — são 57 mil óbitos por ano, o equivalente a 156 mortes por dia, além de um impacto de R$ 10,4 bilhões anuais aos cofres públicos. No Rio de Janeiro, o problema é ainda mais grave que a média nacional: o estado tem 10,9% das mortes ligadas ao consumo desses alimentos.

É nesse cenário que a Câmara Municipal do Rio criou a Comissão Permanente de Segurança Alimentar e Nutricional. Uma das responsáveis por sua criação é a vereadora Maíra Santana (PT), historiadora, professora e militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Para ela, a comissão não nasceu isolada: é parte de um projeto político construído em conjunto com a deputada estadual Marina do MST, presidenta da Comissão de Segurança Alimentar da Alerj. “A gente entra nessa tarefa da institucionalidade com essa missão e com o debate da soberania alimentar nos territórios e do combate à fome”, explica a vereadora, para quem a desigualdade que atravessa a cidade “faz parte de um arcabouço muito maior de um modelo de desenvolvimento que leva à fome”.

Nesta edição do Bem Viver, programa do Brasil de Fato, Maíra associa esse mesmo projeto neoliberal que dita o que e como o povo brasileiro come ao avanço da direita entre os jovens: “Assim como a cultura alimentar, a consciência da juventude também está sendo disputada por esse projeto neoliberal, que promove a fascistização”. Nesse cenário, segundo ela, pautas como a escala de trabalho 6×1 e a precarização via aplicativos se tornam também questões de segurança alimentar — e, portanto, temas que devem entrar na disputa eleitoral que se aproxima.

Para a vereadora, a fome não é fatalidade nem escolha individual, mas resultado de um “colonialismo alimentar” que impõe hábitos ligados ao fast food em detrimento da cultura alimentar dos povos originários e da população negra. “Não estamos falando sobre a pessoa gostar ou não gostar. É todo um ecossistema político, toda uma estrutura que leva os sujeitos e as subjetividades para determinados gostos”, afirma. A saída, na sua avaliação, está na reforma agrária popular, na agroecologia, no fortalecimento das cozinhas comunitárias e, sobretudo, num projeto de educação alimentar que comece nas escolas.

Em entrevista, Maíra Santana fala sobre os desafios de transformar a segurança alimentar em política de Estado no Rio de Janeiro, o papel da Câmara como órgão fiscalizador, o diálogo com uma juventude precarizada e pós-pandemia, e por que comer bem também é uma forma de disputa política. Confira.

Brasil de Fato: Como atua a Comissão de Segurança Alimentar na Câmara do Rio de Janeiro, quais são os objetivos e articulação com os movimentos populares?

Maíra Santana: Sobre a Comissão Permanente de Segurança Alimentar e Nutricional da Câmara, ela se insere, na verdade, num contexto de elaboração política do Movimento Sem Terra aqui no Rio de Janeiro. Acho importante destacar que a comissão não é uma coisa solta dentro do nosso projeto; ela é uma parte inerente a tudo o que a gente vem construindo junto com a deputada estadual Marina do MST, que é presidenta da Comissão de Segurança Alimentar da Alerj (Assembleia Legislativa). A gente entra nessa tarefa da institucionalidade (tanto a Marina quanto, posteriormente, eu) com essa missão e com o debate da soberania alimentar nos territórios e do combate à fome.

Nós protocolamos essa comissão de segurança alimentar na compreensão de que não é possível uma cidade como o Rio de Janeiro ser perpassada por diversos graus de desigualdades que não são culpa da gestão X ou da gestão Y. Elas podem, sim, ser aprofundadas por gestões, mas, na verdade, isso faz parte de um arcabouço muito maior de um modelo de desenvolvimento que leva à fome, em que a consequência é a fome, porque o desemprego e o encarecimento dos alimentos são consequências desse modelo.

