Custos sociais das bets equivalem a quase R$ 4 para cada R$ 1 arrecadado pelo governo

Por Rodrigo Chagas28/09/2026 às 19:5252 visualizações
Propagandas de bets no Brasil já devem vir acompanhadas de advertência
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Brasil de Fato

Para cada R$ 1 arrecadado pelo governo federal com as bets em 2025, os custos sociais associados às apostas chegaram a quase R$ 4. As empresas do setor recolheram cerca de R$ 9,95 bilhões em tributos federais no ano passado, enquanto estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps) estima em pelo menos R$ 38,8 bilhões por ano os danos provocados pelo jogo no país.

O valor calculado pelo Ieps não corresponde apenas a despesas dos cofres públicos. A estimativa reúne custos diretos e indiretos, como tratamentos médicos, perda de qualidade de vida e mortes. Só os danos relacionados à saúde somam R$ 30,6 bilhões anuais. Outros efeitos, como as perdas financeiras das próprias famílias que apostam, ficaram fora da conta.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) editou, na última sexta-feira (25), uma medida provisória que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa no Brasil. A medida abrange apostas esportivas e jogos on-line.

A MP proibiu imediatamente novos depósitos nas contas das plataformas. Os sites e aplicativos deverão deixar de oferecer apostas dez dias após a publicação da medida, e as autorizações federais, estaduais e distritais serão extintas ao fim do período de transição previsto pelo governo.

A decisão muda o tratamento dado às bets nos últimos anos. As apostas de quota fixa haviam sido legalizadas em 2018, durante o governo de Michel Temer (MDB) e cresceram vertiginosamente durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). Já no governo Lula, uma nova lei sancionada em dezembro de 2023 ampliou as regras para incluir jogos on-line e estabeleceu o modelo de autorização e fiscalização pelo Ministério da Fazenda. O mercado regulado começou a funcionar em 2025.

Saúde concentra maior parte do custo social

Na estimativa do Ieps, R$ 17 bilhões dos custos ligados à saúde estão associados a mortes por suicídio. Outros R$ 10,4 bilhões correspondem à perda de qualidade de vida relacionada à depressão, e R$ 3 bilhões, aos tratamentos médicos para a doença.

Marcella Semente, uma das autoras do estudo, afirmou ao Brasil de Fato que o levantamento trabalha com uma estimativa conservadora. “O número a que a gente chegou é conservador, bem conservador”, disse. Segundo ela, despesas individuais das famílias que perdem dinheiro nas apostas, por exemplo, não foram incorporadas ao cálculo.

Na apresentação da medida provisória, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, informou que os atendimentos do SUS relacionados a jogo patológico e problemas com apostas cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025. A projeção da pasta é de aumento de mais 104% até 2028.

Mais de 1,3 milhão de brasileiros já solicitaram autoexclusão das plataformas. Entre eles, 51% declararam relação direta da decisão com problemas de saúde. O autoteste disponível no Meu SUS Digital para avaliar os impactos das apostas já foi acessado por mais de 170 mil pessoas.

Os dados apresentados pelo Ministério da Saúde também indicam que mais de 28 milhões de brasileiros haviam apostado nos 12 meses anteriores a uma pesquisa realizada em 2023. Desse total, 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo classificado como de risco ou problemático.

Para Ione Amorim, economista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), a resposta pública construída nos últimos anos ocorreu quando parte dos danos já estava instalada. “O dinheiro chega como reparação de dano, não como prevenção. Quando a gente atua só depois que o problema está posto, é enxugar gelo”, afirmou ao Brasil de Fato.

Entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, de quase R$ 5 bilhões arrecadados pelo governo federal com a tributação das bets, cerca de R$ 57 milhões foram destinados ao Fundo Nacional de Saúde (FNS) para ações de prevenção, controle e mitigação dos danos associados às apostas, pouco mais de 1% do total.

Dinheiro deixa de circular e governo também perde arrecadação

A receita obtida diretamente com as plataformas é apenas uma parte da conta. Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), ligado à FEA-USP, estima que as bets retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, o equivalente a 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB).

O cálculo parte de uma transferência líquida de R$ 62,5 bilhões das famílias para as plataformas no ano passado, diferença entre o dinheiro destinado às apostas e os valores recebidos de volta. Segundo os pesquisadores, parte desses recursos deixou de financiar o consumo de outros bens e serviços.

A retração da atividade teria provocado uma perda de arrecadação entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões. O Made estima que, mesmo considerada a receita obtida pelo governo com as plataformas, o efeito líquido sobre as contas públicas ficou negativo entre R$ 22 bilhões e R$ 46 bilhões.

Bilhões movimentados e poucos empregos

O volume de dinheiro movimentado pelas apostas contrasta com a quantidade de postos de trabalho diretamente gerados pelo setor. Dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) citados em relatório da CPI das Bets apontavam 1.144 empregos formais, média de 19 trabalhadores por empresa.

A presença das empresas, porém, se espalhou por outros setores por meio de publicidade, patrocínios e influenciadores digitais. Em 2025, a Secretaria de Prêmios e Apostas concluiu 412 processos de fiscalização contra influenciadores digitais, com a remoção de 324 perfis e 229 conteúdos irregulares. Em outra frente, mais de 25 mil sites de apostas ilegais foram bloqueados entre outubro de 2024 e dezembro de 2025.

O Ieps estima que cerca de 1,4 milhão de brasileiros estejam em situação de jogo problemático. O levantamento também aponta maior exposição entre pessoas de menor renda e calcula que usuários de plataformas on-line têm quatro vezes mais chances de desenvolver transtorno do jogo do que apostadores de outras modalidades.

“A gente não pode tratar as bets como um mercado financeiro comum. É uma atividade que causa dano à estrutura da sociedade e à saúde da população. E precisa ser tratada como tal”, afirma Ione.

Fonte
Brasil de Fato
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