Sul Global paga 225 vezes mais em dívidas do que recebe em financiamento climático

Por Rodrigo Chagas28/09/2026 às 09:0043 visualizações
Mulheres marcham por justiça climática em Dacar, no Senegal, onde a dívida consome 96% das receitas do governo.
Mulheres marcham por justiça climática em Dacar, no Senegal, onde a dívida consome 96% das receitas do governo.
Brasil de Fato

O Sul Global deve desembolsar US$ 8,8 trilhões com o pagamento de dívidas em 2026, cerca de 225 vezes os US$ 39 bilhões recebidos em financiamento climático na forma de doações em 2024, dado mais recente disponível. A disparidade é um dos principais achados de um novo relatório da ActionAid sobre a relação entre endividamento e crise climática.

O estudo “Dívida agrava crise climática: como o financiamento flui” analisa receitas públicas, dívida soberana, orçamentos e planos climáticos dos 65 países que formam o terço mais vulnerável às mudanças climáticas. Neles, o serviço da dívida consome, em média, 65% das receitas governamentais.

O peso da dívida também supera com folga os recursos reservados para enfrentar a emergência climática. Os países analisados gastam quase 25 vezes mais com o serviço da dívida do que com ações climáticas em 2026. Os pagamentos equivalem ainda a quase quatro vezes os gastos com educação, sete vezes os de saúde e seis vezes os de proteção social.

O levantamento aponta ainda que 93,5% dos países mais vulneráveis à crise climática enfrentam uma crise de endividamento ou correm risco significativo de chegar a essa situação. Enchentes, secas, ciclones e outros eventos extremos, por sua vez, aumentam a necessidade de recursos para recuperação e reconstrução e podem levar governos a recorrer a novos empréstimos.

“Por tempo demais, as crises da dívida e do clima foram tratadas separadamente. Esta pesquisa revela como elas estão profundamente interligadas e quantifica o custo devastador envolvido”, afirma Arthur Larok, secretário-geral da ActionAid Internacional.

Um ciclo de dívida e eventos extremos

O relatório descreve um ciclo em que países recorrem a empréstimos para se recuperar de desastres climáticos e, depois, enfrentam pagamentos da dívida e medidas de austeridade que reduzem os recursos disponíveis para adaptação, prevenção de novos desastres, serviços públicos e transição energética.

A necessidade de obter moeda estrangeira para pagar credores também pode pressionar governos a ampliar a produção e exportação de combustíveis fósseis e produtos da agricultura industrial. Segundo a ActionAid, a expansão dessas atividades aumenta as emissões e contribui para alimentar a própria crise climática.

“A dívida representa um golpe triplo para o clima: impulsiona a expansão dos combustíveis fósseis e da agricultura industrial, bloqueia ações climáticas vitais e deixa as comunidades perigosamente expostas quando ocorrem desastres. Esta é uma relação tóxica. Os países contraem empréstimos para reconstruir, a austeridade enfraquece sua resiliência e a pressão para pagar as dívidas leva a mais extração, alimentando o desastre seguinte”, afirma Teresa Anderson, líder global de Justiça Climática da ActionAid Internacional e uma das autoras do relatório.

O endividamento também aparece dentro do próprio financiamento climático. Segundo o estudo, dois terços dos recursos classificados pelos países desenvolvidos nessa categoria são fornecidos como empréstimos ou outros instrumentos que geram dívida, inclusive para países que já enfrentam dificuldades para pagar seus credores.

No Senegal, dívida supera em 600 vezes orçamento climático

No Senegal, o serviço da dívida em 2026 supera em mais de 600 vezes o orçamento destinado a ações climáticas e equivale a 96% das receitas do governo, segundo o levantamento.

O país colocou a agroecologia entre suas estratégias para fortalecer a segurança alimentar e enfrentar os impactos das mudanças climáticas. A crise das contas públicas, porém, restringiu os recursos para colocar os planos em prática. Iniciativas previstas para ampliar a transição agroecológica, como formação, regeneração do solo, sistemas de certificação, proteção social e apoio à comercialização, permanecem sem orçamento, de acordo com o relatório.

Cancelamento poderia financiar seis vezes planos climáticos

A ActionAid calcula que o cancelamento da dívida dos países vulneráveis poderia liberar recursos equivalentes a seis vezes o necessário para financiar seus planos climáticos nacionais básicos e incondicionais. O mesmo montante seria suficiente para cobrir duas vezes os atuais gastos desses países com clima, saúde, educação e proteção social somados.

Entre as medidas propostas pela organização estão o cancelamento de dívidas externas consideradas impagáveis ou injustas e a suspensão do serviço da dívida por pelo menos cinco anos para países atingidos por grandes desastres relacionados ao clima. A ActionAid também defende a criação de uma Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Dívida Soberana e que o financiamento climático do Norte Global seja fornecido na forma de doações, e não de novos empréstimos.

“Esse ciclo vicioso pode e deve ser rompido. É preciso cancelar dívidas injustas e insustentáveis, parar de obrigar os países a contraírem empréstimos para sobreviver aos impactos climáticos, além de fornecer financiamento climático na forma de doações, em vez de empréstimos”, afirma Anderson.

Fonte
Brasil de Fato
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