Então, essa comissão nasce com o objetivo de ser uma ponta de lança e um mecanismo de luta no combate à fome na cidade do Rio de Janeiro. Mas, mais do que isso, nasce para pensar efetivamente como conseguimos estruturar a segurança alimentar dentro da lógica das políticas públicas, assim como o combate ao racismo, o combate ao feminicídio e a assistência social, que são comissões que já existem na Câmara Municipal. Isso nos fez refletir: por que não criar uma comissão de segurança alimentar, na medida em que a fome, embora a gente tenha saído do Mapa da Fome, é uma realidade de um modelo de desenvolvimento desigual, como nós vivemos no Sul Global e no mundo inteiro? Então, acho que é uma comissão que vem nessa perspectiva de entender que a fome é um problema estrutural e que, por ser um problema estrutural, a gente só consegue avançar em medidas de segurança alimentar com política pública.

A Bela Gil faz um alerta de que o “Brasil está morrendo pela boca” em relação ao consumo excessivo dos ultraprocessados, sobretudo pela população mais vulnerável. Como garantir políticas públicas que não só matem a fome?

Quando a gente fala sobre a importância da alimentação saudável em relação à justiça e à inclusão social, a gente também está falando sobre a qualidade do alimento. Algo que a gente bate muito na tecla, junto com os movimentos sociais, o Consea e o conjunto de organizações da sociedade civil, é que não basta sair do Mapa da Fome: é preciso garantir soberania alimentar e segurança alimentar.

A segurança alimentar, enquanto conceito, também fala sobre a qualidade do alimento, seja ele ultraprocessado ou não. A diferença entre você comer arroz, feijão, uma proteína e um legume verde versus comer um macarrão com salsicha tem uma variação na tabela nutricional e na qualidade do alimento que é muito grande. O debate que a gente vem fazendo em relação ao consumo de ultraprocessados não está ligado necessariamente apenas à questão da cultura alimentar. Ele é, em grande parte, relacionado à cultura alimentar e a essa lógica do fast food promovida pelo colonialismo alimentar, mas também é um debate de saúde.

Portanto, a alimentação saudável, a alimentação orgânica e a diminuição de ultraprocessados não são só um debate sobre a comida, mas sobre a saúde de uma sociedade. É um pouco nessa linha que a gente tem tentado disputar essa agenda do combate à fome junto com os movimentos sociais. Quer dizer, não basta a cozinha solidária garantir uma alimentação se a comida não tiver qualidade nutricional. Aqui a gente não está falando de a comida ser “boa” ou “ruim” no paladar, mas sim da qualidade nutricional de um alimento. Por isso, a gente tem pautado muito essa redução do consumo de ultraprocessados, usando também a comissão como um ente fiscalizador em relação ao uso desses produtos nos equipamentos públicos do município do Rio.

No Rio, o uso de ultraprocessados nos equipamentos públicos é bem menor do que em outros municípios, talvez. A gente tem, de fato, o uso de uma alimentação mais robusta e bastante qualificada nesses equipamentos, mas, ainda assim, a gente precisa estar monitorando e ter essa vigilância sempre. O papel da Câmara é exatamente esse.

Como esse debate da alimentação saudável tem chegado à população, uma vez que também estão na mesa os hábitos alimentares? Por exemplo, é comum os “ecas” em relação ao consumo de legumes e verduras.

Sobre o que forma essa relação da alimentação e como isso chega para a população: a gente percebe que não é, necessariamente, sobre um sentido de escolha individual. A leitura que a gente faz é que existe o que chamamos de colonialismo alimentar, uma cultura alimentar do fast food e do ultraprocessado que está ligada a uma lógica de sociedade voltada para o consumo do modelo ocidental e do capitalismo, com os olhos voltados para o imperialismo, o que também traz consequências para a alimentação. Acho que esse é o xis da questão.

Quando estamos debatendo a questão do alimento e falando sobre segurança alimentar, também estamos falando de uma luta anti-imperialista. Quando olhamos para a cultura alimentar do Brasil, dos povos originários e da população negra, percebemos um nível de segurança alimentar e nutrição muito maior do que o que é vendido como comida boa e gostosa pelo império, pelo imperialismo e pelos países ligados ao capitalismo desenvolvimentista.

Então, acho importante situar essa estrutura, porque não estamos falando sobre a pessoa gostar ou não gostar. É todo um ecossistema político, toda uma estrutura que leva os sujeitos e as subjetividades a determinados gostos. Esse é o primeiro ponto: essa contextualização mais estrutural do que se entende por comida gostosa ou não.

Dito isso, não quer dizer que seja um debate fácil. A própria lei dos ultraprocessados é uma lei muito polêmica, e acho que a polêmica dela é justamente por isso: porque existe um modus operandi, uma cultura alimentar do açúcar, do sal, da salsicha e do nugget que acabou sendo consequência desse modelo de sociedade.

O que a gente vem defendendo é que o debate da alimentação saudável precisa estar calcado também em um debate sobre educação e educação alimentar, ressaltando o papel das escolas em serem esses polos por serem locais de construção do conhecimento. Eu sou professora e vejo na ponta como a construção do conhecimento diz respeito a hábitos e valores. O debate da alimentação precisa estar baseado nessa perspectiva cultural porque estamos falando de uma disputa contra-hegemônica. Não é sobre inventar a roda ou construir um elitismo alimentar, como muitas vezes querem vender para tentar manter a lógica do uso dos ultraprocessados.

O que defendemos, na verdade, é o retorno do Brasil e do nosso povo à sua própria cultura alimentar. Quando vemos o uso do milho (não o milho transgênico, mas o milho da semente crioula), dos povos originários, do feijão e de todos esses alimentos que fazem parte da ancestralidade do nosso povo, do povo negro e das religiões de matriz africana, que promovem essa segurança alimentar há muitos anos, o que estamos propondo é fortalecer essa lógica. É mostrar para o conjunto da população, junto com a galera que constrói essa resistência, que é possível, sim, comer bem e comer barato sem o consumo de ultraprocessados.

Como dialogar sobre reforma agrária e justiça social com a juventude?

Eu acho que, de fato, vivemos em uma conjuntura política bem difícil para a juventude, não apenas a nível de escolhas individuais. Assim como a cultura alimentar, a consciência da juventude também está sendo disputada por esse projeto neoliberal, que promove a fascistização e o que entendemos agora como “maschoesfera”, com essa questão do aumento da lógica redpill e do uso das redes sociais para propagar misoginia e ódio às mulheres.

Então, estamos falando sobre como esse debate mais macro da política e o aumento da extrema direita impactam a nossa vida, o alimento e a vida da juventude. Precisamos ter muita sensibilidade para perceber que, muitas vezes, a juventude está resistindo e construindo suas formas de sobrevivência, mas talvez não da maneira organizativa mais tradicional como a minha geração (a geração dos anos 90, eu sou de 95) viveu nos movimentos sociais.

Agora estamos falando de uma geração pós-pandemia em que quem fez faculdade nesse período, por exemplo, viveu quase metade do curso de forma on-line, com uma linha de individualização dos problemas e, portanto, de individualização das saídas. É um problema que, assim como o debate dos ultraprocessados, é muito estrutural. A resposta que o sistema econômico vem dando para essa juventude é cada vez mais precarização do trabalho e aumento da exploração.

Quando falamos, por exemplo, da escala 6×1, precisamos geracionalizar esse debate. São jovens que estão atendendo no telemarketing ou nos postos das lojas de shopping, que não podem estudar porque estão atrás dos balcões. São lutas que fazem parte da realidade da juventude, e acho que precisamos caminhar juntos.

Rodando por meio da comissão e aprofundando o debate da segurança alimentar, vemos que há muito jovem engajado nessa pauta, tanto nos territórios, por meio das organizações de agricultura urbana e do próprio MST (que fortalece muito o seu setor de juventude), quanto nas universidades. Vemos o aumento do engajamento por meio de iniciativas dos cursos de Nutrição, das Ciências Agrárias e da própria Medicina, que vêm entendendo a necessidade de disputar a agenda da segurança alimentar fazendo esse recorte geracional.

O debate da segurança e da soberania alimentar é um debate de saúde. E, se estamos falando de saúde, estamos falando de gerações: o que a gente come aos 20 ou 30 anos a gente pode não sentir agora, mas aos 60 vai sentir. Estamos falando sobre um presente que precisa ser disputado para o futuro e também sobre a ausência do alimento.

O Rio de Janeiro, por exemplo, por meio do estudo do Mapa da Fome, tem 500 mil pessoas em situação de insegurança alimentar. São jovens submetidos a escalas de trabalho absolutamente precárias nas empresas de aplicativo. Como a gente consegue fortalecer esses jovens que estão no corre e no mundo do trabalho, mas sem deixar que a sua vida seja sobrecarregada? Dialogando com a realidade desse jovem precarizado, talvez a gente consiga se reconectar com os anseios dessa geração. Debater os problemas da juventude a partir do que ela vive é fundamental para que a gente consiga reconectar a esquerda e as nossas bandeiras com essa juventude altamente explorada e submetida a regimes de trabalho quase análogos à escravidão, como a escala 6×1.

Como a proposta da Reforma Agrária Popular responde, na prática, aos problemas urbanos de desabastecimento e fome em uma metrópole como o Rio de Janeiro?

Acho que os mandatos do MST e o nosso trabalho na Câmara do Rio, e no Brasil inteiro, têm esse compromisso de promover o debate sobre segurança e soberania alimentar, fortalecer a agroecologia e as cozinhas comunitárias, sem deixar de lado o debate estrutural sobre o modelo de desenvolvimento em que vivemos.

A reforma agrária popular surge como uma resposta que consegue congregar, enquanto projeto, a totalidade dessas dificuldades: desapropriando terras improdutivas para produzir alimentos saudáveis, fortalecendo a escola do campo e permitindo que a juventude permaneça no campo, podendo estudar e tendo acesso à cultura. Estamos sempre tentando falar da relação com o alimento e com a comida, sem deixar de lado esse olhar estrutural e a necessidade de transformação que nos faz acordar todos os dias.

E tem mais…

Nesta edição, o Bem Viver estreia a série “Brasil Decide”, da TeleSUR, que percorre o Brasil para ouvir as lutas e reivindicações dos povos que formam o país em ano eleitoral.

A equipe visita a Aldeia Vitória, do povo Tabajara, no litoral sul da Paraíba, onde a luta pela demarcação de terras caminha lado a lado com a decisão de ocupar espaços de poder — um recorde de candidaturas indígenas marca as eleições deste ano.

No interior de Alagoas, acompanhe a história de resistência e conquista da terra do Acampamento Che Guevara por meio da reforma agrária, um dos grandes desafios para o próximo governo.

Na cozinha, a chef Gema Soto ensina um mousse de café simples e cheio de sabor.

E lá na China, na província de Gansu, conheça uma tradição musical camponesa com mais de um século de história.

Quando e onde assistir?

No YouTube do Brasil de Fato, todo sábado às 12h55, tem programa inédito. Basta clicar aqui.

Na TVT: sábado às 13h; com reprise domingo às 6h30 e terça-feira às 20h no canal 44.1 – sinal digital HD aberto na Grande São Paulo e canal 512 NET HD-ABC.

Na TV Brasil (EBC), sexta-feira às 6h30.

Na TVE Bahia: sábado às 12h30, com reprise quinta-feira às 7h30, no canal 30 (7.1 no aparelho) do sinal digital.

Na TVCom Maceió: sábado às 10h30, com reprise domingo às 10h, no canal 12 da NET.

Na TV Floripa: sábado às 13h30, reprises ao longo da programação, no canal 12 da NET.

Na TVU Recife: sábados às 12h30, com reprise terça-feira às 21h, no canal 40 UHF digital.

Na UnBTV: sextas-feiras às 10h30 e 16h30, em Brasília, no Canal 15 da NET.

TV UFMA Maranhão: quinta-feira às 10h40, no canal aberto 16.1, Sky 316, TVN 16 e Claro 17.

Sintonize

No rádio, o programa Bem Viver vai ao ar toda sexta-feira às 10h30, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. Além de ser transmitido pela Rádio Agência Brasil de Fato.

O programa conta também com uma versão especial em podcast, o Conversa Bem Viver, transmitido pelas plataformas Spotify, Google Podcasts, iTunes, Pocket Casts e Deezer.

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

Fonte
Brasil de Fato
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